"Como protagonista das narrativas pascais, reconhecida Apóstola dos Apóstolos, Maria Madalena, torna-se figura de transição para a próxima cena (Jo 20,11-18). Nós mulheres, neste tempo de tanta violência e tantas mortes, sobretudo de mulheres e crianças, não poderíamos deixar de nos identificar com a permanência insistente e persistente desta mulher junto ao túmulo de Jesus. Ainda que não o tenhamos encontrado, corremos, com esperança, porque a vida venceu a morte. E temos a certeza na fé de que: 'a nossa vida está escondida, com Cristo, em Deus' (Col 3,3), como diz Paulo na segunda leitura de hoje. Somos filhas e filhos da Ressurreição!"
A reflexão é da biblista Lúcia Weiler, religiosa da Congregação das Irmãs da Divina Providência (IDP). Ela possui graduação em teologia pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS) e mestrado e doutorado em Teologia Bíblica pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio).
1ª leitura: At 10,34a.37-43
Salmo: Sl 117(118),1-2.16ab-17.22-23 (R. 24)
2ª leitura: Cl 3,1-4 ou 1Cor 5,6b-8
Evangelho: Jo 20,1-9
É Páscoa! Celebração da alegria cristã, esse grande dom pascal dado pelo Espírito do Ressuscitado para toda a humanidade. Em todo o universo ecoa a uma só voz o Aleluia. Este é o dia que o Senhor fez para nós, alegremo-nos e nele exultemos.
Mas, de imediato, surge uma pergunta intrigante e inquietante: como celebrar a festa da vida, da alegria e da paz, num tempo de guerra, violência e morte? A questão volta cada ano: O que é mesmo “Páscoa”? Na esteira do Povo de Deus a caminho no AT, podemos dizer que Páscoa é passagem, ou travessia na fé, da escravidão para a libertação. Liturgicamente, vivenciamos esse caminho durante a Quaresma, que culmina com passagem de Jesus Cristo da Morte para a Vida.
O Evangelho de hoje (Jo 20,1-9), vem nos alertar que a Páscoa, mais que um acontecimento acabado ou uma vitória conquistada, é uma experiência a ser vivenciada num processo de fé. A narrativa começa descrevendo a aurora de um novo dia, desejoso de romper a escuridão, mas ainda cheio de contrastes e contradições, desconcertos e surpresas... e com muitas perguntas e dúvidas: Ele não está mais aqui. Quem o levou? Onde o colocaram? Dizem que está vivo, mas ninguém o viu! Diante de um excesso de vida e de amor se sobrepõe um excesso de perguntas.
Os quatro Evangelhos procuram interpretar como Boa Notícia, a vitória definitiva da Vida sobre a Morte, consumada na cruz por Jesus de Nazaré, segundo sua visão teológica, dentro da realidade e conforme as dúvidas de cada comunidade. O cenário escolhido por João é o Jardim: No lugar onde Jesus fora crucificado havia um Jardim onde estava um túmulo no qual ninguém ainda havia sido sepultado (Jo 19,41). Assim faz ponte com o Prólogo (Jo 1,1-18) que lembra o princípio da criação. Com esta mesma metáfora do Jardim, entramos no cenário pascal.
Anuncia, desta maneira, o princípio de uma nova criação. Não como um fato, mas um processo de ressurreição para uma vida nova que já inicia como um gérmen em toda criação, em toda humanidade, no coração de cada pessoa e comunidade. Aqui podemos falar do “já e ainda não” do Reino, que nada mais é que Vida Nova, ressuscitada para todos.
Páscoa, por um lado, é o “Já” manifestado com a Ressurreição de Jesus Cristo. Por outro lado, temos um “Ainda – Não”, lembrando que a Páscoa, como experiência de ressurreição, vai acontecendo pouco a pouco nas opções e no cuidado com a vida. Por isso, nas narrativas pascais aparecem muitos sinais que precisam ser interpretados, feridas que precisam ser curadas. Essa é a verdadeira realidade pascal que vivemos também hoje. Por isso, é preciso ter a coragem de Maria Madalena para atravessar as noites da escuridão em busca da luz de um olhar pascal.
No Evangelho proposto pela liturgia de hoje (Jo 20,1-9) encontramos três personagens humanas: Maria Madalena, Simão Pedro e o Discípulo Amado. A cena não tem como protagonista nem a Deus, nem a Cristo, nem sequer é narrada a presença ou a voz de um anjo. Parece um Evangelho inacabado, como de fato é. O relato de João se centra simplesmente nas diferentes atitudes das três personagens.
