Sino de São Miguel (1726): 100 anos de história em Cruz Alta (1845-1945). Artigo de Edison Hüttner e Eder Abreu Hüttner

Litografia do francês Alfred Demersay criada em 1846 (Foto: PICRYL)

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01 Abril 2026

Este ano marca os 300 anos do maior sino missioneiro das 30 reduções jesuíticas da América do Sul. Fundido em 1726 na Redução de São Miguel, o sino tem uma história rica e simbólica. Em 1845, o sino foi levado de carretão para Cruz Alta,RS, onde permaneceu por um século, até 1945, tornando-se um marco sonoro que acompanhou os momentos importantes da cidade, uma peça de emblemática do patrimônio histórico e religioso da região. Por sua origem, é chamado de miguelino, e por sua longa presença em Cruz Alta, também é conhecido como sino cruz-altense.

O artigo é de Edison Hüttner e Eder Abreu Hüttner, enviada diretamente ao Instituto Humanitas Unisinos — IHU.

Dr. Edison Hüttner é Professor do Programa de Pós-Graduação em História e Teologia (PUCRS). Membro do Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Sul.

Dr. Eder Abreu Hüttner é Odontólogo. Cirurgião Bucomaxilofacial.

Eis o artigo.

Conforme J. Hansel (1950, p. 216): “Em 1845 foram apeados da torre (S. Miguel) quatro sinos e conduzidos para Cruz Alta.” São Miguel era na época um distrito de Cruz Alta. Quando Alfred Demersay criou a litografia do templo de São Miguel em 1846, os sinos já haviam sido tirados. Os sinos, de modo particular o grande sino foi levado por necessidade, para o campanário construído ao lado da Capela da Matriz do Divino Espirito Santo, situada onde hoje é a rua Pinheiro Machado. Hemitério José Velloso Silveira (1909, p. 190), o encarregado do transporte do sino para Cruz Alta, foi o português Francisco Antônio Alves, que calculou o peso do sino em cem arrobas de bronze, por ter quebrado eixos da carreta.

A Capela da Matriz, foi demolida para dar lugar a uma construção mais grandiosa. Em 1873, foi edificada a Igreja Matriz da Paróquia do Divino Espírito Santo da Cruz Alta. O sino maior de São Miguel, junto com outros três, foi instalado nas torres da Matriz de Cruz Alta.

 Foto da Igreja Matriz da Paróquia do Divino Espírito Santo da Cruz Alta (fonte: Diocese de Cruz Alta)

Silveira, residente em Cruz Alta desde 1857, recordava o som do sino de São Miguel que ecoava na cidade: “Quando morador em Cruz Alta, ouvimo-lo badalar muitas vezes” (1909, p. 190).

Uma foto rara do sino de São Miguel, tirada da torre da matriz, de uma reportagem de José Hansel realizada pelo Jornal Diário Serrano de 1942, sem paginação. Embora a página específica da publicação não tenha numeração, há uma anotação feira a lápis próxima aos recortes que indica tratar-se do “Diário Serrano” de Pelotas (1942). Porém, a evidencia mais confiável aponta para o Jornal Diário Serrano de Cruz Alta – fundado em 20/02/1939 (fig. 3).

 Fig.3. Sino S. Miguel em Cruz Alta.

De acordo com Rossano Vieiro Cavalari, no ano de 1889, o sino tinha um papel muito importante na comunidade de Cruz Alta:

(...) além da idolatrada Festa do Divino, as famosas ‘Cavalhadas’ (cuja dramatização das lutas dos Cristãos contra os mouros, terminavam com a evidente vitória dos primeiros) tinha grande aceitação popular e eram realizados nos limites da Praça Ipiranga (CAVALARI, 2001, p. 23).

Foi em Cruz Alta, conhecida como terra dos pica-paus (apoiadores dos castilhistas), que o velho sino ganhou destaque durante a Revolução Federalista de 1893. Em 1894, cerca de 1.500 homens das tropas federalistas de Aparício Saraiva, entram em Cruz Alta. Por oitos dias espalham o terror. Um ano antes seu irmão de Gumercindo Saraiva invadiram a cidade, espalhando terror por oito dias, com grande tropa havia também invadido Cruz Alta (ROCHA, 1964, p. 119,198). O sino que antes havia tocado em momentos de conflito entre índios e jesuítas versus espanhóis e portugueses, agora dobrou suas badaladas em meio a outra revolução, defendendo a terra natal do político Júlio de Castilhos. Cruz Alta esteve no centro de importantes batalhas e o sino tornou-se um símbolo sonoro das lutas pela região.

