Quando a alegria habita os lares. Dez anos de Amoris Laetitia. Artigo de Simona Segoloni Ruta

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21 Março 2026

"A presença de Deus também pode ser contemplada onde as relações deixam de ser fonte de vida e as pessoas se separam em busca de uma serenidade que não conseguem mais encontrar juntas. No sofrimento da separação, ficam evidentes os vestígios do amor vivido e almejado, assim como o desejo de não mais ferir nem a si mesmo nem ao outro, apesar de já não ser possível honrar o que outrora se desejava. Essa angústia pode ser acompanhada eclesialmente não só no necessário processo de elaboração do luto, mas também no renascimento para a vida e para as relações, porque Deus quer que todos tenhamos vida e que a tenhamos em abundância".

O artigo é de Simona Segoloni Ruta, téologa leiga italiana, publicado pro Avvenire, 19-03-2026. A tradução é de Luisa Rabolini.

Eis o artigo.

Há dez anos, foi publicada a exortação apostólica pós-sinodal Amoris Laetitia. Foi assinada pelo Papa Francisco, que também havia iniciado um renovado processo de diálogo sinodal, no qual começava a se compreender que, na Igreja, não se pode falar com autoridade sobre nada sem escutar as vozes daqueles que vivem aquilo sobre o que se deseja falar. Sabemos, de fato, que o Espírito que habita nos corações dos fiéis preenche suas vidas, que assim se tornam uma oferta que agrada a Deus na rotina de cada dia, no trabalho, no descanso, dentro das casas, no seio das relações mais íntimas e cotidianas, bem como naquelas entrelaçadas por instantes ou em lugares habitados apenas brevemente. Todo esse patrimônio de vida espiritual é o que a Igreja reconhece como parte de sua tradição, como uma expressão concreta do Evangelho que, quando crido, se traduz em gestos de cuidado, amor e perdão. A renovada maneira de conduzir os sínodos sobre a família (questionários, escuta e convite à participação de pessoas que vivenciam a experiência familiar) demonstra não apenas uma nova consciência eclesial (que seria abordada posteriormente pelo sínodo sobre a sinodalidade), mas também o desejo de falar sobre as famílias como elas são e, por isso, se tornou necessário dar-lhes voz.

Amoris Laetitia é fruto dessa intenção e dessa trajetória, e por isso creio que sua inspiração fundamental possa ser identificada precisamente no desejo de não pensar a família a partir de alguns princípios (por mais válidos e nobres que sejam), mas de analisá-la com a profunda convicção de que Deus já está presente nas famílias e, sobretudo, deve-se reconhecer sua obra para nos alegrarmos, para desfrutarmos da alegria do seu amor (da Amoris laetitia, precisamente).

Deus, de fato, é amor, presente onde quer que as pessoas se amam mutuamente (1 João 4,7), não onde se amam segundo esquemas impecáveis, mas onde se amam assim como os seres humanos sabem amar, combinando dedicação, fidelidade, cuidado apesar das dificuldades, limitações e contradições. Nesse amor frágil e extraordinário, trocado numa surpreendente reciprocidade, que nos lembra da capacidade humana de responder ao bem recebido, Deus está presente e opera a salvação, porque ela acontece no denso tecido das relações interpessoais (cf. Evangelii gaudium, 113). Assim, a vida familiar torna-se, em primeiro lugar, objeto de contemplação na fé: o que Deus opera em nossos lares? Que tipo de laços somos capazes de criar? O que sofremos? E como se desdobra o anúncio do Evangelho na intimidade de nossos sentimentos e de nossos corpos abertos à sexualidade, à genitoriedade e expostos à passagem do tempo? Qual é a boa nova que devemos perceber imediatamente, cruzando a soleira da costumeira porta e ouvindo as costumeiras vozes? É isso que Amoris Laetitia busca oferecer, após uma longa discussão na qual as vidas concretas de muitos são diretamente envolvidas ou relatadas, ocupando o lugar que a vida de fé deve ter: no centro do discernimento eclesial.

Assim, folheando o texto escrito pelo Papa Francisco, encontramos certamente análises que abordam a situação das famílias hoje no plano cultural e social, encontramos referências ao magistério e aprofundamentos teológicos, mas sobretudo encontramos muita vida testemunhada e vista com olhos capazes de enxergar o que Deus realiza aqui e agora.

E a vida das famílias hoje se tornou (como tudo mais) mais complexa: os papéis estereotipados não se aplicam mais, nem existem receitas infalíveis. Estamos diante da vida real, e a vida escapa a enquadramentos, é maior do que as ideias e em contínuo movimento. Não podemos confinar a vida familiar em esquemas que, por melhores que sejam, acabam sendo inadequadas. Em vez disso, podemos contemplar como as relações, quando as pessoas fazem tudo o que podem para favorecer a vida dos outros e a sua própria, são capazes de fazer florescer todas as pessoas que as vivenciam. E com essa profunda convicção, o Papa Francisco aplica o hino à caridade da Primeira Carta aos Coríntios às profundezas dos afetos familiares, compostos de gestos e palavras capazes de dar e receber vida, mas também se detém para contemplar as características da amizade conjugal, daquele fascínio pelo outro/a que nos leva a decidir compartilhar nossa jornada com ele/ela, permanecendo firmes na certeza de que sua vida nos enriquece enormemente e, portanto, merece nossa dedicação, mesmo quando os acontecimentos da vida acabam por alterar os nossos sentimentos ou turvam a serenidade.

A presença de Deus também pode ser contemplada onde as relações deixam de ser fonte de vida e as pessoas se separam em busca de uma serenidade que não conseguem mais encontrar juntas. No sofrimento da separação, ficam evidentes os vestígios do amor vivido e almejado, assim como o desejo de não mais ferir nem a si mesmo nem ao outro, apesar de já não ser possível honrar o que outrora se desejava. Essa angústia pode ser acompanhada eclesialmente não só no necessário processo de elaboração do luto, mas também no renascimento para a vida e para as relações, porque Deus quer que todos tenhamos vida e que a tenhamos em abundância.

Para concluir, gostaria de recordar o que a Amoris Laetitia ensina sobre a espiritualidade da família, em cujo centro é posto o cuidado mútuo, o compromisso de cultivar o jardim do outro/a para que produza os melhores frutos possíveis e, assim, ofereça alegria também a quem o cuidou. Partilhar os próprios ganhos, cuidar dos espaços domésticos, prover alimento ou outras necessidades, interessar-se pelo dia a dia alheio, aprender a lidar com as doenças das crianças, apoiar a aventura de crescer, permitir que o outro e a outra vivam os seus dons e a sua profissionalidade, inventar modalidades de descanso e risadas, contar o Evangelho aos filhos: tudo isso (e muito mais que o leitor pode acrescentar) é o cuidado mútuo que traz a presença de Deus às famílias, tornando-as lugares de evangelização, mas também de humanização. Em tempos em que é difícil encontrar razões para a esperança, podemos, com gratidão, começar por aqui.

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