10 Março 2026
"Certamente, aqueles que presidem as Igrejas, isto é, mulheres e homens (como demonstrado no capítulo dezesseis da Carta aos Romanos), têm responsabilidade pelos outros", escreve Simona Segoloni, presidente da Coordenação de Teólogas Italianas, em artigo publicado por Settimana News, 07-03-2026.
Eis o artigo.
Muitas coisas (talvez todas) dependem de como as contamos. As narrativas curam o passado, exploram o presente e abrem visões para o futuro. É por isso que todos os povos narram e por isso que existem escrituras sagradas e histórias fundamentais.
Ao narrar o nascimento da República Italiana, por exemplo, o ponto crucial é a vitória sobre a ditadura e a convergência no combate ao fascismo: este é o cerne do Estado italiano e da Constituição que rege a vida e a atuação de cada um de nós. É claro que poderíamos retratar a queda do fascismo como um mal e uma perda a ser superada, mas então os valores de hoje e, sobretudo, a visão para o futuro seriam muito diferentes. A narrativa desempenha um papel fundamental.
Muitas vezes contamos histórias para encontrar significado, outras vezes para justificar o presente, outras ainda para alertar sobre o futuro iminente ou para imaginar um novo mundo.
É claro que, ao lidar com a narrativa histórica, devemos ser o mais honestos possível, declarando fontes, perspectivas e vozes ausentes. Caso contrário, corremos o risco de apresentar uma narrativa dentre muitas como a única verdadeira, ou até mesmo construir narrativas ad hoc que sirvam ao sistema vigente ou à tese que desejamos apoiar.
Poderes e carismas na Igreja. Depende de como contamos a história
Na Igreja, não estamos imunes a esses riscos. De fato, como precisamos dar um significado espiritual e teológico a tudo o que vivenciamos, tendemos a recorrer continuamente às Escrituras — às vezes para sermos convertidos e guiados, outras vezes para verificar nossa correção e outras ainda para justificar o que queremos fazer, independentemente do que o texto realmente diz.
As Escrituras também devem ser lidas utilizando as ferramentas que temos à nossa disposição da melhor forma possível, e então inseridas no contexto da Tradição e no cerne da Revelação. Por exemplo, se encontrarmos um incitamento ao assassinato no texto bíblico, não devemos apenas contextualizá-lo culturalmente, mas também buscar o significado do texto, decidindo de antemão que nenhuma interpretação violenta seria permitida, pois seria contrária a Deus.
Sem falar que hoje sabemos muito mais sobre contextos históricos, sobre a manipulação de textos e também sobre a necessidade de reconhecer o papel de todas as vozes que participaram na construção das tradições e, portanto, dos textos, mas que não são reconhecidas ou nomeadas.
Resumindo, muito depende de como contamos a história, mas devemos contá-la bem e levar em conta alguns critérios que permitam que a narrativa não seja manipuladora.
A autoridade concedida
Quando falamos de autoridade na Igreja, por exemplo, muitas vezes (ultimamente até com autoridade) falamos da possibilidade de conceder poder de governo a leigos e leigas, como se fosse óbvio que eles não o possuem e que, portanto, precisamos pensar em como e por que eles podem participar do poder dos únicos responsáveis, ou seja, os ministros ordenados.
Estes também são então colocados numa ordem precisa e ascendente que se desenvolve primeiro numa base sacramental (diáconos, presbíteros, bispos) e depois numa base jurisdicional (cardeais e o Bispo de Roma). Nem os cardeais nem o papa recebem qualquer outro sacramento, mas são simplesmente nomeados (os primeiros) ou eleitos (o segundo) para certas tarefas às quais estão associados poderes específicos.
Diz-se que tudo isso depende do fato de Jesus querer doze apóstolos ao seu redor que, segundo a concepção de Jesus, seriam os precursores dos bispos, que, portanto, se tornaram um grupo escolhido dentre os demais: os guias com autoridade.
Outros ministros podem colaborar com estes, e todos os demais podem ser guiados. Estes últimos, por receberem o Espírito Santo, também podem ser chamados a assumir posições na Igreja, desde que fique claro que a autoridade vem do alto: Deus, o Papa, bispos, sacerdotes, diáconos, leigos e leigas chamados a participar do governo ou de algum ministério, e leigos e leigas sem cargos.
