"O caos está avançando, mas nossos valores não são inúteis”. Entrevista com Slavoj Žižek

Foto: Malachi Clark/Unsplash

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16 Março 2026

O filósofo esloveno: "Precisamos nos tornar mais eurocêntricos, e isso também significa reinventar os direitos fundamentais."

A entrevista é de Raffaella De Santis, publicada por La Repubblica, 15-03-2026.

Slavoj Žižek vem adotando uma postura moderada há algum tempo. Em um mundo consumido por guerras e extremismo, o filósofo mais provocativo de nosso tempo defende as regras da democracia com um senso de proporção que chega a ser revolucionário. Para Žižek, agora nas livrarias com o livro "Contro il progresso" (Ponte alle Grazie), os conflitos entre Irã, Oriente Médio e Ucrânia são a prova de uma política predatória que perdeu sua aderência ao direito internacional. E nesse tabuleiro de xadrez indomável, a Europa precisa, mais uma vez, falar a linguagem da razão.

Eis a entrevista.

Estaremos diante de um choque de civilizações?

É verdadeiramente o fim da velha ordem mundial liberal e democrática. O que está acontecendo no Irã sela a catástrofe. É uma situação única, na qual aparentemente não há lugar para a Europa. Mas é precisamente esse evidente estado de crise que me leva a ser decididamente eurocêntrico agora.

Como pode a Europa recuperar a sua centralidade geopolítica?

Ao não se adaptar à ordem mundial brutal que está emergindo e continua a representar o que resta do mundo civilizado. Apesar de seus compromissos, a Europa ainda representa os valores do Iluminismo, os direitos humanos fundamentais. Ideais pelos quais ainda vale a pena lutar, mas que precisam ser reinventados e adaptados aos nossos tempos. Num momento em que Trump e Vance a atacam, rotulando-a como inimiga, devemos reafirmar uma Europa unida. Precisamos de uma federação europeia ou algo semelhante para enfrentar os desafios atuais, não apenas as guerras, mas também a crise ecológica e a inteligência artificial.

E o que os Estados Unidos de Trump representam hoje?

Pete Hegseth, o Secretário de Defesa dos EUA, disse que o Irã está sangrando até a morte, mas que os Estados Unidos continuarão a bombardeá-lo, a atacá-lo. Acho que essas palavras representam o fim da civilização. Ou melhor, o início de uma civilização bárbara, na qual Putin e Trump falam a mesma língua.

Existe realmente o risco de que um cenário de um grande conflito entre os Estados Unidos e a China esteja sendo preparado para o futuro?

Não creio que isso vá acontecer. Xi Jinping, o líder chinês, almeja boas relações econômicas, o que exige estabilidade e ordem. Ele demitiu os altos escalões do exército, generais de alta patente, que tinham visões mais belicistas. Claro, não estou defendendo a China; todos sabemos da repressão contra os uigures, tibetanos e cidadãos comuns. Estou apenas dizendo que, comparada aos Estados Unidos e à Rússia, a China não está melhor hoje, mas é o mal menor. A Europa deveria desenvolver laços econômicos mais estreitos com a China para isolá-la o máximo possível da Rússia.

A ganhadora iraniana do Prêmio Nobel, Shirin Ebadi, em entrevista ao jornal Repubblica, afirmou que a intervenção dos EUA no Irã foi indispensável e equivalente a uma guerra de libertação.

Em certo sentido, concordo, mas questiono a forma como os Estados Unidos estão agindo. Trump afirmou claramente que não se importa se o Irã é uma democracia; em sua visão, pode facilmente permanecer uma teocracia, contanto que obedeça às suas exigências. O mesmo aconteceu com a Venezuela, onde ele aceitou o regime pós-Maduro com algumas mudanças na cúpula, desde que o país obedeça aos Estados Unidos.

Você não acha que muitos iranianos comuns, e não apenas os dissidentes conhecidos, esperavam por uma intervenção estrangeira?

Não creio que a maioria dos iranianos seja pró-americana: pelo contrário, estão desesperados, especialmente após o bombardeio dos depósitos de petróleo. Estamos enfrentando uma catástrofe ecológica que afeta os pulmões de milhões de pessoas. No entanto, gostaria de evitar qualquer mal-entendido: sou totalmente contrário ao regime iraniano; basta pensar nos milhares de manifestantes mortos na última repressão. É um regime terrível. Contudo, discordo da forma como os Estados Unidos, sob pressão de Netanyahu, conduziram esse ataque. É uma operação que viola o princípio fundamental da soberania estatal.

Quais são os cenários futuros que você prevê?

Se a República Islâmica do Irã e o Hezbollah caíssem, seria algo positivo. Mas acredito que o sonho de Israel de controlar o Oriente Médio não se concretizará. Nem um Oriente Médio controlado por estados próximos aos Estados Unidos, como o Catar ou os Emirados Árabes Unidos. É mais provável que surja uma nova onda de terrorismo fundamentalista e antissemitismo. Também é provável que o Irã realmente tente desenvolver seu programa nuclear. Estou muito preocupado.

Como filósofo atento às práticas políticas, tente definir nossa era

A Rússia de Putin e os Estados Unidos de Trump são o novo eixo do mal, a personificação de um novo tipo de líder predatório que viola a lei e usa a brutalidade para resolver problemas. O modelo é o salvadorenho Bukele, um líder forte que age sem qualquer preocupação com o mundo jurídico. Estamos na era da política predatória, dentro de uma nova e mórbida ordem mundial, para usar o termo de Gramsci. É por isso que digo que devemos agir não seguindo o curso da história, mas combatendo suas tendências.

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