13 Março 2026
"Há uma pichação num muro, em inglês, que está circulando nas redes sociais: "The world burns while we scroll” (O mundo queima enquanto rolamos a tela do nosso celular). A selfie perfeita do que somos ou do que nos tornamos. O silêncio da inconsciência", escreve Carlo Verdelli, jornalista italiano, em artigo publicado por Corriere della Sera, 10-03-2026. A tradução é de Luisa Rabolini.
Eis o artigo.
O que contaremos sobre este início de 2026, com a Ucrânia em seu quarto ano de resistência exausta à invasão de Putin, com o plano de reconstruir com resorts a Faixa de Gaza por uma falsa trégua pós 7 de outubro de Israel, com o Irã que se tornou o estopim aceso para um conflito de proporções gigantescas?
Contaremos que olhamos, mas não vimos. Soubemos, mas não entendemos. Assistimos, espectadores indiferentes, como se as sequências de horror diário não fossem o que são: o fim de um mundo, aquele que habitamos desde 1946, e o caos que precede o início de outro, governado por regras e lógicas diferentes e opostas às que havíamos estabelecido. Um mundo onde a força e a arbitrariedade, os negócios e o capricho, determinam ações e projetos, sejam eles a prisão de Maduro na Venezuela, a anexação do Canadá e da Groenlândia aos Estados Unidos ou o anunciado avanço chinês sobre Taiwan. Sistemas internacionais de contenção? Zerados. Europa? Esmigalhada. Povos criados no Ocidente democrático? Áfonos, sem voz, narcotizados, moralmente ausentes.
Há algo mais assombroso do que as ameaças de quem manda bombardear o inimigo, dos gritos dos moribundos, do choro de quem sobrevive, das crianças que ficaram órfãs de tudo. Talvez o mais assombroso seja o nosso silêncio, mais fruto de desinteresse do que de neutralidade ou de constrangimento diante de acontecimentos complexos. A verdade é que não demorou muito para nos acostumarmos aos massacres de civis como nós, que constituem 90% das vítimas dos conflitos contemporâneos, ao advento impessoal e devastador dos drones, às proclamações de destruição e à demolição progressiva e descarada de todo mínimo princípio de direito e de civilização.
Assistimos mudos e distraídos ao novo incêndio que se iniciou no Irã, ligado por uma linha de fogo à carnificina de Gaza e que já se espalhou aos países do Golfo, chegando às primeiras incursões em Chipre e na Turquia. Os lampejos das chamas e a fumaça não estão assim tão distantes. Poderiam chegar até aqui, mergulhando-nos num cenário até pouco tempo atrás inimaginável. Os Países não diretamente envolvidos estão se rearmando, incluindo a Alemanha (que causa um certo efeito), oferecem bases para as incursões aéreas daqueles que foram antigos aliados, enviam navios de guerra, cada um por seus próprios motivos. Não há um líder, uma voz com poder necessário para denunciar e condenar o plano flagrantemente em curso, e para despertar aqueles que adormeceram por acharem que protestar, no fim das contas, é inútil. Organizam-se reuniões de alto nível e zero impacto. Pragueja-se de forma escondida - os governantes, é claro - porque este tempo de mísseis e destruição aumentará o custo de tudo, desde o carrinho das compras às contas de serviços, sem falar do petróleo, que está prestes a disparar para 150 dólares o barril (atualmente está em torno de 100).
Danos colaterais, irrelevantes para quem como Donald Trump, havia prometido que com ele todos os conflitos teriam acabado, mas que, ao contrário, arrastou os Estados Unidos no bombardeio de outros sete países, até o momento. Agora ele diz, após um telefonema com Putin, que o ataque a Teerã está prestes a terminar. Devemos confiar? Impulsionado por líderes supremos como ele, que desprezam qualquer forma de controle, o mundo começou a correr rumo a um destino desconhecido, mas é como se isso não nos dissesse respeito. Quanto mais ganha forma e se perfila o fantasma daquela Terceira Guerra Mundial em pedaços, profetizada pelo Papa Francisco já em 2014, mais aumenta o desinteresse pelo pesadelo que se desenrola. Dada a impossibilidade de se obter sequer alguns fragmentos, a palavra "paz", por uma questão de decência, desapareceu de todas as mesas de negociação, mas também de todas as ruas, de todos os envolvimentos pessoais.
Vivemos como figurantes no aqui e agora, num presente desprovido de paixões, com um passado distante completamente apagado, e o bombardeio sobre uma escola primária de Minab, 160 meninas iranianas mortas há poucos dias, já arquivado como passado absoluto. Tantas tragédias ocorrem neste período que cada uma é rapidamente esquecida. Absolutamente verdade, tantas tragédias e em tantos lugares dos quais tão pouco se fala e ainda menos se liga: Líbano, Iêmen, Sudão, Sahel, Congo, Somália, Etiópia, Mianmar, Afeganistão, Paquistão. Milhões de deslocados, milhões de vítimas. Mas, de tanto desviar o olhar, adquirido o hábito de não se importar, de se concentrar no próprio quintal, corremos o risco de que algo venha estragar esse quintal, e desta vez não serão hordas incômodas de migrantes.
Do Vaticano, o Papa Leão tenta sacudir os arautos da fúria ("Estou consternado, que as armas se calem"), bem como seu bilhão e meio de fiéis. Mas, com todo o respeito pela sacralidade da figura, e certamente não por sua culpa, a mensagem chega fraca, como a semente da parábola que caiu em solo pedregoso ou entre os espinhos. Não cresce, não dá frutos, não muda o árido sentimento geral. Os mais envolvidos, por assim dizer, ousam declarações como: não em meu nome, mas não me diz respeito. Há uma pichação num muro, em inglês, que está circulando nas redes sociais: "The world burns while we scroll” (O mundo queima enquanto rolamos a tela do nosso celular). A selfie perfeita do que somos ou do que nos tornamos. O silêncio da inconsciência.
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