E desde que fique claro que entre os ministros ordenados (especialmente aqueles ordenados ad sacerdotium e não ad servitium, como o Vaticano II define os diáconos) e todos os outros existe uma diferença substancial que se manifesta precisamente na possibilidade de governação e discurso com autoridade, que são prerrogativa dos primeiros, porque eram prerrogativa dos apóstolos desde o princípio, porque foi assim que Jesus concebeu a Igreja.
A outra história
Poderíamos, no entanto, oferecer uma narrativa diferente. Poderíamos examinar os Evangelhos, percebendo que os Doze tinham um papel simbólico, indicando que o Messias havia chegado e estava reunindo o povo. Além deles, havia discípulos homens e mulheres, e na época da Páscoa, os Doze não puderam resistir: negaram, traíram, fugiram. As mulheres permaneceram e levaram aos que restaram dos Doze e aos demais a mensagem que deu início à história da Igreja.
No Cenáculo, no Pentecostes, estavam todos reunidos: os Onze, os discípulos e as discípulas, a família de Jesus com Maria. O Espírito Santo desce sobre cada um deles, e assim a fé apostólica (como Paulo nos ensina pela forma como usa o termo apóstolo em suas cartas) é aquela que essas primeiras testemunhas transmitem, aqueles que estiveram com ele da Galileia a Jerusalém (isso é mencionado explicitamente em relação às mulheres em Marcos 15:45-47 e também às testemunhas autorizadas em Atos 13:31, usando as mesmas palavras) e que se tornam aqueles autorizados a fornecer a narrativa autorizada que dá origem à Igreja.
A partir desse momento, o grupo dos Doze (reconstituído a partir do nome do grupo de testemunhas apostólicas) assume um papel diferente daquele que tinha antes da Páscoa. Passa a ser o grupo de líderes da comunidade, numa forma que lembra o Êxodo: aproximadamente 120 discípulos para 12 líderes, que, portanto, são chefes de dezenas.
O grupo não perdurará: quando Tiago morrer, embora ainda seja possível substituí-lo como fizeram com Judas, a substituição não ocorrerá. Outras formas de liderança já existem: há o grupo dos Sete que cuida dos crentes de língua grega, surgem os presbíteros/bispos (a distinção entre os dois ministérios ainda não existe), e a Igreja de Jerusalém é liderada, apesar da presença dos Doze e de Pedro, por Tiago, o irmão do Senhor.
Segundo essa narrativa, que segue de perto a bíblica, a Igreja parece não acreditar ter recebido orientação de Jesus a respeito de sua própria estrutura, sobre a qual se sente bastante livre. Certamente, líderes são necessários, mas a forma do ministério de responsabilidade varia, se transforma e, sobretudo, não é o único ministério, nem é o ministério que deve reconhecer os carismas ou a autoridade das testemunhas.
Pelo contrário, parece que é o oposto. Parece que é a igreja, o "nós" reunido pelo Espírito e fundado no Evangelho, que escolhe os seus próprios ministros, aliás, que determina as formas de ministério e inventa novas quando as necessidades da comunidade ou os conflitos declaram as formas ministeriais conhecidas insuficientes.
Poder, governo, Igreja
Quem tem maior autoridade governante em Jerusalém? Pedro ou Tiago? Sem dúvida, Tiago, se lermos os textos. E quem tem maior autoridade governante, aqueles que presidem as igrejas que se reúnem em suas casas ou um apóstolo de passagem?
Certamente, aqueles que presidem as Igrejas, isto é, mulheres e homens (como demonstrado no capítulo dezesseis da Carta aos Romanos), têm responsabilidade pelos outros. E será que o poder de governo de Constantino, com seu papel decisivo no Concílio de Niceia, é inferior ao do Bispo de Roma, que nem sequer participou do Concílio?
E os muitos poderes de governo que a tradição nos atesta para leigos, mulheres e ministros não ordenados... como eles se encaixam em nossas narrativas? Talvez devêssemos começar a perceber que é a Igreja que dispõe dos sacramentos e ministérios, e que por Igreja não nos referimos a ministros ordenados, mas sim a nós, os crentes.
É a Igreja que escolhe seus ministros, a Igreja que regulamenta as formas ministeriais (em constante mudança ao longo do tempo) e a Igreja que reconhece os carismas (nos quais se fundamentam todos os ministérios, inclusive os ordenados). E faz tudo isso para que todos possam expressar da melhor forma o dom recebido de Deus (que não temos razão para limitar a priori) e oferecido a todos para que todos possam viver e ser fonte de esperança para toda a humanidade.
