12 Março 2026
"Isso não pode ser abolido. Ouvir os profetas é cumprir o que a Palavra de Deus pede de nós. E com Jesus, haveremos de afirmar sempre: 'Não vim abolir a Lei e os Profetas!' (Mt 5,17)", escreve Frei Jacir de Freitas Faria.
Frei Jacir de Freitas Faria é doutor em Teologia Bíblica pela FAJE (BH), mestre em Ciências Bíblicas (Exegese) pelo Pontifício Instituto Bíblico de Roma, professor de Exegese Bíblica, presidente da Associação Brasileira de Pesquisa Bíblica (ABIB), sacerdote franciscano. Escreveu treze livros e é coautor de quinze. Publicou Bíblia Apócrifa: Segundo Testamento (Vozes, 2025). São 784 páginas com a tradução de 67 apócrifos do Novo Testamento sobre a infância de Jesus, Maria, José, Pilatos e outros.
Eis o artigo.
O texto sobre o qual vamos refletir hoje é Mt 5,17-19. Trata-se da afirmativa de Jesus de que Ele não veio abolir a Lei e os Profetas. Para entender essa afirmativa é importante compreender que Jesus estava se referindo ao Primeiro (Antigo) Testamento. De que modo Jesus não aboliu a Lei e os Profetas? Como a Igreja voltou ao tempo do Primeiro Testamento em relação à Eucaristia?
No tempo de Jesus, até surgir João Batista, havia um consenso de que Deus já não falava mais com o seu povo escolhido desde o tempo do último profeta, Malaquias, que atuou por volta do ano 425 a.E.C. O livro do profeta Malaquias termina recordando a importância de seguir a Lei dada por Deus a Moisés, bem como prometendo que Deus enviaria seu profeta Elias, arrebatado aos céus, conforme 2Rs 2,11-13, antes que chegasse o “Dia do Senhor”, dia terrível. Elias faria voltar o coração dos pais para os filhos e dos filhos para os pais, de modo que o Senhor não mais feriria a terra com o anátema, uma maldição divina.
Com essas palavras proféticas de Malaquias, a voz de Deus silenciou por 400 anos. Era o tempo do império Persa, o atual Irã, assim chamado a partir somente de 1935, quando o país se modernizou. O império persa, com Ciro, o Grande, fundador do Império Aquemênida, em 559 a.E.C., conquistou o Império Neobabilônico em outubro de 539 a.E.C. O povo judeu recebeu a permissão para voltar para a Judeia. Muitos chegaram a pensar que ele era o Messias enviado por Deus, sonhado desde os tempos do rei Davi (1010 a 970 a.E.C.).
No início do Segundo Testamento, quando João Batista, figura de destaque nos quatro evangelhos, foi para o deserto, lugar da presença do povo de Deus no passado longínquo de escravidão no Egito, foi anunciar do outro lado do rio Jordão ( recordando o mar Vermelho) que o Messias, do qual ele nem seria digno de desamarrar as correias de suas sandálias, isto é, não teria posse sobre ele (Mc 3, 1-17; Mt 1,1-8; Lc 3,1-18; Jo 1,19-33), que Jesus estaria para iniciar o seu ministério de salvação messiânica. João Batista não se intitulava profeta, mas aquele que veio preparar os caminhos do Messias, o Salvador esperado em silêncio por tantos séculos.
João Batista realizava o batismo de corpos no rio Jordão. Seu batismo era o de conversão, mas o de Jesus, no Espírito de Deus, o que significava dizer que a misericórdia de Deus agiria nas ações salvíficas do Messias. Foi por esse motivo, que a atuação de Jesus esteve voltada para o cuidado de corpos sofridos e expulsos do Templo pela da Lei judaica, que os classificavam como malditos de Deus. A doença era vista como maldição. A espiritualidade de Jesus era a do encontro de corpos para neles exercer a misericórdia.
E é nesse sentido que Jesus não veio abolir a Lei, mas dar-lhe cumprimento, oferecer misericórdia e não sacrifícios, com já diziam os profetas (Os 6,6). Ele cumpre a palavra dos profetas. Jesus levou ao extremo o fato de que a Lei se cumpre com misericórdia, no acolhimento do marginalizado, na sua inclusão, sem a rigidez da Lei que ignora a dor do próximo.
No evangelho de Mateus, esse modo de conceber o cumprimento da Lei e dos Profetas ficou evidente, pois ele foi escrito com o objetivo de fortalecer a fé das comunidades cristãs formadas por judeus cristãos nascidos na Palestina e fora dela, demonstrando que Jesus é a realização do Primeiro Testamento com as suas leis, muitas delas marcadas por tradições ultrapassadas e longe do projeto de Deus. Jesus atualiza algumas e contrapõe outras. O evangelho de Mateus é o que mais cita as leis do livro do Deuteronômio. Para demonstrar como deve pautar a vida de um judeu cristão em relação a Deus, família e vida em sociedade, o evangelho de Mateus é o que mais cita as leis do livro do Deuteronômio. São 25 citações tiradas dos capítulos 4, 5, 6, 7, 8, 12, 13, 15, 17, 18, 19, 23, 24, 30, 32, 33, 34.
No final da vida de Jesus, com a sua morte na cruz, todos os sacrifícios que a Lei pedia terminaram. Todos eles foram cumpridos, possibilitando o acesso direto a Deus, por meio de Jesus. Por outro lado, a Igreja Católica, ao longo de sua existência retomou o Primeiro Testamento no que se refere à legitimação da ação de seus sacerdotes na oferta de sacrifícios como ato de devoção para cumprir a Lei. A Eucaristia, celebrada nos primórdios do cristianismo como memorial da paixão morte e ressurreição de Cristo, passou a ser um sacrifício para Deus. Uma devoção ritual que incorpora festas de santos, sétimo dia, almas do purgatório, formatura, aniversários etc. Pense nisso!
Por fim, viver a Lei é fazer caminho, ter uma conduta pautada na justiça e na misericórdia divinas. Isso não pode ser abolido. Ouvir os profetas é cumprir o que a Palavra de Deus pede de nós. E com Jesus, haveremos de afirmar sempre: “Não vim abolir a Lei e os Profetas!” (Mt 5,17). E ainda mais: “Antes que o céu e a terra deixem de existir, nem uma só letra ou vírgula serão tiradas da Lei, sem que tudo se cumpra.” (Mt 5,17b-18). Pratique essas palavras e serás grande no Reino dos Céus! (Mt 5,19). Amém!
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