Quinta-feira Santa e o cuidado com o próximo. Artigo de Robson Ribeiro

Foto: Banco Mundial/Jamie Martin

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02 Abril 2026

"A Quinta-feira Santa nos convida a um exercício de lucidez. Não basta emocionar-se com a beleza do gesto de Cristo; é preciso confrontar-se com a própria incoerência. Quantas vezes buscamos o Cristo que nos serve, mas recusamos o Cristo que nos chama a servir?", questiona o professor Robson Ribeiro, Teólogo, Filósofo e Psicanalista.

Eis o artigo. 

A Quinta-feira Santa não é apenas memória litúrgica; é uma interpelação radical à nossa forma de existir no mundo. Nela, não celebramos somente um evento passado, mas nos colocamos diante de um gesto que rompe a lógica dominante das relações humanas: o Deus que se abaixa, que lava os pés, que se faz alimento e que se entrega. Em um tempo marcado pela aceleração, pelo individualismo e pela superficialidade dos vínculos, a densidade simbólica desta noite nos confronta com uma pergunta inevitável: ainda somos capazes de compreender o sentido do cuidado?

O lava-pés, longe de ser um ritual estético ou um gesto meramente representativo, revela uma inversão profunda das estruturas de poder. Aquele que é Senhor se faz servo. No entanto, essa inversão não se dá como espetáculo, mas como silêncio. Jesus não reivindica reconhecimento, exige reciprocidade, não constrói uma narrativa de si mesmo. Ele simplesmente serve. Em uma sociedade orientada pela visibilidade, pelo desempenho e pela constante necessidade de validação, esse gesto se torna quase incompreensível.

Vivemos, como já apontado por diversos pensadores contemporâneos, uma crise da experiência e do encontro. O outro deixou de ser presença para se tornar função. As relações são, muitas vezes, mediadas por interesses, utilidades ou conveniências. Nesse contexto, lavar os pés do outro, isto é, reconhecer sua dignidade, cuidar de sua fragilidade, inclinar-se diante de sua humanidade, passa a ser um escândalo. Não porque seja difícil, mas porque rompe com a lógica do “eu primeiro” que estrutura grande parte das nossas escolhas.

A instituição da Eucaristia, por sua vez, não pode ser reduzida a um ato devocional desvinculado da vida concreta. O pão partilhado exige uma existência igualmente partilhada. Não há coerência em celebrar o Corpo de Cristo sem reconhecer esse mesmo corpo nos que sofrem, nos que são invisibilizados, nos que vivem à margem. A mesa da Quinta-feira Santa não é um espaço de conforto espiritual, mas de compromisso ético. Ela nos desloca, nos desinstala, nos obriga a rever nossas prioridades.

Há, ainda, um elemento profundamente humano e desconcertante nesta noite: a traição. Enquanto Jesus se entrega, Judas negocia. Enquanto o amor se manifesta em sua forma mais plena, há algo de ruptura. A traição não é apenas um evento histórico; é uma possibilidade permanente na vida humana. Ela se manifesta nas pequenas escolhas, nas omissões cotidianas, na incapacidade de permanecer fiel ao bem quando ele exige renúncia.

Diante disso, a Quinta-feira Santa nos convida a um exercício de lucidez. Não basta emocionar-se com a beleza do gesto de Cristo; é preciso confrontar-se com a própria incoerência. Quantas vezes buscamos o Cristo que nos serve, mas recusamos o Cristo que nos chama a servir? Quantas vezes desejamos ser acolhidos, mas não estamos dispostos a acolher? Quantas vezes nos aproximamos da mesa, mas permanecemos distantes do irmão?

Talvez o maior desafio desta celebração seja resgatar o sentido do vínculo. Em um mundo onde tudo se torna descartável, principalmente as relações, a lógica da entrega se apresenta como resistência. Servir e cuidar não somente são atitudes em nossa época, mas escolhas conscientes que exigem uma reconfiguração do modo de viver.

E, no fim, permanece uma inquietação que não pode ser silenciada: estamos dispostos a descer do nosso lugar para tocar a fragilidade do outro, ou continuaremos assistindo, de longe, ao esvaziamento das relações humanas?

A Quinta-feira Santa, portanto, não nos oferece respostas prontas, mas nos coloca diante de um caminho. Um caminho que passa pelo chão, pela poeira dos pés, pela mesa partilhada, pelo silêncio do serviço. Um caminho que não promete reconhecimento, mas que restitui sentido. Em tempos de indiferença, talvez seja justamente esse o gesto mais revolucionário: voltar a cuidar.

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