'Una Caro' sob o estrago da pólvora - Quando a guerra no Oeste da Ásia impede o matrimônio. Artigo de Thiago Gama

Foto: Mustafa Hassona | Anadolu Agency

21 Março 2026

Entre a promessa do “nós dois” e a geometria da destruição em Gaza e Teerã, é preciso ler a Nota Doutrinal do Papa Leão XIV à luz da fragilidade inaciana e dos testemunhos de Rojin e Hind — porque quando a bala de canhão de 1521 reencarna em fragmentos de Tomahawk, resta apenas a persistência nua de quem perde tudo e ainda assim se recusa a abandonar a dignidade do afeto.

Em março de 2026, enquanto as baterias antiaéreas marcam o ritmo da vigília em Isfahan e os hospitais de campanha em Gaza se tornam a última morada do leito nupcial.

O Mestre e Doutorando em História Comparada (PPGHC) pela UFRJ, especialista em História das religiões monoteístas, com ênfase em Igreja Católica Contemporânea Thiago Gama oferece ao Instituto Humanitas Unisinos (IHU) uma leitura da Nota Doutrinal Una Caro — o elogio à monogamia publicado pelo Papa Leão XIV — à luz da ferida exposta pela guerra no Oeste da Ásia.

Entrelaçando a espiritualidade inaciana, a poética do Cântico dos Cânticos e a crueza factual dos testemunhos de Rojin e Hind; Thiago Gama denuncia o sacrilégio da fragmentação dos lares xiitas e sunitas, e afirma: quando a bala de canhão de 1521 reencarna em fragmentos de Tomahawk sobre Khan Yunis, resta apenas a persistência nua de quem perde tudo — as pernas, a tenda, o filho — e ainda assim se recusa a abandonar a dignidade do afeto.

Eis o artigo.

Há um segredo em Inácio de Loyola que a guerra, nestes dias de março de 2026, tornou evidente como uma ferida exposta: o amor de Deus só vence quando nos deixamos derrotar por ele.

Foi uma bala de canhão, em 1521, que destroçou as pernas do jovem soldado basco. Imobilizado, ele foi vencido — não pela força, mas pela fragilidade. “Aqui Deus ganhou para si Inácio”, diz a inscrição em sua capela natal. Não foi Inácio que se entregou; foi Deus quem o conquistou. Porque o amor verdadeiro não se impõe: seduz, espera, habita as ruínas.

Foto: Jl FilpoC | Wikimedia Commons

É desse mesmo amor — vulnerável, encarnado — que fala a Nota Doutrinal Una Caro, publicada pelo Dicastério para a Doutrina da Fé em 25 de novembro de 2025 e aprovada pelo Papa Leão XIV.

O documento não é um tratado árido sobre regras canônicas. É um elogio: um canto à beleza de um amor que, por ser exclusivo, se torna totalizante; por ser limitado a dois, se abre ao infinito.

Una caro, uma só carne. A expressão bíblica que funda o matrimônio é também, segundo a Nota, a raiz do “nós dois” — aquela forma verbal que os cônjuges pronunciam quando se referem não apenas a uma vida compartilhada, mas a uma história que só eles conhecem, a uma memória que só eles carregam, a uma esperança que só eles podem alimentar juntos.

O Papa Francisco, citado na abertura, resumiu: “Também os esposos deveriam formar uma primeira pessoa do plural, um ‘nós’. Estar um diante do outro como um ‘eu’ e um ‘tu’, e estar perante o resto do mundo como um ‘nós’”.

Esse “nós”, porém, não é um muro que isola; é um coração que se expande. A Una Caro insiste: a pertença recíproca — fundada no consentimento livre dos cônjuges — é reflexo da própria comunhão trinitária, e só pode florescer quando cuidada com “um santo temor de profanar a liberdade do outro”.

O matrimônio, assim, não é posse. Não é “pretensão de tranquilidade absoluta”. É confiança. É capacidade de enfrentar novos desafios juntos, num diálogo sincero que jamais permite que a distância se torne rotineira.

