Budismo é a única grande religião em declínio no mundo

Foto: Jose Luis Sanchez Pereyra/Unsplash

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20 Março 2026

O silêncio que hoje domina muitos templos budistas na Ásia não é apenas aquele a que a meditação obriga, mas o de um esvaziamento geracional sem precedentes. Enquanto o judaísmo, hinduísmo, cristianismo e islão continuam a crescer globalmente, o budismo parece ser a única grande religião mundial a trilhar o caminho inverso, revela um estudo publicado na última semana pelo Pew Research Center.

A reportagem é de Clara Raimundo, publicada por 7 Margens, 18-03-2026.

De acordo com este centro de investigação sem fins lucrativos com sede em Washington, o número de budistas diminuiu em 18 milhões entre 2010 e 2020. Em contrapartida, o número de judeus aumentou em 900 mil, o número de cristãos (evangélicos, católicos e ortodoxos) cresceu 121,6 milhões, o número de hindus 126,3 milhões e o número de muçulmanos 346,8 milhões — mais do que todos os outros grupos juntos.

Debruçando-se sobre a queda no número de budistas, os investigadores concluíram que esta não se deve à migração para outras religiões, mas sim a um fenómeno de secularização. O epicentro desta mudança reside no Leste Asiático — região que abriga mais de 90% dos budistas do mundo, concentrados em países como China, Japão, Coreia do Sul, Tailândia e Vietname.

“Em toda a Ásia Oriental, muitas pessoas que foram criadas como budistas já não se identificam com o budismo. A maioria delas agora não tem nenhuma afiliação religiosa – identificando-se como ateias, agnósticas ou simplesmente ‘sem religião específica'”, pode ler-se no relatório.

No Japão, por exemplo, 40% dos adultos que foram criados como budistas não têm hoje nenhuma afiliação religiosa, de acordo com os dados recolhidos pelo Pew Research Center em 2024. Na Coreia do Sul, esse número é de 42%.

A palavra aos “ex-budistas”

O centro de investigação conduziu, no fim do ano passado, várias entrevistas a adultos japoneses e coreanos que cresceram em famílias budistas, com o objetivo de entender melhor os motivos concretos desta evolução.

Sunwoo Lee, uma estudante universitária que mora com os pais num subúrbio de Seul, foi uma das entrevistadas: partilhou que os seus avós são “budistas devotos”, e que os seus pais já são “menos praticantes”. E assumiu que não vê sentido em práticas religiosas. “Tendo a acreditar mais na ciência do que em qualquer coisa espiritual, então não acredito em coisas que não se podem ver”, afirma Lee.

Outra pesquisa do Pew Research Center já indicava que, tanto no Japão quanto na Coreia do Sul, os jovens são menos propensos do que os adultos mais velhos a considerarem-se budistas. Frequentemente, “o afastamento religioso é um processo gradual de distanciamento da educação recebida, em vez de uma ruptura abrupta ou uma conversão deliberada”, afirma o novo relatório.

A mudança também está, muitas vezes, associada ao facto de as pessoas deixarem o campo ou as pequenas cidades para se mudarem para grandes centros urbanos, perdendo o contato com as tradições familiares ao longo do caminho.

Foi o que aconteceu a Junichiro Tsujinaka, dono de um bar em Tóquio, também ele entrevistado. O seu pai, avô e bisavô eram pescadores na ilha de Hokkaido, no norte do país, e todos trabalhavam como voluntários num templo budista – fazendo oferendas, recolhendo doações e ajudando na manutenção do santuário. Quando era criança, Tsujinaka também ajudava nessas tarefas. Hoje, raramente se envolve com a religião. “Não desenvolvi esse tipo de hábito de orar”, reconhece. “Desde que o meu irmão e eu nos mudámos da nossa cidade natal, deixámos todas as responsabilidades relacionadas com o templo e o santuário para os nossos pais”.

Sem tempo para templos e altares

Vários outros entrevistados também afirmaram que é difícil encontrar tempo para atividades espirituais ou religiosas no meio das suas vidas atarefadas, entre estudos, carreira e família.

