28 Fevereiro 2026
"Para Ratzinger, então com 34 anos em 1961, esse trabalho de aprofundamento do significado da Eucaristia teve consequências litúrgicas e sacramentais inevitáveis, que exigiram uma clara renovação das categorias teológicas e da prática eclesial. Sessenta e cinco anos depois, essas ideias juvenis do teólogo bávaro encontram novo ímpeto e motivação", escreve Andrea Grillo, teólogo italiano, em artigo publicado por Come se non, 27-02-2026.
Eis o artigo.
Não fosse a atenção gentil de um colega historiador, talvez eu nunca tivesse me deparado com os dois textos que Joseph Ratzinger escreveu em 1961, um ano antes do início do Concílio Vaticano II, e que constam das Obras Completas do teólogo. Eles não estão, contudo, onde se esperaria encontrá-los, mas sim "dispersos" em um canto de difícil acesso. Gostaria de discutir brevemente a questão de sua localização sistemática, seu conteúdo e sua importância hoje para um renovado impulso à teologia eucarística.
A colocação na Opera Omnia
Como eu disse, é profundamente intrigante o fato de dois textos, nos quais o jovem teólogo expressa claramente seus pensamentos sobre teologia eucarística, sobre a arquitetura do espaço sagrado e sobre liturgia, não terem sido colocados nos volumes dedicados à "dogmática" ou à "liturgia". Em vez disso, encontram-se no volume que reúne seus escritos sobre o Concílio Vaticano II (Opera Omnia, Volume VII/1). Não há, em si, nenhuma razão para justificar essa colocação: é óbvio que tudo o que Ratzinger escreveu "antes" do Vaticano II pode ser entendido como "preparação" para ele. Mas não está claro por que esses dois textos (apenas esses dois textos) foram colocados nessa posição, que os afasta dos dois contextos em que são mais apropriadamente lidos: ou seja, como as palavras que iniciaram a reflexão eucarística e litúrgica de Ratzinger. Curiosamente, o volume sobre a “teologia da liturgia” contém textos que começam apenas em 2001. Os 40 anos anteriores de reflexão pareceram, ao editor, completamente irrelevantes.
Os dois textos
Os títulos dos dois textos não deixam dúvidas quanto à sua necessária posição no início da reflexão sistemática e litúrgica do teólogo bávaro. O primeiro intitula-se "Ideias Fundamentais da Renovação Eucarística do Século XX" (Opera Omnia, VII/1, 21-32), enquanto o segundo é uma reflexão sobre o Congresso Eucarístico Internacional, realizado em Munique em 1961: "O Congresso Eucarístico Internacional à Luz da Crítica" (Opera Omnia, VII/1, 33-55). O segundo texto reflete o clima em que o Congresso foi realizado e comentado, tanto publicamente quanto eclesiasticamente. O primeiro texto, contudo, constitui uma reflexão abrangente sobre a teologia eucarística e a teologia dos sacramentos que merece uma análise cuidadosa, sendo um dos primeiros textos em que o jovem teólogo expressa claramente sua sensibilidade litúrgica e sacramental.
A nova “ideia teológica” da Eucaristia
A primeira coisa que chama a atenção do leitor é a determinação com que Ratzinger apresenta a nova sensibilidade teológica e eclesial, partindo do exame de uma "nova igreja".
“Quando hoje se começa a projetar uma igreja, em certo sentido pensa-se nela em torno de um centro diferente, partindo de um ponto de vista diferente daquele da época de nossos pais e avós” (21).
Nesse sentido, Ratzinger pode escrever que
“a forma renovada dos nossos edifícios sagrados reflete aquela grande renovação espiritual na compreensão da Eucaristia que começou com Pio X e que representa uma das grandes esperanças para este nosso século, que por vezes é tão sombrio” (22).
Em que consiste, então, a renovação na compreensão da "natureza" da Eucaristia? A análise começa com uma observação histórica:
“Nos últimos três/quatro séculos, de forma bastante unilateral, enfatizou-se o facto de o próprio Deus estar presente na hóstia consagrada. […] No entanto, este não é o aspecto decisivo deste sacramento.” (22)
O desenvolvimento de ostensórios e tabernáculos atesta, somente a partir do final da Idade Média, a leitura adoradora do sacramento, enquanto a recepção da comunhão se tornou um evento cada vez mais raro. Com base nisso, Ratzinger afirma que
“o todo não correspondia inteiramente ao significado original deste sacramento” (23).
