24 Março 2026
Uma condenação em preparação: o ex-prefeito do Ofício Divino, Cardeal Robert Sarah, é um crítico ferrenho do Papa Francisco, das reformas e da sinodalidade. Ele se manifesta frequentemente – agora com um novo livro.
O artigo é de Mario Trifunovic, teólogo, publicado por Katholisch, 29-08-2025.
Eis o artigo.
Uma acusação ou, melhor dizendo, o diagnóstico de um paciente doente? O ex-cardeal da Cúria, Robert Sarah, está de volta com mais uma rodada de críticas – desta vez com um livro de entrevistas publicado em conjunto com Nicolas Diat. Nele, o cardeal guineense e ex-prefeito faz sérias acusações contra a Igreja ocidental. Ele afirma – para deixar isso claro desde já – que ela foi envenenada pelo relativismo.
Mas vamos dar um passo atrás: o homem de 80 anos está aposentado há algum tempo, mas suas declarações pintam um quadro diferente. Ele comenta regularmente sobre os acontecimentos dentro da Igreja e continua sendo um crítico ferrenho das reformas eclesiásticas. Sarah entrou em conflito diversas vezes com o então chefe da Igreja, o Papa Francisco (2013-2025), o que acabou levando à sua renúncia. De 2014 a 2021, Sarah chefiou o Dicastério para o Culto Divino, antes de ser sucedido pelo Cardeal Arthur Roche.
Durante esse período, Sarah e Francisco tinham visões litúrgicas divergentes. Sarah defendia a forma pré-conciliar da Missa, a chamada "Missa Antiga", enquanto Francisco — em conjunto com o Cardeal Roche — introduziu restrições. Com seu decreto Traditiones custodes (Guardiões da Tradição, 2021), Francisco limitou significativamente a liturgia pré-conciliar. Isso causou grande desgosto a Sarah e aos bispos que se consideram defensores de alguma forma de fé tradicional e de uma liturgia supostamente existente há séculos — mesmo que não possuam o título oficial de defensor da fé, como foi concedido ao escritor britânico G.K. Chesterton.
Divisões e relativismo
A Igreja é caracterizada não apenas pelo relativismo, escreve Sarah, mas também por cismas. Ele é particularmente crítico da Igreja na Alemanha, especificamente do projeto de reforma do Caminho Sinodal. Para ele, o caminho alemão leva a uma ruptura com o Concílio Vaticano II e seus objetivos: "Isolar-se da tradição significa excluir-se da Igreja", argumenta. Na Alemanha e na Suíça, associações eclesiásticas querem moldar uma Igreja à sua própria imagem. Uma minoria de cardeais apoia essas ideias revolucionárias, mas uma "Igreja militante" não é mais a Igreja original de Cristo, conclui Sarah.
O cardeal fez declarações semelhantes em diversas entrevistas, alertando a Igreja contra a ênfase excessiva em estruturas externas e políticas – não apenas na Alemanha. Ele foi particularmente crítico da liderança da Igreja quando Francisco abriu o Sínodo. A acusação: todos os votos eram legítimos. O principal problema era que não apenas o clero, mas também os leigos tinham direito a voto. Sarah pertencia ao grupo de cardeais críticos de Francisco que, na preparação para o Sínodo, enviaram várias dubia, questões/dúvidas sobre doutrina e disciplina da Igreja, ao chefe da Igreja. Além dele próprio, os autores incluíam os cardeais conservadores Walter Brandmüller (Alemanha), Raymond Burke (EUA), Joseph Zen (China) e Juan Sandoval Íñiguez (México). A questão de uma possível reforma da doutrina da Igreja – como a bênção de homossexuais ou a ordenação de mulheres – era problemática para os bispos.
Finalmente, em dezembro de 2023, Francisco, em conjunto com seu compatriota argentino, o Cardeal Víctor M. Fernández, que ainda atua como Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, permitiu bênçãos para casais do mesmo sexo fora da liturgia. Para o cardeal, o documento Fiducia supplicans é agora mais um exemplo de "ideias revolucionárias", que ele criticou duramente perante o Sínodo, juntamente com alguns de seus colegas cardeais conservadores.