Maria Madalena é a personagem principal, a protagonista, não apenas desta, mas de todas as narrativas pascais. Pedro e o Discípulo Amado, mencionados juntos, são atores coadjuvantes.
Maria Madalena abre a cena: No primeiro dia da semana, Maria Madalena foi ao túmulo de Jesus, bem de madrugada, quando ainda estava escuro, e viu que a pedra tinha sido retirada do túmulo. Então ela saiu correndo e foi encontrar Simão Pedro e o outro discípulo, aquele que Jesus amava, e lhes disse: “Tiraram o Senhor do túmulo, e não sabemos onde o colocaram” (Jo 20,1-2).
Ao ver que a pedra tinha sido retirada da entrada do túmulo, Maria Madalena supõe que alguém tenha tirado o corpo de Jesus: a Ressurreição não estava ainda no seu horizonte de compreensão. E mesmo com a experiência do vazio - e do ainda-não encontro - Maria Madalena não fica inerte, nem paralisada. Corre para contar aos discípulos, - fechados em casa por medo dos judeus -, que o sepulcro está vazio. Apenas dois dos discípulos saem de seu esconderijo: Simão Pedro, o líder das comunidades sinóticas e o Discípulo Amado, líder das comunidades joaninas. Os dois saíram da casa e correram ao túmulo, com Maria Madalena.
O detalhe da narrativa informando que os dois correram juntos, mas o Discípulo Amado chegou antes, porém esperou que Pedro chegasse também, revela uma intencionalidade joanina. Esta tensão está presente ao longo do evangelho joanino onde sempre há uma relação de maior proximidade do Discípulo Amado com Jesus e coloca Pedro numa certa dependência da mediação do Discípulo Amado.
Adentrando ainda mais na cena, encontramos dois olhares: Pedro, o primeiro a entrar no túmulo, observa detalhadamente as faixas de linho no chão e o sudário enrolado, num lugar à parte. Algo que lhe parece estranho. Mas não tira nenhuma conclusão. Apenas entra no túmulo vazio para ver, observar e constatar.
Então entrou também o outro discípulo, que tinha chegado primeiro ao túmulo. Ele viu e acreditou. O discípulo amado vê a mesma coisa que Pedro, mas conclui, com um olhar de fé, mesmo sem compreender, com a razão, que Jesus ressuscitou. “Ele viu e acreditou”. E sem concluir, a cena é interrompida por uma nota explicativa, tipicamente joanina: De fato, eles ainda não tinham compreendido a Escritura, segundo a qual ele devia ressuscitar dos mortos. (Jo 20, 9).
A história está inacabada para possibilitar que cada uma e cada um continue sua narrativa. Cada um, cada uma pode se perguntar: Com quem me identifico?
- Pedro, avisado por Maria Madalena, corre, entra no túmulo vazio, vê, observa, constata e sai.
- O Discípulo Amado que entra no túmulo vazio, vê as mesmas coisas que Pedro, mas seu olhar não é apenas de investigação e sim de contemplação. Por isso: vê e acredita! (v. 8). Assume a atitude de não apenas entrar no sepulcro vazio, mas de acolher e deixar-se acolher pelo mistério pascal.
- Alguém pode ousar se identificar com Maria Madalena que não volta para casa, como os dois discípulos (v. 10) e permanecer com Maria Madalena e com tantas Madalenas de hoje na entrada do túmulo. Maria ficou à entrada do sepulcro, chorando. Enquanto chorava, curvou-se para olhar dentro do sepulcro (v. 11).
Como protagonista das narrativas pascais, reconhecida Apóstola dos Apóstolos, Maria Madalena, torna-se figura de transição para a próxima cena (Jo 20,11-18). Nós mulheres, neste tempo de tanta violência e tantas mortes, sobretudo de mulheres e crianças, não poderíamos deixar de nos identificar com a permanência insistente e persistente desta mulher junto ao túmulo de Jesus. Ainda que não o tenhamos encontrado, corremos, com esperança, porque a vida venceu a morte. E temos a certeza na fé de que: “a nossa vida está escondida, com Cristo, em Deus” (Col 3,3), como diz Paulo na segunda leitura de hoje. Somos filhas e filhos da Ressurreição!
Com Maria Madalena e as Madalenas de hoje, atravessemos as noites da escuridão e da morte em busca da luz da Ressurreição. Supliquemos olhos pascais capazes de ver mais longe, a vida para além da morte. Na força do Ressuscitado desejamos assim uma abençoada e alegre Páscoa.