10 Março 2026
Com a Afirmação de Abuja (Nigéria, 6 de março), as Igrejas anglicanas dissidentes (da Comunhão Anglicana Global, GAFCON) afirmam a consumação de um cisma que chamam de "refundação".
A informação é de Lorenzo Prezzi, publicada por Settimanna News, 07-03-2026.
"Há mais de duas décadas pedimos, com humildade e oração, o arrependimento daqueles hierarcas da Comunhão Anglicana que renegaram a fé ortodoxa com palavras e ações. Refundar a Comunhão Anglicana é agora necessário porque um número significativo de províncias que se declaram anglicanas abandonaram a autoridade das Escrituras e não conseguiram seguir a Cristo com fidelidade.
Embora as questões relativas à sexualidade humana sejam uma expressão disso, elas são simples sintomas de desvios doutrinários e morais do ensinamento das Escrituras. A liderança dos Instrumentos de Comunhão de Canterbury não conseguiu obter a disciplina, guardar o testemunho bíblico e sustentar os fundamentos da doutrina anglicana expressa nos formulários da Reforma (os Trinta e Nove Artigos, o Livro de Oração Comum de 1662, incluindo o ritual).
Em vez disso, os Instrumentos buscam manter unida uma confusa comunhão de coexistência institucional baseada na ficção de um 'caminhar juntos' com aqueles que se afastam da verdade do Evangelho e do ensinamento de Jesus. O único fundamento da Igreja é Jesus Cristo. A comunhão é uma comunidade de Igrejas que se submetem ao senhorio de Jesus Cristo, cuja vida e ensinamento são revelados nas Escrituras."
A confessio fidei, não o compromisso
"A verdadeira comunhão é confessante e não simplesmente definida por uma história compartilhada ou por estruturas institucionais." Por isso, rejeitam-se os tradicionais instrumentos de comunhão, "a saber: o Arcebispo de Canterbury, a Conferência de Lambeth, o Conselho Consultivo Anglicano e a Assembleia dos Primazes".
Pede-se, portanto, aos participantes da nova Comunhão Anglicana o "desengajamento de princípio dos instrumentos de Canterbury. Os líderes que ocupam cargos na Comunhão Anglicana Global não devem participar das futuras reuniões dos Primazes convocadas pelo Arcebispo de Canterbury, nem da Conferência de Lambeth, nem das reuniões do Conselho Consultivo Anglicano e das comissões do mesmo [...] É necessário um desengajamento completo e público dessas estruturas. O ensinamento claro e coerente do Novo Testamento é que aqueles que buscam trair a Igreja não devem ser tolerados e os cristãos devem recusar estar em comunhão com aqueles que promovem falsos ensinamentos (Rm 16,17; Jo 10,11; Ap 2,20)".
Não será possível participar de ambas as Comunhões Anglicanas. "Estamos refundando a Comunhão a partir de dentro e abandonando os 'instrumentos' de Canterbury. A Comunhão Anglicana Global está ligada à ortodoxia anglicana."
Não se trata, segundo eles, nem de um afastamento e muito menos de um cisma: "Estamos trazendo a Comunhão Anglicana de volta às suas raízes. A Comunhão Anglicana Global não é uma nova Comunhão, mas a histórica Comunhão Anglicana refundada (reformada) por dentro".
Antes dentro, agora fora
Como comunidade confessante, funda-se na Declaração de Jerusalém, aprovada em junho de 2008. "A Declaração de Jerusalém foi redigida como expressão da autêntica doutrina anglicana porque a Comunhão Anglicana liderada por Canterbury havia perdido o vínculo com suas raízes bíblicas, comprometendo seus valores, estruturas e missão." "A participação na Comunhão Anglicana Global ocorre mediante a adesão à Declaração de Jerusalém."
A Comunhão Anglicana Mundial (GAFCON), nascida dentro da comunhão anglicana de Canterbury, constitui-se agora em comunhão autônoma, e o anterior Conselho de Primazes é substituído pelo Conselho Anglicano Global. O presidente do conselho é o arcebispo Laurent Mbanda, primaz anglicano de Ruanda; o vice-presidente é o arcebispo Miguel Uchôa e o secretário-geral é o bispo Paul Donison. Cabe ao conselho acolher na GAFCON as províncias e dioceses que desejarem entrar.
A solene e dramática decisão foi tomada pela assembleia geral convocada em Abuja, na Nigéria, na St. Matthias House, sede da Igreja Anglicana Nigeriana. Participaram, de 3 a 6 de março, 347 bispos e 121 leigos e padres sob o título Escolhei hoje a quem quereis servir... Quanto a mim e à minha casa, serviremos ao Senhor (Js 24,15). Os quatro dias de trabalho foram marcados por celebrações, relatórios, votações das lideranças e pela aprovação da Declaração.