Em sua crítica atual, ele vai ainda mais longe, incluindo a Igreja na Europa como um todo, que ele descreve como um paciente doente. Ele afirma que ela está tentando exportar suas ideias progressistas para o resto da Igreja global – uma Igreja que, em sua visão, ainda se mantém firme – apesar das críticas ao seu antigo líder. Questões como ecologia e migração, argumenta ele, estão dominando a Igreja. Embora essas questões sejam legítimas, ele acredita que pertencem à esfera secular, e não à eclesiástica. A Igreja suprimiu o que deveria estar em seu cerne: Cristo, a liturgia e a doutrina como princípios invioláveis da fé. No entanto, Sarah enfatiza que não perdeu a esperança – principalmente desde a eleição de Prevost como Papa.
O diagnóstico não é novo
O jornal francês "La Croix" descreve o livro como "uma espécie de tratado médico eclesiástico, escrito à beira do leito de um paciente que o autor considerava estar em perigo de vida sob o pontificado de Francisco". Essa descrição capta com precisão a natureza da obra. O livro, intitulado "2050", não é de forma alguma uma visão profética do futuro da Igreja. Em vez disso, assemelha-se a uma denúncia do que Sarah percebe como desenvolvimentos problemáticos durante o pontificado argentino. O diagnóstico em si não é novo. Sarah já formulou teses semelhantes em livros anteriores e em diversas aparições na mídia. Com o título, ele parece aludir ao próximo Ano Jubilar Ordinário da Igreja. O último ocorreu em 2025; como a Igreja celebra um Ano Jubilar Ordinário a cada 25 anos, o próximo será em 2050. Se Sarah está, com isso, estabelecendo um prazo para a Igreja, permanece uma questão em aberto.
Segundo ele, ainda há muito a ser feito até 2050 – se lermos o livro sob este título. O cardeal guineense vê outro problema em um ateísmo de fato, silencioso e crescente. Este, argumenta ele, é muito mais perigoso do que o ateísmo declarado abertamente, porque mina o cristianismo por dentro. Um aspecto particularmente problemático, diz ele, é que quase ninguém está soando o alarme. Sarah coloca desta forma: "As pessoas dizem que acreditam, mas vivem como se Deus não existisse. Essa indiferença corrói a consciência." Quando Deus é banido do centro da vida humana, abre-se o caminho para o relativismo ético, o subjetivismo moral e a desintegração da coesão social. A Igreja não escapou a esse desenvolvimento; pelo contrário. De acordo com o cardeal, a Igreja está repleta de prelados de alto escalão que querem reduzir o cristianismo à sabedoria humanista, a um instrumento de paz ou a uma disciplina moral. Sua conclusão: a Igreja não deve se contentar com isso.
Resistência espiritual
Mas qual é, em última análise, a natureza deste empreendimento literário de um clérigo que deixou o cargo sob o pontificado de Francisco e que, desde então, tem atraído atenção principalmente por suas declarações incisivas? Uma possível resposta pode ser encontrada no final do livro, onde Sarah descreve a eleição de Leão XIV: "A eleição do Papa Leão XIV foi uma grande alegria. Em poucos dias, nosso estado de espírito mudou do choque ansioso para a paz interior." Nas entrelinhas, lê-se uma espécie de resistência espiritual de um clérigo que temia que a Igreja não sobrevivesse ao pontificado de Francisco. Em Leão XIV, Sarah agora vê — com certa serenidade — uma dádiva de Deus. "Portanto, ele não permitirá que sua Igreja seja destruída."
Isso significa que Francisco anunciou o fim da Igreja? Após a leitura, fica-se com a impressão de que o livro não oferece nenhuma chave real para interpretar os sinais dos tempos que os cristãos deveriam estar abordando hoje. Sarah não apenas rejeita possíveis respostas de Francisco para questões como migração, exclusão ou mudanças climáticas, como essencialmente resolve a questão por completo, especialmente quando explica que essas são questões para a esfera secular, não para a eclesiástica, muito menos para a teológica.
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