25 Março 2026
O presente artigo tem como escopo central discutir o paradoxo de um mundo cada vez mais hiperconectado, mas com mais muros. Em uma etapa de globalização avançada, observam-se profundas mudanças em relação à globalização clássica. Esses fenômenos se transformam em novos problemas públicos globais, os quais se aproximam cada vez mais dos problemas públicos domésticos nas diversas agendas públicas que compõem o sistema internacional de países.
O artigo é de Gastón Passi Livacic, acadêmico da Universidade SEK Chile, enviado ao Instituto Humanitas Unisinos – IHU.
Eis o artigo.
A globalização avançada se afasta da globalização clássica, entre outros fatores, pela revolução da mobilidade defendida por Moisés Naím em seu livro O Fim do Poder (2013). De acordo com o livro citado, o mundo está diante de profundas mudanças promovidas por três grandes revoluções: a revolução do mais, a revolução da mentalidade e a revolução da mobilidade. Em conjunto, essas revoluções sinalizam a fragmentação do poder tradicional, assim como o surgimento de novas realidades.
Nesse novo mundo em construção, é possível observar como as estruturas de poder e organização tradicionais são transformadas pela extraordinária facilidade com que pessoas, capitais, tecnologias, ideias e serviços se deslocam pelo mundo em uma velocidade inédita. Tais elementos tensionam as fronteiras tradicionais estabelecidas pelos Estados nacionais, reduzindo significativamente a capacidade dos governos e das empresas de controlarem seus respectivos ambientes.
É nesse espaço que emergem novos problemas públicos globais que tensionam as estruturas de poder tradicionais, sendo as novas migrações internacionais uma das transformações mais marcantes na atualidade mundial.
Num mundo cada vez mais conectado, a mobilidade humana intensificou-se profundamente. Nesse novo cenário em formação, promove-se um intenso debate sobre como gerir a nova realidade migratória internacional.
A classe política internacional debate entre políticas de contenção dos atuais fluxos migratórios versus políticas de integração e adaptação ao fenômeno. Esses debates possuem dois grandes cenários de atuação: um institucional e outro social. No plano político representativo, a discussão se estabelece tanto nas agendas políticas dos Estados nacionais quanto em palcos de deliberação internacional de alcance global.
Por outro lado, tanto de forma dirigida quanto nos imaginários coletivos, os atuais fluxos migratórios internacionais são vistos majoritariamente como um risco às noções de soberania e de identidades nacionais. Estas últimas, entendidas como o conjunto de traços compartilhados que definem as sociedades de cada país em relação a outras formas de organização cultural e social.
Nesse cenário, uma das respostas mais visíveis na comunidade internacional surge do que se denomina como uma defesa das identidades nacionais predominantes.
Sendo assim, cabe perguntar: o que significa o apelo às identidades nacionais em contextos de globalização avançada? As respostas podem ser variadas. No entanto, as maiores expressões do fenômeno constituem-se a partir da incerteza gerada por mudanças explosivas e crescentes, como as observadas na composição das novas migrações internacionais.
Nesse novo espaço de interação, em um mundo em transformação, percepções como resistência, refúgio e pertencimento se englobam como instrumentos políticos para enfrentar as novas realidades internacionais em formação.
Assim, a defesa das identidades nacionais se transforma numa das principais respostas atuais. Entre as características comuns refletidas nos países mais afetados pelo fenômeno, é possível constatar elementos definidores como: a ativação de muros fronteiriços, o aumento da xenofobia e práticas de assimilação, bem como a ativação de fronteiras simbólicas.
Em conjunto, tais respostas pretendem ressignificar consensos internos nas sociedades receptoras, cujos elementos centrais buscam ser uma resposta política às mudanças que se manifestam no cenário internacional.
A constante pressão às fronteiras físicas possibilitou a ativação de barreiras simbólicas. São limites invisíveis, porém profundamente enraizados nos Estados nacionais que interagem no cenário global, abrindo assim um ciclo de resistência identitária às mudanças em curso.