Érico Lopes Veríssimo e o sino de São Miguel. Filho ilustre de Cruz Alta (1905-1975), faria parte desta história. Nasceu na casa da Ave. Gen. Osório, nº 380, que hoje abriga o Museu Érico Verissimo. Ainda na adolescência, aos 15 anos de idade, Veríssimo ouviu o som do antigo sino missioneiro da Igreja do Divino,  velho sino missioneiro badalando na Igreja do Divino. Em sua famosa trilogia: O Tempo e o Vento, especialmente no volume Continente II, o escritor retrata a viagem do alemão Dr. Carl Winter às ruínas de São Miguel. Por volta de 1853,o médico, que morava na vila de Santa Fé, ficou deitado no chão contemplando o céu estrelado ao lado das antigas muralhas de pedra das ruinas de São Miguel. Em meio aquele silêncio, o médico pergunta a um rapaz:

“Onde estavam agora aquelas melodias do passado? Onde? (...)
O rapaz mirou-o com ar sério e disse:
- Vosmecê está mangando comigo, doutor.
- Não estou, meu amigo! - protestou Winter, erguendo-se.
Pense bem. Os sinos da igreja badalavam, não badalavam? (...)
Pois bem, onde está agora o som dos sinos, dos tambores, das carretas,
das clarinetas? Onde?”.

- VERÍSSIMO, E. 2000, p. 400.

Em 1853, quando o médico Dr. Winter perguntou a o rapaz sobre o som dos sinos da torre de São Miguel, que não existam mais. Naquela época, o grande sino estava instalado e badalando na torre da igreja matriz de Cruz Alta.

Em meados de 1945, na Estação Ferroviária de Cruz Alta, pouco antes da partida do trem, o lajeadense João Hugo Machado avistou o sino. O velho sino encontrava-se no assoalho do vagão do trem com bilhete comprado para ser derretido em São Paulo. Vejamos mais detalhes nas palavras de Mario Simon, do relato do Sr. João Hugo Machado:

Diz que estes sinos se encontravam em Santo Ângelo e que um padre, vigário da paróquia, vendera os mesmos para uma fundição de São Paulo. Os sinos, inclusive o grande que se encontrava em Cruz Alta, embarcados de trem, com destino a São Paulo. Foi de dentro do trem que João Hugo Machado retirou-os, recambiando-os para São Miguel (SIMON, 1987, p. 61-63).

O som do sino de São Miguel, gravado numa expedição. Em 2006, idealizei e conduzi, junto com meu irmão Dr. Eder Abreu Hüttner, uma expedição técnica destinada à análise do sino histórico localizado em São Miguel das Missões. Esta inciativa foi autorizada e realizada em parceria com a Superintendência do IPHAN no Rio Grande do Sul e Prefeitura Municipal. O objetivo principal da expedição era realizar estudo científico detalhado do sino, considerado patrimônio cultural. Efetuamos a pesagem do objeto, realizamos medições precisas e aplicamos técnicas metalográficas para identificação da composição do metal e dos prospectivos métodos de fabricação.

Esta expedição contou com importante parceria de profissionais e autoridades que fizeram parte deste sucesso. Destacam-se Ana Lucia Meira, Superintende do IPHAN/RS e Vladimir Stello, Chefe do Escritório Técnico I - São Miguel das Missões IPHAN/RS pela parceria. Também agradecemos ao prefeito de São Miguel das Missões; prefeito de São Miguel das Missões: Waldir Pedro Frizzo e do vice-prefeito José Roberto de Oliveira, que viabilizaram o uso de uma retroescavadeira e caçamba essenciais para erguer e pesar o sino; idealização do projeto juntamente com Eder Abreu Hüttner; os cálculos os cálculos arquitetônicos e de medidas desenvolvidos por Ana Cé e Rogério Mongelos. O advogado Orci Paulino Bretanha pela assessoria jurídica, e José Herter cuidou das gravações. Fabiano Vian, atuou como motorista, contribuindo par a logística da expedição.

Altura: 1m,10cm Circunferência: 1m15cm.

Peso do sino:
910 kg

Material: Bronze
80% cobre
20% estanho

Análise da simbologia e cálculos para o erguimento do sino de São Miguel.

