As chuvas torrenciais que atingiram o Brasil poderão ser até 7% mais intensas se nenhuma medida for tomada contra as mudanças climáticas

Foto: Isis Medeiros/Greenpeace

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13 Março 2026

As fortes chuvas em Minas Gerais deixaram mais de 70 mortos e 10 mil pessoas desabrigadas. Um estudo alerta para o papel do aquecimento global nesses eventos.

A reportagem é de Maria Mónica Monsalve S, publicada por El País, 12-03-2026.

Fevereiro foi um mês particularmente drástico para o sudeste do Brasil. Chuvas intensas, que se intensificaram nos últimos dias, provocaram deslizamentos de terra em Minas Gerais, matando 72 pessoas e desalojando cerca de 10 mil moradores. A cidade mais atingida, Juiz de Fora, registrou o fevereiro mais chuvoso de sua história, com três vezes a média de precipitação para o período. Comparado ao recorde anterior, estabelecido em 1998, o volume de chuvas aumentou 65%.

“Foi uma combinação de vários fatores que causou chuvas excepcionalmente intensas”, disse Regina Rodrigues, professora da Universidade Federal de Santa Catarina, no Brasil, durante uma coletiva de imprensa. Um sistema frontal que passou pela costa sudeste do país — caracterizado pela interação de duas massas de ar que geram chuva — foi agravado pelo solo já saturado por chuvas anteriores. Rodrigues faz parte de um estudo liderado pela World Weather Attribution (WWA), um grupo de cientistas que realiza estudos rápidos após eventos climáticos extremos para entender o papel das mudanças climáticas depois que eles ocorrem.

No caso das chuvas torrenciais em torno de Juiz de Fora, explicam que, embora não tenham encontrado uma tendência que indique que as alterações climáticas tenham aumentado a sua intensidade, estas serão 7% maiores com o avanço do aquecimento global. Ou seja, se a temperatura média do planeta atingir 2,6°C até o fim do século, como se prevê que aconteça se não forem tomadas medidas mais drásticas, os precipitações tornar-se-ão ainda mais intensos.

No entanto, Ben Clarke, pesquisador do Imperial College London, esclarece que, neste momento, as mudanças climáticas já desempenham um papel em todos os eventos climáticos extremos, em maior ou menor grau. "Com um aumento de 1,3°C [que é o aumento atual da temperatura], pode haver alguma influência, mas não a observamos nos modelos. Isso é algo que acontece com 2,6°C."

Além das temperaturas excepcionalmente altas, o relatório da WWA destaca outros fatores que tornaram essas chuvas tão mortais e devastadoras. Juiz de Fora está entre as 10 cidades brasileiras com a maior proporção de pessoas vivendo em áreas de alto risco, segundo o Centro Nacional de Monitoramento e Alerta Precoce de Desastres Naturais (Cemaden). Ao longo da bacia do rio Paraíba do Sol, que também inclui outras cidades afetadas por deslizamentos de terra, como Ubá e Matias Barbosa, o crescimento urbano obrigou as pessoas a se instalarem em encostas e planícies aluviais, substituindo a vegetação natural por asfalto.

“Apenas 3% dos moradores de Juiz de Fora vivem em áreas oficialmente classificadas como favelas”, lembra Friederike Otto, professora e fundadora da WWA. “Mas quando o deslizamento de terra ocorreu, o impacto foi muito maior para as pessoas que vivem em comunidades de baixa renda nas encostas, que tiveram que ser completamente evacuadas.”

Juiz de Fora, apesar de possuir sistemas de alerta precoce, também proporcionou uma lição sobre tudo o que é necessário para reduzir a vulnerabilidade a eventos climáticos extremos. Muitos moradores não receberam os alertas, outros se recusaram a evacuar por medo de saques e outros ainda porque não sabiam para onde ir. "Isso evidencia que os alertas por si só são insuficientes e devem ser acompanhados de planos de evacuação e educação sobre riscos", conclui Otto.

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