Agora bem, a pergunta central do fenômeno apresentado é: a composição das barreiras simbólicas freará os novos fluxos migratórios internacionais?
No plano doméstico, o apelo às identidades nacionais, em suas múltiplas expressões, funciona como estratégia de redefinição de consensos internos diante de mudanças exógenas que tensionam instâncias de socialização estabelecidas. Assim, em sociedades receptoras de grandes fluxos migratórios, a mobilidade humana se transforma numa distinção entre um nós e um eles.
No plano internacional, esse “eles” — os novos fluxos migratórios internacionais — se transforma numa das faces mais visíveis da atual etapa do desenvolvimento mundial.
À maior convergência econômica soma-se a maior socialização entre diferentes culturas nacionais, facilitada pelos avanços nos transportes e novas rotas de conexão. Esse maior contato também decorre dos riscos associados a tais avanços (expansão do crime organizado, avanço da corrupção transnacional, mudança climática, desigualdades de desenvolvimento, entre outros). Ademais, a degradação das democracias e o aumento de conflitos bélicos internacionais também contribuem para sua maior expressão.
No livro A Era dos Muros (2018), Tim Marshall adverte que a utilidade dos muros contemporâneos, entendidos como variadas formas de contenção e proteção das fronteiras tradicionais, é reduzida, visto que essas estratégias não se responsabilizam pelos elementos estruturais que promovem a mobilidade humana.
Assim como as estratégias que reforçam as fronteiras tradicionais, as estratégias simbólicas não dialogam com os elementos estruturais que promovem os atuais fluxos migratórios. Ao ignorar causas estruturais, ambas as fronteiras — físicas e simbólicas — acabam sendo medidas paliativas. Sua função real é emitir um sinal político e psicológico, reforçando a divisão entre um “nós” (identidade nacional) e um “eles” (migrantes internacionais).
A persistência dos novos fluxos migratórios não diminuiu em um cenário mais diversificado de muros fronteiriços. Pelo contrário, em um mundo com mais muros, as migrações internacionais aumentaram e se diversificaram, consolidando-se como tendência crescente segundo os últimos relatórios da OIM.
No plano político, é possível observar o fomento às identidades nacionais como fórmula de defesa dos valores tradicionais, como refúgio e resistência à mudança; no plano psicológico, oferecendo sensações de segurança ao preço de ignorar as causas mais profundas do fenômeno em observação.
Numa etapa de globalização avançada, os grandes problemas públicos internacionais estarão cada vez mais presentes nas agendas locais dos países que coexistem no sistema internacional. Nesse sentido, o ciclo das identidades nacionais será contrastado por uma convergência crescente entre problemas públicos globais e os problemas públicos domésticos.
Como gerir as novas realidades em formação? O desafio fundamental não é criar muros, mas buscar alternativas de adaptação, cooperação e convergência nos diferentes espaços em que se manifestam as novas problemáticas globais.
No Chile, iniciativas como os Programas Sello Migrante (aliança entre a estrutura central do Estado e os municípios), assim como o Programa Compromiso Migrante (aliança entre a estrutura central do Estado e organizações privadas), abrem uma rota promissora de exploração e articulação entre os novos desafios da globalização avançada e as agendas locais. No Brasil, o Programa Migracidades; na Argentina, o Programa Migraciudades, são também alternativas implementadas na América do Sul.
Em síntese, o sucesso dos Estados em gerir as novas migrações internacionais dependerá da capacidade de transformar a resistência identitária na criação de uma governança na qual diversos atores do sistema se articulem em processos de integração previamente compartilhados, em relação às possibilidades e necessidades geradas pelo fenômeno em questão. Além do aprofundamento da gestão pública migratória em formação, é necessário avançar em espaços de articulação regional e mundial diante de um problema público global crescente, de caráter multidimensional e de alcance planetário.
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