20 Março 2026
Dez anos após sua publicação, Prevost reafirma a exortação apostólica 'Amoris Laetitia', que abriu o caminho para a comunhão aos católicos divorciados e recasados, e uma abordagem pastoral que nos convida a "acompanhar, discernir e integrar a fragilidade", superando uma concepção reducionista da norma.
A informação é de Jesús Bastante, publicada por Religión Digital, 16-03-2026.
"Reconhecendo as mudanças que continuam a afetar as famílias, decidi convocar em outubro de 2026 os presidentes das Conferências Episcopais do mundo, a fim de proceder, num clima de escuta mútua, a um discernimento sinodal sobre os passos a serem dados para proclamar o Evangelho às famílias hoje, à luz da Amoris Laetitia e levando em conta o que está sendo feito nas Igrejas locais."
Dez anos após a publicação de 'Amoris Laetitia', um dos textos fundamentais do pontificado do Papa Francisco, Leão XIV publicou uma mensagem na qual enfatiza o valor da "mensagem luminosa de esperança sobre o amor conjugal e familiar" e convida a "continuar a caminhada, acolhendo sempre o Evangelho de novo, com a alegria de poder proclamá-lo a todos". Como se recordará, 'Amoris Laetitia' marcou o início de um intenso debate (e ataques dos inimigos de Francisco) sobre o cuidado pastoral do matrimônio e uma abertura significativa para o acesso à Comunhão para católicos divorciados e recasados.
Sem abordar nenhum dos pontos de discórdia, Prevost convocou os presidentes das conferências episcopais de todo o mundo para discutir, em "discernimento sinodal", os passos a serem dados no futuro, seguindo o caminho iniciado pela Amoris Laetitia. Em sua carta, Leão XIV reconheceu, assim como Bergoglio, "as mudanças antropológicas e culturais" que "se intensificaram nos últimos trinta e cinco anos", o que levou Francisco a querer "engajar a Igreja ainda mais profundamente no caminho do discernimento sinodal", no âmbito da "escuta mútua dentro do Povo de Deus".
"Não é possível falar de família sem interagir com as famílias, ouvindo suas alegrias e esperanças, suas tristezas e ansiedades", cita Prevost, referindo-se a Bergoglio. Assim, "Amoris Laetitia oferece um ensinamento valioso que devemos continuar a explorar hoje", baseado na esperança de que "histórias de amor" possam ser vividas mesmo "em meio a crises familiares", sempre a partir "da perspectiva de Jesus".
Conforme refletido na Amoris, "o Papa Francisco afirma 'a necessidade de desenvolver novos caminhos pastorais' e de 'fortalecer a educação das crianças', ao mesmo tempo que convida a Igreja a 'acompanhar, discernir e integrar a fragilidade', superando uma concepção redutiva da norma, e a promover 'a espiritualidade que brota da vida familiar'", enfatiza Leão XIV em sua carta.
Após evocar "a beleza da vocação ao matrimônio precisamente no reconhecimento de sua fragilidade", Prevost exorta ao " apoio às famílias, particularmente àquelas que sofrem com tantas formas de pobreza e violência presentes na sociedade contemporânea".
“A nossa época é marcada por rápidas transformações que, ainda mais hoje do que há dez anos, exigem uma atenção pastoral especial às famílias, às quais o Senhor confia a tarefa de participar na missão da Igreja de proclamar e testemunhar o Evangelho”, explica o Papa, que apela a “renovar e aprofundar” o compromisso com a vocação do matrimónio na Igreja. Nesta perspectiva, e “reconhecendo as mudanças que continuam a afetar as famílias”, o Papa conclui apelando a um encontro em outubro para “discernimento sinodal” sobre o futuro das famílias, “à luz da Amoris Laetitia e tendo em conta o que se está a fazer nas Igrejas locais”. Este desafio lança-se na aurora da primavera, precisamente quando se comemora o décimo terceiro aniversário do início oficial do pontificado de Bergoglio.
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