Mas o que acontece quando esse “nós dois” é golpeado não pela distância afetiva, mas pela distância imposta? Quando o lar é destruído, as linhas telefônicas cortadas, e os cônjuges separados não por desamor, mas por bombas que não distinguem entre o leito nupcial e o alvo militar? É neste ponto que a reflexão teológica encontra a crueza do factual.

A guerra iniciada em 28 de fevereiro de 2026 — com ataques conjuntos de Israel e EUA ao Irã — já produziu uma topografia do desterro. Dezenas de milhares de iranianos fugiram de Teerã nos primeiros dias de conflito. Mulheres abandonaram maridos, como aquela de 35 anos que, na fronteira com a Turquia, disse não dormir há três dias, enquanto bombas caíam em seu bairro.

O primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, declarou em 10 de março: “Estamos quebrando seus ossos e ainda não terminamos”.

Em Gaza, o genocídio em curso — assim classificado pela Comissão de Inquérito da ONU — já ceifou mais de 72.000 vidas desde outubro de 2023. A Anistia Internacional documentou que mulheres grávidas e lactantes, cerca de 37.000, enfrentam desnutrição aguda e dão à luz sem anestesia, em hospitais devastados onde 46% dos medicamentos essenciais estão esgotados.

É nesse cenário que a Una Caro se torna não apenas um documento magisterial, mas um teste de humanidade.

Porque se a monogamia é — como o texto afirma — a “possibilidade de um amor que se abre ao eterno”; impedir que um casal muçulmano viva sua pertença recíproca não é apenas um dano colateral da guerra: é uma afronta teológica à raiz do cristianismo.

É negar que o Deus-Allah invocado nos porões de Gaza é o mesmo Deus único e misericordioso que carrega uma sacralidade absoluta e independente. O contrato Aqd dos xiitas e sunitas é uma realidade de afeto que não necessita de validação externa para ser reconhecida como um território inviolável.

Não há dois deuses disputando a primazia das ruínas. Há um único Criador que contempla o sacrilégio da fragmentação desses lares.

O documento do Dicastério é explícito quanto aos desafios contemporâneos: “O atual contexto global de desenvolvimento do poder tecnológico leva o homem a pensar-se como uma criatura sem limites e, portanto, distante do valor de um amor exclusivo e reservado a uma única pessoa”.

Há uma imagem, porém, que resiste ao algoritmo — e pode ser vista aqui:

Em 2026, esse poder tecnológico assumiu a forma de um sistema de extermínio: transforma o leito nupcial em hospital de campanha, a residência civil em extensão do front. Em Gaza, 50.000 mulheres grávidas foram privadas de acesso a cuidados adequados. Que “pertença recíproca” pode florescer quando o próprio ato de dar à luz se torna uma luta pela sobrevivência?

A voz de Rojin

 

“Please, honey, please tell the Americans not to let the Israeli jets leave. If the Israeli jets leave, the Ayatollahs will kill us.”

“Por favor, querida, por favor, diga aos americanos para não deixarem os aviões israelenses decolarem. Se os aviões israelenses decolarem, os aiatolás nos matarão.”

Rojin é uma mulher iraniano-americana de segunda geração, casada com um homem de primeira geração vindo do Irã. Ela descreve o desespero de comunicar-se com a sogra, que ainda vive no Irã. As linhas telefônicas foram cortadas. Apenas a família pode ligar para ela, com ligações monitoradas que caem a qualquer momento quando certas palavras são usadas.

O clamor de Rojin é a expressão máxima da Una Caro ameaçada pela geopolítica: a carne cindida não apenas pela distância, pelo fio da incerteza que paira sobre os que ficaram.

A voz de Hind

“I lost a lot of weight; I weighed only 43 Kg and at the field hospital where I gave birth they told me that I am suffering from malnutrition. My baby was born with lung infection in both lungs; he spent several days in the intensive care unit and now is a bit better but still cannot breathe properly on his own and is in an incubator. I am afraid he will get sicker because I live in a tent by the sea and it has been very cold and there is no way to keep warm.”