Para corrigir essa perspectiva, propõe-se um argumento "muito simples":
“Se o Senhor associa a sua presença à figura do pão, o significado de tal procedimento é absolutamente claro: mesmo este pão santo não é feito em primeiro lugar para ser contemplado, mas para ser comido. Isto significa que ele permaneceu não para ser adorado, mas sobretudo para ser acolhido. Mais do que os tabernáculos de pedra, interessa-lhe os tabernáculos vivos.” (23)
Essa leitura muito clara culmina na seguinte afirmação:
“A Eucaristia culmina na Comunhão, ela quer ser recebida.” (24)
A partir daqui, com a clara inspiração da teologia dos Padres (em particular Agostinho), Ratzinger desenvolve a reflexão teológica sobre a comunhão tanto como uma relação entre Cristo e a Igreja, quanto como uma relação de unidade e comunhão entre os membros da Igreja. A Igreja tornando-se o “corpo de Cristo” é “o significado autêntico da Sagrada Comunhão” (25), que por isso pode ser chamada de “sacramento da fraternidade cristã” (25). Nesta passagem, dedicada à fraternidade, o jovem Ratzinger insere um duplo desenvolvimento: no primeiro, valoriza a dimensão “horizontal” da Eucaristia, que integra a vertical. No segundo, avalia, à luz dessa fraternidade, uma grave degeneração histórica:
“Em última análise, o nacionalismo dos povos católicos é algo de que se deve ter profunda vergonha, o que demonstra até que ponto o autêntico sentido de Comunhão foi esquecido” (25).
Como a celebração e a devoção mudam
Esta visão teológica e eclesial do sacramento implica uma série de "aplicações" à devoção eucarística que o jovem teólogo apresenta com grande veemência. Estas dizem respeito tanto à forma de celebrar a Missa quanto à forma de receber a Comunhão. Obviamente, aqui Ratzinger, falando em 1961, se encontra diante de qualquer reforma inicial do Ordo Missae. Isso torna seu discurso na época ainda mais relevante. Examinemos seus aspectos mais significativos:
a) a natureza comunitária da celebração
“Portanto, a Missa não pode razoavelmente tornar-se um ato privado do sacerdote, que outros tentam seguir mais ou menos com a ajuda dos seus folhetos, quando talvez nesse período de tempo não escolham simplesmente rezar à sua maneira. A Missa, pelo contrário, mesmo na forma como é celebrada, deve ser uma celebração comunitária.” (26)
b) a natureza eclesial da comunhão
“A comunhão sacramental não pode ser considerada simplesmente como uma oração privada onde o indivíduo encontra o seu Deus… a comunhão sacramental é mais: é o selo da pertença mútua como cristãos… por esta razão é uma parte essencial da Santa Missa na qual celebramos a nossa união como irmãos através do nosso irmão Jesus Cristo” (28)
“No decorrer da renovação eucarística das últimas décadas, a Comunhão foi reintroduzida na Missa, da qual havia sido abusivamente removida desde o final da Idade Média. Muitas vezes, chegou-se ao ponto de distribuir a Comunhão apenas fora da Missa. Desta forma, a Comunhão foi rebaixada a um ato de edificação privada, obscurecendo seu grande significado, isto é, sua participação naquele evento total que é a Santa Missa: o selo da fraternidade entre Deus e os homens e, portanto, partindo de Deus, dos homens entre si; a inclusão de todos os homens no evento da Cruz, de modo que o mundo inteiro seja entregue a Deus e, assim, reconduzido ao seu significado autêntico; o chamado de cada indivíduo para ser um tabernáculo vivo de Deus no mundo” (28)
c) a frequência da comunhão
A reconstrução oferecida, em nível teológico e eclesial, chega finalmente a uma consideração sobre a "frequência", que revela o tempo em que o texto foi escrito. Começa com a intuição de Pio X, de quem se repete que "A comunhão não é uma recompensa para os particularmente virtuosos... mas o pão do peregrino" (29); delineia-se, portanto, uma relação contínua com a comunhão sacramental:
“Do fato de a Igreja ser uma comunidade eucarística… de ser cristão consistir simplesmente na participação no Corpo do Senhor (circunstância da qual deriva tudo o mais), resulta também deste fato a norma para a frequência da Comunhão: para a pessoa que trabalha – e que, por conseguinte, dificilmente pode receber a Comunhão diariamente – a Comunhão dominical deverá ser a norma, enquanto a Confissão, consoante a disposição, poderá ser suficiente para a praticar mensalmente ou trimestralmente” (29)
Essa reconstrução, típica da década de 1960, revela, no entanto, uma referência corajosa a uma reconstrução diferente da relação do cristão com o pecado mortal:
“Creio que aqui deveríamos mostrar mais coragem e mais fé. Todo o nosso cristianismo poderia mudar um pouco de face se fosse mais uma vez evidente que ser cristão e ser um 'comungante' é a mesma coisa e idêntica” (30)
Uma extensão do olhar aos sacramentos em geral.