Jeongnam Oh, uma comerciante reformada a viver em Seul, conta que, quando era criança, participava frequentemente nas cerimónias e festivais budistas que havia na pequena cidade onde vivia. Mas depois, ao criar os seus filhos, deparou-se com as “pressões da vida moderna”. “Não me lembro de ter ido ao templo com meus filhos”, reconhece Oh. “As crianças precisavam de se concentrar nos estudos, e eu tinha a minha própria vida… Era difícil encontrar tempo para estarmos juntos.”

Mas além das práticas formais como visitar templos e orar, existem muitas outras tradições culturais no Leste Asiático que envolvem crenças ou divindades budistas. E também estas também estão a perder relevância para os jovens, de acordo com as entrevistas conduzidas no âmbito deste estudo.

No Japão, muitas famílias budistas possuem um altar familiar, conhecido como butsudan. Esses pequenos altares são geralmente feitos de madeira e contêm representações de Buda, juntamente com fotos ou placas em memória de parentes falecidos. Tradicionalmente, os membros da família realizavam rituais diários nesses altares, como queimar incenso, acender velas e deixar oferendas de comida, água ou flores frescas. Atsushi Oda, um editor de livros japonês, conta que, após o falecimento da mãe, o seu pai assumiu a tarefa de cuidar do butsudan. Mas Oda não pretende herdar essa responsabilidade. “Imagino que provavelmente irei modificar um pouco os altares, tornando-os diferentes para que não exijam tanto tempo de cuidado”, diz.

Chieko Nakajima, dona de um restaurante em Tóquio, observa por seu lado que “hoje em dia, as famílias japonesas são menores e o número de filhos está a diminuir”. Quando ela era criança, os costumes religiosos e as tradições familiares pareciam ser transmitidos sem esforço, de geração em geração. Mas isso já não acontece. “O sistema familiar está a desintegrar-se, e as pessoas já não veem os seus parentes”, aponta Nakajima. “É por isso que essas tradições familiares únicas, pelo menos aqui em Tóquio, estão a desaparecer rapidamente.”

Visões negativas da religião

Alguns dos entrevistados expressaram opiniões negativas sobre a religião em geral, o que pode ter influenciado as suas atitudes em relação ao budismo, sublinha o relatório.

É o caso de Rogeon Hong, um técnico de estúdio em Seul, que associa a religião à superstição e ao xamanismo. Hong partilha que o seu pai se identifica como budista, mas anda sempre com amuletos para dar sorte. “Ele queima um incenso com cheiro horrível que supostamente afasta a energia negativa, e pendura imagens estranhas e talismãs de proteção”, diz Hong. “Tenho um [amuleto] na minha carteira que ele próprio colocou lá. Acho que não é muito eficaz.”

Os próprios templos budistas na Coreia do Sul abrigam, por vezes, divindades xamânicas. Ambas as tradições partilham algumas práticas, como a veneração de ancestrais e a realização de rituais para afastar o infortúnio ou atrair bênçãos.

Outra entrevistada, Masami Sato, repórter de TV em Tóquio, diz que uma das suas primeiras memórias ligadas à religião é do ataque com gás sarin realizado por um grupo ligado ao culto Aum Shinrikyo (ou Verdade Suprema) no metro da cidade em 1995. Trata-se de culto apocalíptico japonês, fundado por Shoko Asahara em 1984, que misturava budismo, hinduísmo e milenarismo cristão

Vários dos entrevistados no Japão assinalaram que toda a ideia de religião ficou manchada pela violência desde então.

Apesar disso, as investigações do Pew Research Center mostram que cerca de um terço das pessoas sem religião no Japão, e quatro em cada dez na Coreia do Sul, sentem afinidade com os ensinamentos budistas.

Tsujinaka conta que às vezes visita um templo no seu bairro porque isso o ajuda a relaxar. E diz que, quando se depara com um festival budista, compra alguns omamori – amuletos da sorte frequentemente vendidos em templos budistas e santuários xintoístas – como lembranças para os amigos. E Jeongnam Oh reconhece que continua a apoiar-se nas suas crenças budistas quando precisa de conforto. “Acho que é algo com que cresci e que ainda me acompanha”, conclui.

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