“Perdi muito peso; pesava apenas 43 quilos. No hospital de campanha onde dei à luz, disseram-me que estou desnutrida. Meu bebê nasceu com infecção pulmonar nos dois pulmões; passou vários dias na UTI e agora está um pouco melhor, mas ainda não consegue respirar bem sozinho e está na incubadora. Tenho medo que ele piore, porque moro numa tenda perto do mar, está muito frio e não há como me aquecer.”

Hind tem 22 anos. Vive numa tenda em Al-Mawasi, deslocada do campo de refugiados de Jabalia, hoje quase totalmente destruído. Deu à luz um menino em 19 de janeiro de 2026. Pesava 43 quilos. Seu bebê luta contra uma infecção pulmonar enquanto o frio do mar entra pela lona. Ela tem outro filho de 18 meses, também doente por causa do frio.

WAFA | Wikimedia Commons

Suas palavras são a própria definição da “uma só carne” em agonia. Não há abstração aqui. Há uma mulher de 43 quilos tentando aquecer dois filhos numa tenda, à beira do mar, sem anestesia, sem leite, sem esperança. Carne. Só.

A “unidade indivisível” preconizada por São Tomás não é mais uma categoria teológica abstrata. É a carne de Hind, cindida por uma geometria de destruição que transforma o “nós” em um inventário de ausências sob o concreto calcinado de Khan Yunis.

Há uma expressão no Cântico dos Cânticos que deveria ecoar nessas ruínas: “Põe-me como selo sobre o teu coração, como selo sobre o teu braço, porque o amor é forte como a morte” (Ct 8,6).

Em Gaza e no Estreito de Ormuz, a ternura deixa de ser um adereço para se tornar a matéria mesma que resiste e recusa a desintegração. O beijo (Ct 1,2) é o gesto íntimo de amor que os casais árabes opõem ao enxofre e ao concreto calcinado. É a afirmação de que a carne, mesmo sob o cerco da técnica, permanece o território do sagrado.

A sulamita contemporânea, seja ela persa ou Palestina, procura o seu amado não entre os guardas da cidade bíblica, mas entre os postos de controle e as cercas biométricas. Seu lamento é uma denúncia contra a lógica que tenta cindir o que Deus unificou na ordem natural.

No quarto capítulo da Exortação Amoris Laetitia, Francisco operou uma subversão: a ternura deixou de ser um adereço sentimental para se tornar uma categoria política de resistência.

A “mística do cotidiano” é o reconhecimento de que a santidade do vínculo não reside na ausência de cicatrizes, mas na capacidade de sustentar o “nós” através do gesto mínimo — o olhar que acolhe, o afago que repara, a paciência que suporta o tempo.

Em Gaza ou no Irã, onde a infraestrutura da vida foi extirpada, a Una Caro manifesta-se precisamente nessa microfísica do cuidado que recusa a desumanização imposta pela guerra.

O Papa Leão XIV, retomando essa herança, afirmou que os pobres são “uma questão familiar” do cristão, não um mero “problema social”. A atenção aos vulneráveis é “antídoto à endogamia”.

Para o casal árabe que atravessa a noite escura do conflito, a promessa de fidelidade é o único território que o algoritmo do medo não consegue mapear. A “uma só carne” é a simbiose que transforma o desamparo em refúgio.

O gesto mínimo de segurar a mão do outro sob os escombros de Khan Yunis é o ato de coragem mais radical do nosso tempo: a afirmação de que a dignidade da pessoa é irredutível à sua condição de vítima ou refugiada.

A ótica inaciana exige que a defesa da dignidade humana seja a prioridade absoluta do apostolado social. Defender o matrimônio árabe não é exercício de tolerância, mas exigência da missão: reconhecer que a justiça de Deus se realiza na proteção do amor do Outro.

Una Caro torna-se, nessa lente, o instrumento de uma diplomacia da compaixão que exige o fim da fragmentação dos lares xiitas e sunitas.