Em última análise, o que somos e o que almejamos sempre depende do que dizemos.
Comentário de Federica
Tudo verdade.
Tudo escrito no Novo Testamento.
Mas, infelizmente, na Igreja Católica, preferem falsificar as Escrituras (a diaconisa Febe é apenas um exemplo) a minar as superestruturas doutrinárias.
Preferem considerar a condição feminina como "negativa" (doente, senão pecaminosa) com base em uma interpretação equivocada de Tomás de Aquino — doentia, incompleta, até pecaminosa.
Chegam ao ponto de equiparar astutamente a "questão feminina" à condição homossexual, que é de fato "doentia" e pecaminosa.
A entrada de mulheres no ministério ordenado é urgente e possível.
Comentário de Andrea
Segoloni injeta uma sensação de liberdade que permite àqueles imersos em um clericalismo opressivo respirar, mesmo que, felizmente, seus seguidores...
Comentário de Salvo Coco
A contribuição de Simona Segoloni é excelente. O processo de desclericalização exige palavras claras e convicções sólidas. E muita paciência para resistir aos constantes ataques dos "apóstatas", como Francisco chamou aqueles que se opõem às reformas. Essa oposição nem sempre se expressa de forma explícita e violenta, mas frequentemente assume tons moderados, falsa obediência, obstrucionismo bem elaborado, artifícios de bloqueio, hesitações doutrinais, minúcias jurídicas, uso incorreto da tradição, etc. Quase anestesiaram o Concílio dessa forma e estão fazendo o mesmo com o Sínodo. Portanto, cuidado com a moderação; ela está muito presente no corpo episcopal e no sacerdócio.
Comentário de Fabrizio Mastrofini
Angelo Di Berardino (um agostiniano!) escreve: "Todo um complexo de normas e práticas que já se desenvolvia no início do terceiro século não tem fundamento bíblico, mas foi desenvolvido por comunidades cristãs individuais e, por vezes, transmitido de uma comunidade para outra por contaminação." Ele acrescenta: "Praticamente nenhuma das instituições da Igreja, em sua forma atual, remonta aos apóstolos. Elas se desenvolveram durante os três primeiros séculos sob influências mútuas da tradição judaica, das instituições romanas e de outras comunidades cristãs mais organizadas. Assim, todas as instituições eclesiásticas têm, nesse aspecto, algo contingente e relativo, atrelado em sua gênese e desenvolvimento às circunstâncias de tempo e lugar. Após a paz concedida aos cristãos pelo imperador Galiano, as comunidades se desenvolveram ainda mais com o aumento das conversões e a qualidade das pessoas convertidas."
Eu acrescentaria: levemos a sério as descobertas mais recentes dos estudiosos (os verdadeiros) do cristianismo antigo e, com base nisso, façamos mudanças reais!
Comentário de Giuseppe Guglielmi
"Tudo o que injeta o veneno de uma nova era numa tradição é também o que a salva da inércia" (Michel de Certeau). Isso foi compreendido/feito desde os primórdios da Igreja, e por pelo menos um milênio e meio continuou (mais ou menos) a fazê-lo... Mas nos últimos séculos, movida pelo medo de encarar o desconhecido e incapaz de pensar de outra forma, a Igreja preferiu estabelecer uma "narrativa única" como um "espelho" (!) das origens cristãs. Obviamente, com grande "riso homérico" (para usar as palavras de Nietzsche) por parte dos historiadores do cristianismo e da teologia histórica.
Comentário de 68ina feliz
Coisas que Calvino disse há quinhentos anos. A nova narrativa é antiga. E, na verdade, o Concílio Vaticano II não a repete em momento algum: basta ler Lumen Gentium. Viva o Concílio!
Comentário de Fabio Cittadini
Às vezes me pergunto se conhecemos a história, especialmente a história da Igreja, já que alguns falam (inapropriadamente) da Tradição. Penso, por exemplo, em um certo (São) Carlos Borromeu, um leigo que era então Secretário de Estado, sendo assim o colaborador mais próximo do Papa (embora fosse seu tio). Como leigo, foi nomeado cardeal e designado para a diocese de Milão. Nesse momento, decidiu receber as ordens sacras. Isso é história. É interessante também que o homem que tanto fez pelos seminários nunca tenha frequentado um. A Tradição nos oferece uma riqueza de informações sobre esse tema que merece ser explorada!
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