 

O sino foi fundido na Redução de São Miguel em 1726. Embora existisse a possibilidade de ter sido fabricado também na Redução de São João Batista, localizado a cerca de 20 km de distância, a evidências apontam com maior firmeza para São Miguel. Isto se deve principalmente ao peso do sino e à dificuldade de transportar um objeto tão pesado.

 
a) Inscrições no sino traduzidas do latim para o português:

Parte superior:
MICHAEL IN EDES
ANGELVS PACIS

Miguel é anjo da paz
E está no prédio

Parte inferior:

S. MICHAEL ORA PRO NOBIS ANNO 1726

São Miguel, rogai por nós – ano de 1726

Erguimento do Sino de São Miguel. Foto: Eder Abreu Hüttner

 

a) O selo da Companhia de Jesus, com o “sol” em forma de círculo, as letras: “IHS” (figs.4 e 5) , o “coração” e os “três cravos” (figs.4 e 6).

A medida da circunferência, de ponta a ponta dos raios dos dois sóis tem a medida de 38 cm (fig. 4 e 5). Do outro lado do sino (fig.5), existem também a figura do círculo do sol com três raios ondulados e quatro raios retos, em alto relevo de 2 mm. Os raios têm comprimento variando entre 11 e 13 cm. No centro do círculo, há um símbolo menor, também circular, medido aproximadamente 5 cm de diâmetro, que parece representar o núcleo do sol. Círculo interno do sol tem medida de circunferência de 15 cm (fig. 4 e 5)

Iniciando pelo centro do selo gravado no sino (fig.4). No centro do sino se observa as letras IHS. Trata-se de um anagrama escolhido por Santo Inácio de Loyola para representar a Companhia de Jesus. A origem desta escolha é consequência da grande devoção de Santo Inácio pelo Bispo e mártir S. Inácio de Antioquia (séc. II). O nome Inácio foi adotado em honra a Santo Inácio de Antioquia. Seu nome anterior era Íñigo de Loyola. Ao ler a obra Flos Sanctorum (Florilégio dos Santos) lhe ficou gravado na memória as feras do Coliseu em Roma que devoraram Santo Inácio de Antioquia (107 d.C), e depois a imagem dos carrascos romanos que arrancaram o coração do peito de S. Inácio de Antioquia, e naquele as letras IHG gravadas em outro. IHS: Jesus, Salvador dos Homens (BARREIRO, Álvaro, 2002, p.247)

A relação entre o coração, os três cravos em alto relevo e as letras IHJ é uma profunda conexão espiritual que remonta a um dos momentos mais significativos da história do cristianismo, legado para a tradição fundante da identidade da Companhia de Jesus. A imagem do coração como a anagrama IHS é honra ao martírio Santo Inácio de Antioquia. É no coração do mártir que estão gravadas em ouro as letras IHS.

Os três cravos com o coração foram acrescentados depois, para lembrar o martírio de Santo Inácio de Antioquia, de Jesus Cristo e os votos de pobreza, castidade e obediência. Os três cravos seguem um padrão, com as pontas cravadas na parte superior do coração. Um cravo no centro (em posição vertical), um cravo à direita (inclinado para direita), e outro cravo à esquerda (inclinado para esquerda). Representa os votos de castidade. Obediência e Pobreza. Medidas do coração com os três cravos: 4 cm de altura por três de largura. Cravos com 2 cm.

Do outro lado do sino, conhecido como lado B , encontra-se a representação do círculo do sol, um detalhe em alto relevo com cerca de 2 mm de espessura. Esse círculo é enriquecido por três raios ondulados e quatro raios retos que irradiam a partir do centro, com comprimentos variando entre 11 e 13 cm. No coração dessa figura solar, há um símbolo menor, também circular, medindo aproximadamente 5 cm de diâmetro, que parece representar o núcleo do sol. Os raios de sol irradiam Jesus Cristo a justiça. Santo Inácio de Loyola adotou como o anagrama IHG, bem como os símbolos do coração, dos três cravos e do sol como brasão da Companhia de Jesus.