A mística do serviço, derivada das Constituições da Companhia de Jesus, impõe que a Igreja se coloque como escudo para as famílias do Golfo, tratando a união dos filhos de Alá como uma parcela da mesma vinha que o Senhor nos confiou.

Não existe justiça sem a salvaguarda da intimidade. O amor que o Papa Leão XIV defende na Una Caro é o mesmo que deve ser protegido nas trincheiras do diálogo inter-religioso, onde a vida partilhada é o único dogma que resiste à pólvora.

Ao final, a Contemplatio ad Amorem — o ápice dos Exercícios Espirituais de Inácio — ensina que o amor se deve pôr mais nas obras do que nas palavras.

A defesa da Una Caro exige, portanto, a reconstituição do espírito através do cuidado com o rosto concreto. A “uma só carne” não é um privilégio católico, mas uma participação na caridade universal que sustenta o cosmos. O amor que salva da desolação é a mesma energia que o Deus-Allah infunde nos amantes de Teerã para que não sucumbam ao niilismo.

A salvação é uma categoria diádica. Ninguém se salva sozinho. Salvamo-nos na medida em que o outro se torna o nosso porto de pertença.

Se há algo mais sombrio do que a guerra, é a possibilidade de que, ao normalizarmos sua destruição, estejamos ensinando uma geração inteira de que o amor é descartável, de que o “nós dois” é um luxo, de que a pertença recíproca é um privilégio dos que têm a sorte de não serem bombardeados.

O amor que “tudo desculpa, tudo crê, tudo espera, tudo suporta” (1 Cor 13,7) não é um idealismo ingênuo. É a força centrípeta que impede que o universo desabe no caos do egoísmo absoluto.

Una Caro é a bússola dessa resistência. O manifesto de que, no encontro entre o homem e a mulher, reside o último segredo que o império não pode capturar nem destruir.

Às 04:32 AM do dia 15 de Março de 2026, enquanto as baterias antiaéreas marcam o ritmo da vigília em Isfahan, o contrato de afeto entre os amantes de Teerã é a única soberania que resta. Não se trata de uma esperança no amanhã, mas da afirmação bruta da existência hoje, contra uma técnica que visa transformar o sujeito em dado estatístico de necrotério.

Hind ainda não sabe se o filho terá nome. Inácio aprendeu, imóvel, que a derrota do corpo pode ser a vitória da alma. Hoje, sobre Gaza e Teerã, os mísseis escrevem a mesma lição com sangue: quando a bala de canhão de 1521 reencarna em fragmentos de Tomahawk sobre Khan Yunis, resta apenas a persistência nua de quem perdeu tudo — as pernas, a tenda, o filho — e ainda assim se recusa a abandonar a dignidade do afeto. Porque o amor é forte como a morte.

WAFA | Wikimedia Commons

Este testemunho é dedicado à proteção de Santo Isaque de Nínive, o mestre da compaixão universal que habitou o silêncio da Pérsia, e à sombra milenar de São Porfírio de Gaza. Que o primeiro guarde a integridade do afeto em Teerã e o segundo ofereça o solo de sua Igreja como último Hospital de Campanha para o matrimônio árabe. Eles nos ensinam que, sob o Estrago da Pólvora, a única soberania irredutível é a do coração que arde pelo sofrimento do Outro, transubstanciando a ruína em território de esperança.

Esclarecimentos Necessários:

Sobre o contrato Aqd

O termo árabe Aqd (عقد) significa literalmente “” ou “vínculo”, designando no Direito Islâmico o contrato matrimonial que formaliza a união entre os cônjuges. Trata-se de um pacto solene — mithaqun ghalithun —, a mesma expressão que o Alcorão utiliza para designar a aliança divina com os profetas (Alcorão 4:21; 33:7). Este contrato não é mera formalidade burocrática: seus pilares são o ijab (oferta) e o qabul (aceitação), pronunciados livremente pelos nubentes ou seus representantes, na presença de testemunhas, estabelecendo direitos e deveres recíprocos que incluem sustento, moradia, herança e o dever do tratamento equitativo. O Profeta Muhammad teria dito: “Não há casamento sem um supervisor e duas testemunhas confiáveis”.

