Região Nordeste é associada ao atraso e à irracionalidade política

Foto: Fernando Dantas/Unplash

Mais Lidos

  • Israel irrita o Catar ao atacar um enorme campo de gás que compartilha com o Irã: "É perigoso e irresponsável"

    LER MAIS
  • Política das imagens, ecologia do olhar e memória ativa são contrapontos aos regimes de anestesia que banalizam o horror, o esquecimento acelerado e a saturação, convertendo tudo em “circulação descartável”

    A cultura como campo de insurgências e resistências ao capitalismo mafioso. Entrevista especial com Ivana Bentes

    LER MAIS
  • Mulher é assassinada a facadas em Esteio; RS chega a 23 casos de feminicídio em 2026

    LER MAIS

Assine a Newsletter

Receba as notícias e atualizações do Instituto Humanitas Unisinos – IHU em primeira mão. Junte-se a nós!

Conheça nossa Política de Privacidade.

Revista ihu on-line

Natal. A poesia mística do Menino Deus no Brasil profundo

Edição: 558

Leia mais

O veneno automático e infinito do ódio e suas atualizações no século XXI

Edição: 557

Leia mais

Um caleidoscópio chamado Rio Grande do Sul

Edição: 556

Leia mais

19 Março 2026

Tese de doutorado de Marina Chaves de Macedo Rego demonstra que parte da imprensa tradicional paulista perpetua estereótipos históricos e deslegitima o exercício político da população nordestina

A reportagem é de Paulo Capuzzo, publicada por Jornal da USP, 18-03-2026.

A famosa frase que Euclides da Cunha imortalizou em sua obra Os Sertões, segundo a qual o sertanejo é, antes de tudo, um forte, num contexto em que o escritor enaltecia a resistência, a resiliência e a capacidade de superação do povo nordestino, bem poderia, nos dias de hoje, se transformar em algo como o sertanejo é, antes de tudo, uma vítima do preconceito – e não é necessário ir muito longe para chegar a essa constatação.

Basta pegar um bonde de volta à eleição de Luiz Inácio Lula da Silva como presidente do País no pleito de 2022, quando se exacerbou o preconceito de que os habitantes dos Estados do Nordeste – que em sua maioria votaram no candidato petista – sempre sofreram, e que é, inclusive, tema de uma tese de doutorado (Conheço o Meu Lugar – Paulistanidade e Estigmatização Nordestina nas Eleições Presidenciais [1989-2022]) defendida na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP pela pesquisadora Marina Chaves de Macedo Rego, que demonstrou que parte da imprensa tradicional paulista associa a região com o atraso e a irracionalidade política.

Para chegar a essa constatação, Marina rastreou as últimas nove eleições presidenciais do País, de 1989 a 2022, valendo-se de dados colhidos em jornais como Diário de Pernambuco, Estado de S.Paulo e Folha de S.Paulo. O resultado da pesquisa apontou que, em 50% dos casos em que o Nordeste foi citado nos últimos dois veículos, sua imagem está ligada a estereótipos que o associam com seca e falta de instrução. São representações, segundo Marina, que, além de reforçarem preconceitos históricos, deslegitimam o exercício político de grande parcela das populações nordestinas. A cada cinco vezes que o Nordeste é citado, uma traz um estereótipo negativo da região.

Como se não bastasse, independentemente dos resultados eleitorais, o nordestino é retratado como menos racional politicamente, quando não considerado apenas como alguém guiado por votos amparados em políticas de distribuição de renda ou de assistência social. Das 1.080 notícias analisadas pela pesquisadora, 69% relacionam o Nordeste ao Partido dos Trabalhadores (PT), e geralmente de forma depreciativa. Segundo Marina, “mesmo quando o Nordeste não votava majoritariamente no PT, por exemplo, já se tentava associar o Nordeste ao PT”. Mesmo tendo Lula vencido as eleições no Rio de Janeiro e no Rio Grande do Sul, em 1989 – e perdido no Nordeste, mas quase ganhando em São Paulo -, ainda assim a região continuou a ser tratada por uma parcela tradicional da imprensa paulista como a de concentrar o maior eleitorado do candidato petista.

Estigma

Tudo contribui, portanto, para que a palavra nordestina, enquanto prática política, seja estigmatizada, inferiorizada e deslegitimada, o que, para Marina, foi a principal estratégia utilizada quando do impeachment da ex-presidente Dilma Roussef, em 2016. Diz a pesquisadora: “Simbolizar um exercício político como nordestino é capaz de diminuir esse exercício político, de tentar deslegitimá-lo em movimentos conservadores. E isso foi possível em âmbito nacional quando houve um golpe institucional em 2016”.

Preconceito vem do passado

O preconceito contra o Nordeste não é um fenômeno atual, mas deve ser buscado no passado, com a decadência da economia açucareira e a ascensão do mercado cafeeiro no Sudeste do Brasil, no fim do século 19. Com a concentração de renda mudando de mãos, saindo do Nordeste rumo ao Sudeste, São Paulo, sobretudo, passou a ser sinônimo de industrialização, atraindo para si imigrantes europeus brancos – isto, por sua vez, foi parte de uma política do Estado brasileiro de tentar embranquecer a população por meio do estímulo à vinda de europeus brancos para as regiões que estavam em franca expansão industrial.

Já o Nordeste, por sua vez, permaneceu povoado por uma população em que predominavam negros, ex-escravizados. A consequência é que São Paulo passou a ser visto como o futuro do desenvolvimento, enquanto ao Nordeste coube a pecha de uma região colada ao passado, que deveria ser superada, segundo Marina. Na prática cotidiana, essa distorção pode ser vista, destaca a pesquisadora, no uso pejorativo da palavra “baiano” para “qualificar” indiscriminadamente todos os migrantes nordestinos, além de negros e indígenas, geralmente às margens da pobreza.

Marina destaca que não há populações superiores a outras, nem mesmo quando São Paulo é tratada como locomotiva do País, uma forma de conferir ao Estado uma superioridade que viria de uma parcela rica e branca da população paulista. No mesmo sentido, não existe população paulista e nordestina que seja homogênea, de vez que todas possuem suas especificidades. Tais ideias, segundo a socióloga, são fruto de construções históricas baseadas na desigualdade racial e de classe.

Leia mais