Erguimento do Sino de São Miguel. Da esquerda para direita: Edison Hüttner, Oci Bretanha, Rogerio Mongelos, Fabiano Vian e Ana Cé. Foto, créditos: Paulo Vilani (18/03/06) 

O som do sino de São Miguel

Neste ano comemoramos 400 anos das Reduçõe Jesuíticas no Rio Grande do Sul por ocasião da fundação da Redução de São Nicolau em 3 de maio de 1626. O Sino de São Miguel (1726) completa 300 anos doas quais 100 anos em Cruz Alta (RS). Está catalogado no Museu das Missões em São Miguel das Missões, sob o registro nº 092. Projetamos perspectivas de ouví-lo novamente no futuro, em sua torre ou em outras estrutura. O maior símbolo sonoro de nossa história continua ecoando, graças a uma gravação em 2006, quando o erguemos. Ouvir o som é como uma viagem no tempo, refazemos o passado e presente em cada canto de nossa história, das Reduções e de Cruz Alta.

 

Bibliografia

CAVALARI, Rossano Viero. O ninho dos pica-paus: Cruz Alta na revolução federalista de 1893. Porto Alegre: Martins Livreiro, 2001.

BARREIRO, Álvaro. OS MISTÉRIOS DA VIDA DE CRISTO NAS CARTAS DE SANTO INÁCIO DE ANTIOQUIA E SUA IMPORTÂNCIA ATUAL. Perspectiva Teológica, [S. l.], v. 34, n. 93, p. 247, 2002. Disponível aqui. Acesso em: 27 março. 2026.

HANSEL, José. A pérola das reduções jesuíticas: monografia de São Miguel. Canoas: La Salle, 1950.

HÜTTNER, E. RELATÓRIO XVIII. Sino de São Miguel das Missões. Projeto de Pesquisa: A arte sacra jesuítico-guarani (séc. XVII-XVIII) no Rio Grande do Sul: itinerários e descobertas. Relatório de Estágio Pós-Doutoral do Programa de Pós-Graduação em História da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul. Supervisor: Klaus Hilbert, 2018.
_____________; HÜTTNER, E. A.; MONGELOS, R. Helenismo sul-americano missioneiro: estudos sobre a Província Jesuítica do Paraguai (XVII-XVIII). Rivista Visioni Latino-Americane, Trieste: Edizioni Università di Trieste – Itália, n.14. 2016. Disponível aqui. Acesso em: 5 março. 2026.

SIMON, Mario. Os Sete Povos das Missões: trágica experiência. 2. Ed. Ver. Ampl. Porto Alegre: Martins Livreiro, 1987.

SILVEIRA, Hemeterio José Velloso da. As missões orientais e seus antigos domínios. Porto Alegre: Carlos Echenique, 1909.
Pesquisa realizadas em Cruz Alta:

A Escultura Indígena do Profeta São João Batista Missioneiro Descoberta no Rio Grande do Sul. Aventuras na História. 09/06/2022. Disponível aqui. Acesso em: 5 março. 2026.

Escultura indígena do século 17 é exposta em igreja de Cruz Alta após mantida por curandeiros. GZH. Zero Hora. 01/07/2021
Disponível aqui. Acesso em: 5 março. 2026.

Pesquisa confirma que esplendor da Catedral é jesuíta de quase 300 anos. Diocese de Cruz Alta. 08/12/2020 Disponível aqui. Acesso em: 5 março. 2026.

Pesquisador da PUCRS confirma que ostensório da catedral de Cruz alta tem cerca de 300 anos. GZH. Zero Hora. Disponível aqui. Acesso em: 5 março. 2026.
SITES

Badaladas históricas (FAPESP). Por Eduardo Geraque. 05 de abril de 2006. Disponível em aqui. Acesso em: 5 março. 2026.
Foto da Igreja Matriz da Paróquia do Divino Espírito Santo da Cruz Alta (Diocese de Cruz Alta). Disponível aqui. Acesso em: 5 março. 2026.

Sino de São Miguel (1726): linguagem sonora e identidade. Palestrante: Edison Hüttner (Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, Brasil). Tempo: 45:50 – 1.11:21. I Encontro Internacional de Estudos Jesuíticos: Pesquisas e Desafios Historiográficos. Realização: Governo de Portugal, Universidade de Évora (Portugal), CICP, FTV, UFRJ... Disponível aqui. Acesso em: 5 março. 2026.

Litografia do francês Alfred Demersay criada em 1846. Disponível aqui. Acesso em: 5 março. 2026

Sons do Sino de São Miguel (1726) gravados em 2006. Celebra 300 anos 2026. Disponível aqui.  Acesso em: 5 março. 2026.

Som do Sino de São Miguel (1726) gravado em 2006 numa Expedição por José Herter, membro da equipe. Disponível aqui. Acesso em: 5 março. 2026.

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