Sobre a poligamia e a norma monogâmica no Irã e em Gaza

É imperioso dissipar o equívoco orientalista — denunciado por Edward Said — que reduz o mundo islâmico a um harém imaginário. A esmagadora maioria dos casamentos em países de maioria muçulmana, incluindo Irã e Palestina, é monogâmica.

O que diz o Alcorão:

A permissão para a poligamia no Alcorão é rigorosamente condicionada. O versículo frequentemente citado (4:3) deve ser lido em sua inteireza:

“Se temeis não poder tratar os órfãos com justiça, casai-vos com mulheres de vossa escolha, duas, três ou quatro; mas se temeis não poder tratar justo entre elas, esposai uma só...” (Alcorão 4:3, tradução de Samir El Hayek).

O versículo seguinte (4:129) estabelece uma advertência decisiva:

“Vós jamais sereis capazes de ser justos e equitativos entre as mulheres, mesmo que seja esse o vosso ardente desejo.” (Alcorão 4:129).

Como observa o estudioso Jamal Badawi, a exigência de justiça “exclui a fantasia de que o homem pode ‘possuir quantas esposas quiser’”. O próprio versículo que permite a poligamia aponta para a recomendação da monogamia como “o mais adequado, para que não cometais injustiça” (4:3). Trata-se, portanto, de uma permissão de exceção, cercada de condições tão estritas que a tornam, na prática, um caminho desencorajado pela própria lógica interna do texto sagrado.

O que diz a realidade (Pew Research Center)

Segundo dados do Pew Research Center, a prática da poligamia é extremamente rara no Irã: menos de 1% da população masculina muçulmana vive com mais de uma esposa. Em Gaza, embora a lei permita, a prática é igualmente minoritária. Estima-se que os casamentos poligâmicos nos territórios palestinos não ultrapassem 10%. A imagem que emerge da realidade local — de casais formando uniões em meio aos escombros — é a da afirmação do “nós dois”, não a de um acúmulo de esposas.

Sobre a diversidade étnica: persas e árabes

É necessário precisar: os iranianos são, majoritariamente, persas, não árabes. Falam o farsi (persa), língua indo-europeia distinta do árabe (semítica), embora utilizem o alfabeto árabe modificado. Sua identidade cultural e histórica remonta ao Império Persa, anterior à chegada do Islã. No Irã, cerca de 90% da população é muçulmana xiita, enquanto a maioria dos árabes (incluindo palestinos) é sunita — diferença teológica e histórica relevante, mas que não altera o fundamento comum do contrato matrimonial Aqd em suas respectivas tradições jurídicas.

Sobre a diferença entre Sunitas e Xiitas

A distinção entre sunitas e xiitas remonta à origem do Islã, no século VII, e à sucessão do profeta Maomé (Muhammad), em 632 d.C.

Após a morte do Profeta, a comunidade muçulmana dividiu-se sobre quem deveria liderá-la. A maioria defendia que o novo líder — o califa — fosse escolhido por consenso entre os companheiros do Profeta, com base em sua capacidade e na tradição (sunnah) deixada por Maomé. Este grupo, que passou a ser conhecido como sunitas (do árabe Ahl al-Sunna, “o povo da tradição”), prevaleceu e elegeu Abu Bakr, sogro e companheiro próximo do Profeta, como primeiro califa.

Uma minoria, porém, sustentava que a liderança deveria permanecer na linhagem direta do Profeta, especificamente com seu primo e genro Ali ibn Abi Talib, casado com Fátima, a única filha sobrevivente de Maomé. Este grupo originou os xiitas (do árabe Shiat Ali, “partido de Ali”). Para os xiitas, Ali era o sucessor legítimo designado divinamente, e a liderança espiritual (imamato) deveria ser transmitida aos seus descendentes.

