A comissão de abusos na Polônia também investigará João Paulo II

São João Paulo II. | Foto: Vatican Media

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08 Abril 2026

A Igreja Católica polonesa também enfrenta críticas devido ao escândalo de abusos. Relatos recentes sobre a conduta do ex-arcebispo Karol Wojtyla de Cracóvia, que se tornou Papa em 1978, atraíram considerável atenção.

A informação é publicada por Katholisch, 07-04-2026.

Há mais de três anos, a Conferência Episcopal da Polônia planeja uma comissão de inquérito sobre o abuso sexual de menores. A data exata de início do projeto de pesquisa ainda é incerta. No entanto, a Conferência Episcopal pretende decidir em junho quem presidirá a comissão. Espera-se que D. Wojciech Polak, arcebispo de Gniezno, proponha um ou mais candidatos para a presidência. "A credibilidade e a independência desta comissão dependerão, em última análise, da autoridade da pessoa que assumir a presidência", disse Polak, enfatizando a importância da nomeação.

Segundo informações, os bispos já concordaram que um leigo, e não membro do clero, presidirá a comissão. A nomeação do presidente deve ser aprovada por três órgãos: as duas conferências de superiores de ordens religiosas e a assembleia plenária dos bispos. O mandato da comissão é investigar a extensão dos abusos sexuais contra menores em dioceses e ordens religiosas desde 1945.

Questão da independência

A comissão tem como objetivo esclarecer como a Igreja reagiu a esses crimes. Recomendações para a prevenção de abusos também são esperadas da comissão. O novo arcebispo de Cracóvia, Cardeal Grzegorz Rys, enfatiza outro objetivo: "Acima de tudo, a comissão deve nos ajudar a alcançar as vítimas com as quais ainda não conseguimos estabelecer contato". Rys espera que essas vítimas de abuso se apresentem para que a Igreja possa ajudá-las.

No outono, críticos protestaram, argumentando que as diretrizes planejadas restringiam seriamente a independência da comissão de investigação. Por exemplo, faltavam garantias de livre acesso aos arquivos. O pastor Grzegorz Strzelczyk, defensor das vítimas de abuso sexual, também criticou o fato de a comissão não ter permissão para convocar ou interrogar ninguém.

O comitê não deve ter qualquer poder de influência. O Cardeal Rys também rejeita "intimações e interrogatórios". "Dissemos desde o início que esta não é uma comissão de investigação", afirmou em entrevista. No entanto, a comissão deve, sem dúvida, ter a oportunidade de ouvir os indivíduos. "Relatos orais são necessários, mas como fontes históricas e não como material para investigações", declarou Rys.

O presidente nomeará os demais membros da comissão. Isso visa garantir a independência. Polak já declarou que nenhum sobrevivente de abuso fará parte do painel. No entanto, ele esclareceu que isso não significa que os sobreviventes não serão envolvidos nos trabalhos da comissão. O projeto de pesquisa tem duração prevista de três anos.

Não reagiu adequadamente?

A comissão foi formada em resposta a antigas alegações contra o ex-cardeal Karol Wojtyla de Cracóvia, posteriormente Papa João Paulo II (1978-2005), relacionadas a casos de abuso. Entre outras coisas, um documentário televisivo de março de 2023 acusou Wojtyla de ter conhecimento de alegações de abuso sexual infantil contra três padres enquanto era arcebispo e de não ter reagido adequadamente.

Naquele mesmo mês, a Conferência Episcopal anunciou uma investigação independente em todas as dioceses. Os bispos poloneses, simultaneamente, apelaram "a todos para que respeitem a memória de um de nossos mais ilustres compatriotas". A declaração oficial da época falava de tentativas "sem precedentes" de "desacreditar a pessoa e a obra de São João Paulo II".

Nas últimas semanas, dois jornalistas do jornal "Rzeczpospolita" tiveram acesso a documentos da Arquidiocese de Cracóvia, após o novo arcebispo de Cracóvia, Cardeal Rys, ter aberto os arquivos diocesanos para tais investigações. A pesquisa jornalística exonera João Paulo II, canonizado em 2014. "Wojtyla não acobertou casos de pedofilia, nem transferiu padres quando soube de seus crimes", afirmou o advogado canônico e editor do "Rzeczpospolita", Tomasz Krzyzak.

Wojtyla, enquanto arcebispo na década de 1970, suspendeu os perpetradores e, por exemplo, os proibiu de exercer funções sacerdotais. No entanto, o porta-voz da Arquidiocese de Cracóvia, Piotr Studnicki, admitiu que, a julgar as reações de Wojtyla sob a perspectiva atual, "podemos ficar desapontados por ele não ter tomado medidas que nos parecem óbvias hoje em dia".

Embora Wojtyla estivesse convencido da reprovabilidade moral da pedofilia, "ele não estava isento de culpa", afirmou. Wojtyla não reconheceu na época "a importância de adotar a perspectiva das vítimas de abuso, de encontrá-las e ouvi-las".

Santidade não atacada

O arcebispo da época "não se importou com as vítimas", disse o porta-voz da diocese, Studnicki, em entrevista à revista semanal "Tygodnik Powszechny". Ele enfatizou, no entanto, que Wojtyla observou as leis estaduais e o direito canônico aplicáveis ​​nos casos conhecidos e tomou as medidas prescritas. Studnicki não considera que a santidade de João Paulo II tenha sido comprometida.

"A santidade de Karol Wojtyla não exige nem uma idealização de sua pessoa, nem o ocultamento de suas limitações ou mesmo de suas falhas", afirma ele. "Pois a santidade consiste em viver heroicamente a fé, a esperança e o amor, apesar dos próprios pecados, falhas e limitações. Por mais orgulhosos que possamos estar de suas virtudes cristãs, também devemos ser capazes de aceitar que ele cometeu erros e teve fraquezas."

Studnicki espera que novas investigações forneçam um quadro mais completo: "Elas nos oferecem a oportunidade de descobrir a humanidade de Wojtyla e também de corrigir nossa imagem de santidade". Rys parece compartilhar dessa opinião. O arcebispo de Cracóvia declarou à emissora polonesa TVN24 que a ausência de uma comissão de inquérito sobre abusos certamente prejudica a imagem da Igreja na Polônia mais do que a sua própria existência.

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