17 Março 2026
Não creio ser possível calcular com precisão quem está lucrando com essa (e outras) guerras, e em que medida. Claro, numa avaliação superficial, dá para imaginar os gigantescos lucros da indústria armamentista e seus correlatos, e o próspero crescimento dos investimentos financeiros ligados a isso.
O artigo é de Michele Serra, jornalista, escritor e roteirista italiano, publicado por La Repubblica, de 13-03-2026. A tradução é de Luisa Rabolini.
Eis o artigo.
Basta pensar na enorme quantidade de armas consumidas. E se, por acaso, as armas tivessem prazo de validade, como os ovos; certamente vai ter alguém que, diante do seu vencimento, sinta que chegou a hora de usar todas essas mercadorias antes que acabem nos aterros sanitários, e imediatamente toma providência para que sejam usadas e depois substituídas, de modo que os arsenais estejam sempre bem abastecidos.
É com igual certeza que se sabe que o preço da guerra (além do custo, incalculável, de vidas humanas) recai sobre a vida cotidiana de multidões de pessoas. Os preços da energia sobem e, com eles, os preços dos bens de consumo diário; fica mais caro comer e viajar, locomover-se, estudar; custa mais caro viver.
Podemos, portanto, dizer, com boa aproximação, que muitos pagam o preço da guerra em benefício de poucos, que ganham um montão de dinheiro.
Nesse sentido, a economia de guerra é parente próxima da economia atual, que prevê a concentração da riqueza em poucas mãos e a luta frenética de todos os demais, especialmente da famosa classe média, cujos vestígios (política e culturalmente falando) estão se perdendo em favor do sistema binário povo/elite.
A economia de guerra é, ao mesmo tempo, filha desse nosso tempo e sua fautora. Poucos decidem, os outros sofrem; poucos enriquecem, os outros esperam sobreviver. Não é preciso ser Nostradamus para prever um radiante futuro para a guerra e a economia de guerra. A menos que os muitos se rebelem contra os poucos: mas como, e quando?
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