Os sunitas constituem a esmagadora maioria dos muçulmanos no mundo — entre 85% e 90% —, predominando em países como Arábia Saudita, Egito, Turquia, Indonésia e Palestina. Os xiitas, cerca de 10% a 15% da população muçulmana global, são maioria apenas em alguns países, notadamente Irã (aproximadamente 90% da população), Iraque, Bahrein e Azerbaijão, com comunidades significativas no Líbano, Iêmen e Síria.

Bibliografia:

Fontes Magisteriais e Eclesiásticas:

CONCÍLIO VATICANO II. Constituição Dogmática Lumen Gentium: sobre a Igreja. Roma, 21 nov. 1964. Acessado em 14 de março de 2026.

CONCÍLIO VATICANO II. Declaração Nostra Aetate: sobre as relações da Igreja com as religiões não-cristãs. Roma, 28 out. 1965. Acessado em 14 março de 2026.

DICASTÉRIO PARA A DOUTRINA DA FÉ. Una caro: elogio à monogamia. Nota doutrinal sobre o valor do matrimônio como união exclusiva e pertencimento recíproco. Vaticano, 25 nov. 2025. Aprovada pelo Papa Leão XIV em 21 nov. 2025. Acessado em 14 de março de 2026.

PAPA FRANCISCO. Exortação Apostólica Pós-Sinodal Amoris Laetitia: sobre o amor na família. Vaticano, 19 mar. 2016.

PAPA JOÃO PAULO II. Catequeses sobre o amor humano: Teologia do Corpo. Vaticano, 1979-1984.

PAPA BENTO XVI. Carta Encíclica Deus Caritas Est: sobre o amor cristão. Vaticano, 25 dez. 2005.

PAPA LEÃO XIV. Biografia e documentos oficiais. Vaticano. Acessado em 14 de março de 2026.

VATICAN NEWS. Doutrina da Fé: a monogamia não é um limite, o matrimônio é promessa de infinito. Cidade do Vaticano, 25 de novembro de 2025. Acessado em 14 de março de 2026.

Documentos sobre a Situação no Oeste da Ásia:

ANISTIA INTERNACIONAL. Israel’s genocide in Gaza inflicts compounded harms on women. Londres, 10 março de 2026. Acessado em 14 de março de 2026.

CORREIO DA MANHÃ. ONU apela à passagem segura de ajuda humanitária pelo estreito de Ormuz. 13 mar. 2026. Acessado em 14 março de 2026.

HUMAN RIGHTS WATCH. Relatório Mundial 2026: Israel e Palestina (eventos de 2025). Acessado em 14 março de 2026.

ORGANIZAÇÃO DAS NAÇÕES UNIDAS. Autoridade da ONU alerta que fechamento do Estreito de Ormuz pode afetar operações humanitárias. Reuters/ Washington, 13 de março de 2026. Acessado em 14 de março de 2026.

WSAV-TV. “I feel like my people won the lottery”: Local Iranian woman speaks after U.S. strikes Iran. Acessado em 14 de março de 2026.

III. Livros e Obras Consultadas:

ALCORÃO SAGRADO. Tradução de Samir El Hayek. 13. ed. São Paulo: Sociedade Beneficente Muçulmana do Brasil, 2025. 778 p. Edição bilíngue (árabe-português).

BÍBLIA SAGRADA. Bíblia de Jerusalém. Tradução de Gilberto da Silva e outros. 9. imp. São Paulo: Paulus, 2013.

BISSIO, Beatriz. O mundo árabe: o Oriente Médio e o Magreb (Geopolítica e Identidade). Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2012.

FOUCAULT, Michel. O governo de si e dos outros: curso no Collège de France (1982-1983). Tradução de Eduardo Brandão. São Paulo: Martins Fontes, 2010.

LÉVINAS, Emmanuel. Totalidade e infinito: ensaio sobre a exterioridade. Tradução de José Pinto Ribeiro. Lisboa: Edições 70, 2000.

LOYOLA, Inácio de. Exercícios espirituais. Tradução de Cândido de Dalmases. Porto: Apostolado da Imprensa, 1990.

WOJTYŁA, Karol. Amor e responsabilidade. Tradução de Maria do Rosário de Castro. São Paulo: Quadrante, 2015.

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