A sede de Deus nos desertos contemporâneos: Aproximações teopoéticas. Artigo de Eliseu Wisniewsk

Foto: Malte Bremer/Unplash

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14 Março 2026

"A obra em questão configura-se como uma obra de grande relevância para a teologia atual. Ao articular com maestria sensibilidade poética, rigor teológico e atenção às urgências do presente, Maria Clara Bingemer oferece ao leitor uma reflexão que ultrapassa os limites disciplinares, convocando-o a atravessar com lucidez e esperança os desertos do nosso tempo", escreve Eliseu Wisniewski, presbítero da Congregação da Missão (padres vicentinos), Província do Sul, mestre em Teologia pela Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR).

Eis o artigo.

O livro A sede de Deus nos desertos contemporâneos: aproximações teopoéticas (Recriar, 2025, 146 p.), de Maria Clara Lucchetti Bingemer, representa uma contribuição singular ao debate teológico, sobretudo no que diz respeito à interseção entre espiritualidade cristã, literatura e crise socioambiental. Autora de vasta produção intelectual e com trajetória consolidada na Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, onde lecionou por mais de quatro décadas, Bingemer mobiliza sua experiência acadêmica e sua sensibilidade teológica para refletir sobre os desafios espirituais e éticos que atravessam o mundo atual. A obra nasce da provocação central da encíclica Laudato Si’, especialmente do número 217, no qual o Papa Francisco retoma a intuição de Bento XVI e afirma que a multiplicação dos “desertos exteriores” decorre da ampliação dos “desertos interiores”. Para Bingemer, essa formulação desvela a profunda articulação entre crise ambiental e crise antropológica, tornando insustentável qualquer tentativa de dissociar justiça social de justiça ecológica.

A sede de Deus nos desertos contemporâneos, de Maria Clara Lucchetti Bingemer. (Editora Recriar, 2025). Créditos: Reprodução/Editora Recriar 

A autora relembra que, antes mesmo do magistério pontifício, pessoas como Chico Mendes (1944-1988), líder seringueiro, sindicalista e ambientalista brasileiro, reconhecido internacionalmente por sua atuação em defesa da Amazônia e dos direitos das populações tradicionais, já denunciavam a impossibilidade de se defender o meio ambiente sem enfrentar os sistemas econômicos e políticos baseados na ganância e no lucro, que sacrificam vidas humanas e não humanas. A crise ecológica, assim, é compreendida como sintoma de uma crise mais profunda, que toca o sentido da existência e o próprio modo de ser humano no mundo. É nesse cenário que Bingemer propõe uma leitura teopoética dos “desertos contemporâneos”, externos e internos, partindo da convicção de que a aridez interior contribui para a devastação exterior, e, ao mesmo tempo, é por ela agravada. Para desenvolver essa perspectiva, a autora retoma duas imagens centrais da Escritura: o deserto e a água. O povo bíblico experimentou o deserto como lugar de provação, sede e vulnerabilidade, mas também como espaço de revelação. A água, fonte de vida e metáfora da presença divina, simboliza a promessa que sustenta o caminhar do povo. Essas duas imagens estruturam a reflexão teopoética que perpassa todo o livro.

Bingemer explora com rigor e sensibilidade as metáforas do deserto e da água presentes na literatura, no cinema e na arte, demonstrando como tais símbolos continuam iluminando as buscas, angústias e esperanças da humanidade. Os desertos contemporâneos, afirma a autora, são marcados pela violência, pelo ódio, pela tortura, pela destruição das relações e pela devastação da casa comum. Ao mesmo tempo, são atravessados por sinais discretos, porém insistentes, de esperança: mulheres, crianças, místicos, poetas e seres vulneráveis que mantêm viva a possibilidade de regeneração. As metáforas aquáticas, embora frequentemente ambivalentes e até ameaçadoras, são trabalhadas como imagens de purificação, justiça e renascimento. A água, simbólica e poeticamente feminina, surge como força que denuncia crimes, devolve corpos, acolhe lutos e abre caminhos para a verdade.

A obra avança, então, para a figura do teólogo como teopoeta. Inspirada pelo Papa Francisco, que fala dos “poetas sociais”, Bingemer propõe que a teologia contemporânea assuma um papel criativo e existencialmente comprometido. O teólogo-teopoeta, guardião e intérprete da vida ferida, é convocado a nomear os desertos, a discernir seus sinais e a colaborar para sua fecundação por meio da beleza, da compaixão e da verdade. A teologia, nesse horizonte, não se limita ao discurso conceitual, mas torna-se canto e narrativa que procuram favorecer a vida ameaçada. Por isso, a autora afirma que a teologia precisa ser simultaneamente teopoética e teopoiética, isto é, deve unir a palavra criadora e a palavra que canta o divino, contribuindo para que o mundo seja habitado de modo mais humano e mais divino.

A partir de perspectivas metodológicas variadas, incluindo autores como Amos Wilder, Paul Ricoeur etc, Bingemer desenvolve uma teopoética da sede de Deus que articula, com originalidade, a sede humana de transcendência e a própria sede de Deus revelada na cruz. O livro convida o leitor a refletir não apenas sobre sua própria sede espiritual, mas também sobre a sede de um Deus que se comunica na vulnerabilidade. Essa reciprocidade entre o desejo humano e o desejo divino estrutura um caminho espiritual autoreflexivo, no qual ética e estética convergem para um compromisso radical com a vida, dom do “ardente amante da vida”, como diz o livro da Sabedoria.

A obra em questão configura-se como uma obra de grande relevância para a teologia atual. Ao articular com maestria sensibilidade poética, rigor teológico e atenção às urgências do presente, Maria Clara Bingemer oferece ao leitor uma reflexão que ultrapassa os limites disciplinares, convocando-o a atravessar com lucidez e esperança os desertos do nosso tempo. Trata-se de uma obra que, ao mesmo tempo, denuncia a desertificação interior e exterior que nos ameaça e anuncia as fontes de sentido capazes de regenerar a vida. É um convite a unir ética e estética, espiritualidade e justiça, contemplação e ação, um convite que a autora formula com a autoridade de quem compreende que, se a teopoética se cala, cala-se também a vida.

A publicação destina-se a um público intelectualmente engajado com a reflexão teológica e com os desafios contemporâneos. Dirige-se, de modo especial, a estudantes e pesquisadores das áreas de Teologia Sistemática, Espiritualidade, Teologia Fundamental e Teologia e Literatura, oferecendo material relevante para debates acadêmicos e investigações interdisciplinares. Interpela igualmente agentes de pastoral e lideranças eclesiais, ao fornecer fundamentos teológicos e narrativos para compreender a crise ecológica e antropológica à luz da ecologia integral proposta pela Laudato Si’. Ultrapassando os limites acadêmicos e eclesiais, o livro alcança leitores interessados na interface entre espiritualidade, arte e ética, bem como estudiosos das questões socioambientais, articulando justiça social, justiça ecológica e experiência espiritual.

Trata-se, assim, de uma obra voltada a todos que buscam um pensamento teológico capaz de integrar teologia, ética e compromisso com a vida em um contexto marcado por múltiplos desertos interiores e exteriores.

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