Antes de concluir seu texto, Ratzinger estende seu raciocínio a toda a estrutura da experiência sacramental. Aqui encontramos, antecipando, os temas que, anos mais tarde, caracterizariam uma das primeiras publicações dedicadas aos sacramentos (A Fundamentação Simbólica da Experiência Sacramental), aqui, porém, mais intimamente ligados ao tema da "fraternidade", que foi uma das primeiras reflexões do teólogo. Isso permite a Ratzinger encerrar com uma citação da Didaquê, à qual acrescenta sua afirmação final:
“Este é precisamente o significado mais profundo da Eucaristia: que a humanidade dispersa e dilacerada seja reunida na unidade do único Senhor Jesus Cristo, que é o único que é a sua verdadeira vida” (32)
Para Ratzinger, então com 34 anos em 1961, esse trabalho de aprofundamento do significado da Eucaristia teve consequências litúrgicas e sacramentais inevitáveis, que exigiram uma clara renovação das categorias teológicas e da prática eclesial. Sessenta e cinco anos depois, essas ideias juvenis do teólogo bávaro encontram novo ímpeto e motivação.
Leia mais
- Novas meditações sobre Teologia Eucarística (5). Sino, incenso ou Rito da Comunhão? Uma resposta a uma carta sobre o som do gongo. Artigo de Andrea Grillo
- Novas meditações sobre Teologia Eucarística (1): mal-entendidos sobre a substância em 12 teses. Artigo de Andrea Grillo
- Novas meditações sobre Teologia Eucarística (2): substância e mistério. Artigo de Andrea Grillo
- Novas Meditações sobre Teologia Eucarística (3). O Tabernáculo entre Símbolo e Função. Artigo de Andrea Grillo
- Eucaristia e corpos em exposição? Internet, canonização e prudência pastoral. Artigo de Andrea Grillo
- Santidade, teologia eucarística e ecumenismo. Artigo de Marinella Perroni
- A Oração Eucarística. Uma teologia eucarística aplicada à celebração
- Nova teologia eucarística: o primado da prática. Artigo de Ghislain Lafont
- Nova teologia eucarística: construção da teologia clássica. Artigo de Ghislain Lafont
- Nova teologia eucarística: ''Hoc facite'': síntese do autor. Artigo de Zeno Carra (última parte)
- Nova teologia eucarística: ''Hoc facite'': síntese do autor. Artigo de Zeno Carra (parte 2)
- Nova teologia eucarística: ''Hoc facite'', linhas sistemáticas do novo modelo. Artigo de Andrea Grillo (última parte)
- Nova teologia eucarística: Eucaristia, essencialmente louvor. Artigo de Ghislain Lafont (última parte)
- Nova teologia eucarística: o primado do sacrifício eucarístico. Artigo de Ghislain Lafont (parte 4)
- Nova teologia eucarística: ''Hoc facite'', rumo a um novo modelo de presença eucarística no século XX. Artigo de Andrea Grillo (parte 3)
- Nova teologia eucarística: Eucaristia, uma questão de ''forma''. Artigo de Loris Della Pietra (parte 2)
- Nova teologia eucarística: Eucaristia, uma questão de ''forma''. Artigo de Loris Della Pietra (parte 1)
- Jejum e comunhão impossível: algumas surpresas da tradição. Artigo de Andrea Grillo
- Nova teologia eucarística: corpo, refeição e eros. Artigo de Manuel Belli