5º Domingo da Quaresma – Ano A – Mesmo diante da morte, Deus continua chamando a vida a ressurgir

20 Março 2026

"O Evangelho do Quinto Domingo da Quaresma, o relato da ressurreição de Lázaro, é um dos textos mais profundos e comoventes do Novo Testamento. Nele, somos conduzidos ao coração da esperança cristã: Deus não se resigna diante da morte, mas continua chamando a vida a surgir, mesmo onde tudo parece terminado".

A reflexão é de Ednéa Martins Ornella. Ela possui graduação (2010), mestrado (2013) e doutorado em Teologia pela Pontíficia Universidade Católica do Rio de Janeiro - PUC-Rio (2019). Atualmente é tutora do curso de iniciação teológica da PONTIFÍCIA UNIVERSIDADE CATÓLICA. Tem experiência na área de Teologia, com ênfase na área Bíblica do Antigo Testamento. Participa do Grupo da PUC-Rio de Pesquisa sobre o "Método Análise Retórica Bíblica Semítica", aplicado aos textos Bíblicos (AT e NT) e à Literatura Extrabíblica coordenado pelo professor Dr. Waldecir Gonzaga e do Grupo de Pesquisa Diversidade Sexual da PUC-Rio, coordenada pelo professor Dr. Luis Correa Lima.


Leituras do dia

1ª leitura: Ez 37,12-14
Salmo: Sl 129(130),1-2.3-4ab.5-6.7-8 (R. cf. 7)
2ª leitura: Rm 8,8-11
Evangelho: Jo 11,1-45 ou mais breve 11,3-7.17.20-27.33b-45

Eis a reflexão.

Não há momentos na vida em que tudo parece terminado? Momentos em que a esperança parece seca… como um vale cheio de ossos secos?
A Bíblia conhece essa experiência e hoje nos diz algo surpreendente: Deus ainda pode fazer nascer vida onde tudo parece morto.

O Evangelho do Quinto Domingo da Quaresma, o relato da ressurreição de Lázaro, é um dos textos mais profundos e comoventes do Novo Testamento. Nele, somos conduzidos ao coração da esperança cristã: Deus não se resigna diante da morte, mas continua chamando a vida a surgir, mesmo onde tudo parece terminado.

1. Quando parece que tudo terminou

Na primeira leitura, Ez 37,12-14, o profeta fala a um povo que vive uma experiência dramática. Israel está no exílio da Babilônia. Jerusalém foi destruída, o templo foi arrasado e o povo sente que perdeu tudo: terra, identidade, esperança.

O povo de Israel descreve esse sentimento com palavras fortes: “Os nossos ossos estão secos, a nossa esperança está desfeita. Para nós está tudo acabado.” (Ez 37,11)

É a sensação de quem acredita que não há mais futuro.

E Deus, então, promete algo surpreendente: “Abrirei os vossos túmulos e vos farei subir de vossos túmulos.” (Ez 37,12) Não se trata ainda da ressurreição individual como a compreenderemos depois, mas de algo muito concreto: Deus fará o povo renascer como nação, tirando-o do “túmulo” do exílio e conduzindo-o novamente à terra.

A mensagem é clara: Mesmo quando parece que tudo terminou, Deus ainda pode criar vida nova.

2. Das profundezas clamo a ti

No Salmo 130, o salmista continua a mesma experiência espiritual dizendo: “Das profundezas clamo a ti, Senhor.” (Sl 130,1) A partir da profundidade da dor, do pecado e da fragilidade humana, ele expressa esperança no Senhor. Há um jogo poético com os três verbos em hebraico que estruturam a imagem espiritual do salmo: esperar, aguardar e vigiar. A poesia hebraica utiliza esses verbos para expressar a confiança profunda do fiel em Deus.

No final, o salmista afirma uma certeza fundamental: “Com o Senhor está o amor, e redenção em abundância.” (Sl 130,7b). Esperar em Deus é confiar que a última palavra da história não é o fracasso, mas a redenção. Deus não é o Deus da condenação, mas da misericórdia.

3. A vida que vem do Espírito

Na segunda leitura, Rm 8,8-11, São Paulo aprofunda ainda mais essa esperança, dizendo que há dois modos de viver: viver segundo a carne, confiando apenas nas próprias forças, e viver segundo o Espírito, deixando-se conduzir pela força de Deus. Quem vive apenas segundo a lógica humana acaba prisioneiro do egoísmo e da morte. Mas quem vive no Espírito participa da vida de Cristo.

Paulo afirma algo extraordinário: “O Espírito daquele que ressuscitou Jesus habita em vós.” (Rm 8,11) Isso significa que a vida nova já começou. A ressurreição não é apenas uma promessa futura; ela começa agora, quando o5rf Espírito transforma o coração humano.

