11 Março 2026
Tornar os bairros resilientes ao calor ou às inundações muitas vezes tem efeitos contraditórios que exacerbam a desigualdade. Um projeto de pesquisa busca antecipar esse fenômeno em áreas particularmente vulneráveis.
O artigo é de Raquel Torija, jornalista, publicado por El Salto, 09-03-2026.
Eis o artigo.
Em 2025, a mortalidade relacionada ao calor aumentou 87% e os eventos de calor extremo, 73%, em comparação com 2024, segundo dados do Sistema de Monitoramento Diário da Mortalidade (MoMo) do Centro Nacional de Epidemiologia (CNE). Esse número reflete o impacto do calor na saúde pública do país, bem como a necessidade urgente de medidas. Mas o que acontece quando essas medidas são adotadas sob uma perspectiva puramente ambiental, em vez de social? O que acontece com aqueles que ficam presos e indefesos em meio às ondas de calor?
Em 2022, um estudo liderado por Isabelle Anguelovski, atual diretora do Laboratório de Barcelona para a Justiça Ambiental Urbana e a Sustentabilidade (BCNUEJ), focou-se no fenómeno da gentrificação verde na Europa e na América do Norte, incluindo Espanha. O relatório mostrou como, em muitos casos, a remodelação de espaços urbanos para a renaturalização e o aumento da vegetação — isto é, para tornar esses locais mais habitáveis e respeitosos do ambiente natural — acaba por deslocar a população existente em favor de pessoas com maior poder aquisitivo, resultado da especulação imobiliária.
Hoje, após a confirmação de que os últimos três anos foram os mais quentes já registrados no planeta e com as consequências da tempestade DANA em Valência ainda palpáveis, o fenômeno se configura como o que se conhece como gentrificação climática, ou seja, como a adoção de infraestrutura resiliente aos riscos climáticos, especialmente ondas de calor e inundações, pode acabar deslocando a população mais vulnerável e de menor renda — deslocamento induzido pelo clima —, privando-a da chamada justiça climática urbana e, sobretudo, da justiça térmica.
A equipe por trás do projeto Climate Justice Ready, financiado pelo Conselho Europeu de Investigação, está analisando precisamente as repercussões de tais intervenções. Através de mapeamento e previsão, eles estão tentando antecipar o fenômeno da gentrificação climática em áreas específicas de Boston e Barcelona, desenvolvendo uma ferramenta e um índice — o Índice de Vulnerabilidade Climática — que pode ser aplicado a outras cidades. O objetivo final é evitar que a adaptação climática urbana exacerbe a desigualdade social e garantir que os objetivos ambientais e sociais sejam intrínsecos ao redesenvolvimento e planejamento urbano, bem como aos modelos de construção, a fim de evitar esse tipo de contradição.
“O que fizemos foi tentar prever quais áreas são mais vulneráveis neste contexto de ondas de calor, e o que descobrimos é que as áreas de possível gentrificação são, sobretudo, a periferia urbana. Isso é interessante porque, normalmente, quando se fala em gentrificação, fala-se no centro das cidades, mas vemos que, na realidade, começam a surgir especulações sobre o potencial de um novo movimento demográfico de volta a essas áreas periurbanas devido à baixa densidade habitacional, mais espaços verdes e mais espaços públicos”, explica Amalia Calderón, pesquisadora do BCNUEJ envolvida no projeto.
Calderón destaca que os grupos socialmente vulneráveis são os que menos contribuem para as mudanças climáticas, embora sejam os mais expostos aos seus impactos. Por um lado, dispõem de menos recursos para se adaptar e, por outro, quando novas infraestruturas resilientes ao clima são construídas, são os que menos se beneficiam, chegando mesmo a ser deslocados pelo aumento dos preços, como o dos aluguéis. Segundo a pesquisadora, a desigualdade climática persistirá enquanto as soluções permanecerem em mãos privadas e/ou forem adotadas individualmente, comprometendo o bem comum e as pessoas mais vulneráveis.
Card da Campanha da Fraternidade de 2026: Fraternidade e moradia (Foto: Divulgação).
Leia mais
- Gentrificação climática. Artigo de José Machado Moita Neto
- Gentrificação verde promove desigualdades sociais e climáticas
- Mudança climática terá mais impacto nas populações mais pobres
- Políticas de gestão de risco ainda são insuficientes para limitar impacto de efeitos climáticos extremos
- Desigualdades, segregações e relações de poder: um retrato das cidades brasileiras e o desafio da justiça socioespacial e socioambiental. Entrevista especial com Anderson Kazuo Nakano
- Injustiças socioespaciais e socioambientais nas cidades brasileiras. Artigo de Anderson Kazuo Nakano
- Desigualdades climáticas: os ricos poluem (muito), os pobres pagam o preço (pesadamente)
- A igualdade recomeça a partir do clima. Artigo de Thomas Piketty“
- As desigualdades são escolhas ideológicas”. Entrevista com Thomas Piketty
- Plano mais Brasil não é um projeto de crescimento, mas de aprofundamento da desigualdade econômica e social. Entrevista especial com Guilherme Delgado
- 'País pode ter crescimento, mas com aumento da desigualdade’, diz Belluzzo
- Com o crescimento das desigualdades, americanos deixam de pensar no futuro