O desfecho da assembleia, que poderá marcar profundamente a história da Igreja Anglicana, é fruto de um caminho que envolveu a maioria das Igrejas Anglicanas da África, atualmente as mais numerosas (Ruanda, Quênia, Uganda, Tanzânia, Sudão, Nigéria, etc.), e a Igreja Anglicana da América do Norte, formada por conservadores que se separaram da Igreja Episcopal dos Estados Unidos e da Igreja Anglicana do Canadá.
O percurso histórico começa em 1998, quando a Conferência de Lambeth se abre ao cuidado pastoral dos homossexuais. Em 2002, a Igreja do Canadá aceita abençoar a união homossexual. Em 2003, é ordenado o primeiro bispo homossexual na América. Em 2008, nasce a GAFCON para dar um lugar aos "anglicanos ortodoxos".
As assembleias sucessivas censuraram fortemente as aberturas das Conferências de Lambeth às mulheres bispas, aos casamentos gays e à eleição para arcebispo de Canterbury de Sarah Mullally (outubro de 2025), que prestou juramento em 28 de janeiro de 2026. Em Kigali (Ruanda), em 2023, falou-se em dar "uma casa" aos anglicanos "ortodoxos" e, em 2025, Mbanda falou claramente de uma ruptura da comunhão com Canterbury.
Dissenso ético ou teológico?
A Igreja Anglicana nasceu no século XVI e está ligada à vontade dos soberanos ingleses de se distanciarem do poder de Roma. Nunca entrou plenamente no âmbito da Reforma Protestante, embora tenha assumido alguns traços teológicos; seus ritos e sacramentos são semelhantes aos católicos. Seus fiéis (85 milhões), espalhados por 164 países, organizam-se em 450 dioceses e 40 Igrejas independentes (nacionais ou supranacionais), chamadas províncias. O Arcebispo de Canterbury goza de um primado de honra (primus inter pares), não de governo, que cabe às igrejas individuais e às diretrizes das Conferências de Lambeth. Os pontos de referência comuns são o Livro de Oração (1562), a confissão de fé dos 39 Artigos (1571) e os quatro referenciais essenciais: a Escritura, os símbolos da fé, o batismo e a Ceia do Senhor.
Os conteúdos do dissenso eclesial são atribuídos ao papel ministerial das mulheres, às orientações sobre a família (homem-mulher) e à condenação moral da homossexualidade e da coabitação. Elementos que são apontados como infidelidade à Escritura e à teologia que sustenta a confissão de fé. A referência vinculativa, como visto, é a Declaração de Jerusalém de 2008.
Naquela ocasião, sublinhavam-se três elementos de crise. O primeiro era a abertura à possibilidade salvífica para todas as religiões e a justificação de comportamentos imorais como a homossexualidade. O segundo era a crescente consciência das Igrejas do Sul de não estarem mais em comunhão com as Igrejas que aceitavam mudanças consideradas contrárias ao Evangelho. O terceiro era o fracasso dos esforços dos "instrumentos de comunhão" para manter unidas as Igrejas Episcopais dos Estados Unidos e do Canadá.
A Declaração de Jerusalém nasce para dar uma forma confessante à "nova" Comunhão e especifica-se em 14 pontos. Neles, destaca-se a salvação pela graça mediante a fé em Jesus, as Sagradas Escrituras como palavra de Deus, a normatividade dos quatro concílios ecumênicos e dos três "credos" herdados da história, a reafirmação dos 39 Artigos, o senhorio único e universal de Jesus Cristo, a tradição sacramental e litúrgica, a sucessão apostólica e a missão universal. À responsabilidade para com a criação somam-se a disponibilidade ao diálogo ecumênico, a liberdade em questões não centrais da fé e a rejeição da autoridade daqueles que renegaram a fé ortodoxa. Último ponto: a espera do retorno de Jesus na parusia.
O testemunho cristão empobrecido
É difícil prever o impacto no restante das comunidades anglicanas. Até porque a Igreja Anglicana está trabalhando em um plano para descentralizar a gestão da Comunhão, onde Canterbury compartilharia a liderança com outros primazes. O bispo Graham Tomlin, que preside esse projeto, afirmou: "A história da Igreja nos ensina que, quando nos separamos radicalmente uns dos outros, é muito difícil remendar. (Nossa hipótese) é uma forma de nos mantermos unidos. Assim se espera".
Após a grave crise iniciada pela divisão entre as Igrejas Ortodoxas, o atual cisma na comunhão anglicana projeta uma sombra muito obscura sobre o testemunho global do cristianismo hoje.
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