4. Jesus diante do túmulo

O Evangelho de Jo 11,1-45 – ressurreição de Lázaro, nos permite ver essa verdade acontecer diante dos nossos olhos. Jesus recebe a dolorosa notícia: “Senhor, aquele que amas está doente.” (Jo 11,3). O Evangelho deixa claro que Jesus amava profundamente aquela família, Lázaro, Marta e Maria (Jo 11,3.5.36). Mesmo assim, Jesus demora a ir. À primeira vista parece estranho. Mas essa demora tem um sentido: levar os discípulos a uma fé mais profunda.

Quando Jesus chega, Lázaro já está morto há quatro dias. Marta corre ao encontro de Jesus e diz: “Senhor, se tivesses estado aqui, meu irmão não teria morrido.” (Jo 11, 21) Maria repetirá a mesma frase (Jo 11, 32). Ela expressa ao mesmo tempo dor e fé.

Então Jesus pronuncia uma das declarações mais importantes do Evangelho de João: “Eu sou a ressurreição e a vida.” (Jo 11,25) Jesus não diz apenas que trará a ressurreição. Ele diz algo maior: Ele próprio é a ressurreição.

5. O Deus que chora

Há um detalhe tocante nesse Evangelho: o Deus que chora. Diante do sofrimento de Maria e do povo, o texto diz simplesmente: “Jesus chorou.” (Jo 11,35) É a menor frase do Evangelho, mas uma das mais profundas. Ela revela que Deus não é indiferente à dor humana. Jesus não observa a morte à distância. Ele sofre com os que sofrem. Ele entra na dor do mundo.

6. “Lázaro, vem para fora!”

Quando chega ao túmulo, Jesus manda tirar a pedra. Marta hesita: “Senhor, já cheira mal.” (Jo 11, 39) Na lógica humana, quando algo chegou ao ponto da morte, não há mais o que fazer. Mas Jesus responde: “Se creres, verás a glória de Deus.” (Jo 11,40). Então Jesus levanta os olhos ao Pai e grita com voz forte: “Lázaro, vem para fora!” (Jo 11,43). E o morto sai do túmulo.

Jesus não diz “venha para fora”, mas “Lázaro, vem para fora”. Ele chama Lázaro pelo nome. Deus chama cada pessoa de modo pessoal. A ressurreição não é uma massa anônima. É um chamado dirigido a cada vida concreta.

O Evangelho diz ainda que Lázaro saiu do túmulo ainda envolto nas faixas mortuárias, e Jesus diz: “Desatai-o e deixai-o ir.” (Jo 11,44). Porque a vida só tem sentido livre e, muitas vezes, precisamos que os outros nos ajudem a desatar as amarras da vida.

Esse milagre não é apenas um gesto extraordinário. No Evangelho de João ele é chamado de sinal, o sexto e último sinal pedagógico de Jesus. O sétimo será a sua própria ressureição, um sinal maior, a vitória definitiva da vida sobre a morte.

7. O preço da vida

A ressurreição de Lázaro aproxima Jesus da cruz. Logo depois desse episódio, as autoridades decidem matar Jesus. De certo modo, a vida que Jesus devolve a Lázaro custará a vida de Jesus. Para dar vida ao mundo, Cristo aceita entregar a própria vida. Por isso a ressurreição de Lázaro aponta para algo ainda maior: a ressurreição do próprio Jesus.

8. O chamado para nós

Este Evangelho não fala apenas de Lázaro, mas de cada um de nós. Quantas vezes na vida nos sentimos como aquele vale de ossos secos de que falava Ezequiel…

Momentos em que parece que tudo terminou: uma perda, uma doença, uma crise, um sofrimento profundo. É justamente aí que ressoa a palavra de Cristo: “Vem para fora!” É o chamado para sair do desânimo, do medo, da desesperança. A fé cristã não nega a realidade da morte e da dor. Mas afirma algo decisivo: A última palavra da história pertence a Deus. E essa palavra é vida.

Conclusão:

Estamos nos aproximando da Semana Santa. A ressurreição de Lázaro prepara nosso coração para compreender o mistério pascal. Jesus é a ressurreição e a vida. Quem crê nele não está destinado ao túmulo definitivo, mas à vida plena. Deus ama a vida e o ser humano.

Por isso, neste domingo, o Senhor faz a cada um de nós a pergunta que fez a Marta: “Crês nisso?” (Jo 11,26) Respondemos: “Sim, Senhor, eu creio que tu és o Messias, o Filho de Deus.” Essa é uma das grandes confissões cristológicas do Evangelho de João e, foi colocada justamente na boca de Marta, uma discípula e não um discípulo.

Que a Palavra de Deus ilumine o nosso caminho nesta Quaresma e nos conduza à vida nova que Cristo nos oferece.
Paz e bem.

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