O que dizem as mensagens que levaram à prisão de Vorcaro

Daniel Vorcaro | Foto: Banco Master/Agência Brasil

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05 Março 2026

Segundo a PF, banqueiro teria demandado "ações de vigilância, intimidação e obtenção de dados" de inimigos para obstruir a Justiça. Evidências indicam existência de uma "organização criminosa".

A informação é publicada por DW, 04-03-2026.

Ao determinar nesta quarta-feira (04/03) a nova prisão do dono do Banco Master, Daniel Vorcaro, o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) André Mendonça, relator do caso, citou trocas de mensagens obtidas pela Polícia Federal (PF) que indicam a existência de uma estrutura informal denominada "A Turma", responsável pela "execução das ações de vigilância, intimidação e obtenção de dados" de inimigos do banqueiro.

As mensagens foram obtidas no celular de Vorcaro pela PF na primeira fase da Operação Compliance Zero, que apura possíveis crimes contra o sistema financeiro cometidos pelo Banco Master antes de sua liquidação. Agora, Mendonça também vê também indícios de que os crimes de ameaça, corrupção, lavagem de dinheiro e invasão de dispositivos informáticos teriam sido praticados de forma estruturada pelo grupo, constituindo característica típica de uma "organização criminosa".

A PF identificou a emissão de ordens diretas de Vorcaro para que fossem praticados atos de intimidação de pessoas (dentre as quais, concorrentes empresariais, ex-empregados e jornalistas) que seriam vistas como prejudiciais aos interesses da organização.

O principal interlocutor era Luiz Phillipi Mourão. Segundo a decisão, ele seria responsável pela coordenação das atividades da "Turma". Há indícios de que o grupo recebia R$ 1 milhão por mês de Vorcaro "como forma de remuneração por serviços ilícitos".

Intimidação de funcionários

Apelidado de "Sicário", Mourão teria obtido informações, monitorado pessoas e levantado dados para Vorcaro. Em uma mensagem no aplicativo WhatsApp, o banqueiro se dispõe a colocar "A Turma" para intimidar um funcionário que supostamente teria feito uma gravação indesejada.

Em uma determinação a Mourão, Vorcaro pede para "levantar tudo dos dois", indicando também o monitoramento de um chefe de cozinha associado ao funcionário. "A uma certa altura, Daniel Vorcaro expressamente menciona a Mourão, 'É bom de dar sacode no chef de cozinha primeiro. O outro já vai assustar'", diz o texto reproduzido na decisão.

Em outra ocasião, Vorcaro diz que sua empregada o estaria ameaçando. "Empregada Monique me ameaçando. É mole? Tem que moer essa vagabunda". Mourão pede orientações sobre o que fazer. "Puxa endereço tudo", responde o banqueiro.

A PF também indica que a "prática violenta" atinge até mesmo jornalistas. Um deles, segundo a imprensa, seria Lauro Jardim, colunista do jornal O Globo.

"Tinha que colocar gente seguindo esse cara. Pra pegar tudo dele", escreve Vorcaro sobre Jardim. "Vou fazer isto", responde Mourão. Em nova troca de conversas, Vorcaro diz: "Esse Lauro, quero mandar dar um pau nele. Quebrar todos os dentes. Num assalto".

Mourão, então, diz que está "em cima" para derrubar os "links negativos". Sobre o indicativo de "dar um pau" no jornalista, Mourão pergunta: "Pode? Vou olhar isso…". Segundo a investigação, Vorcaro responde que "sim".

Invasão de sistemas da PF, FBI e Interpol

Além da identificação, localização e acompanhamento de pessoas que mantinham relação com investigações ou com críticas às atividades do grupo econômico ligado ao Banco Master, Mourão realizava consultas de dados em sistemas restritos de órgãos públicos, diz a investigação, incluindo os sistemas da própria PF, do Ministério Público e até de organismos internacionais como o FBI e a Interpol.

As mensagens ainda indicam que o investigado atuava na articulação de medidas voltadas à remoção de conteúdos e perfis em plataformas digitais, simulando solicitações oficiais de órgãos públicos. "Essa atuação envolvia o envio de comunicações institucionais ou documentos sem validação formal, com o objetivo de obter dados de usuários ou promover a retirada de conteúdos considerados prejudiciais aos interesses do grupo", diz a decisão.

Em uma das mensagens, Mourão indica a estrutura do grupo "A Turma" ao ser indagado por Vorcaro sobre o pagamento de seus serviços. "Ele manda o mensal e eu divido entre a turma. Mando pra eles. 400 divido entre 6. Os meninos mando 75 pra cada, o meu. O DCM e mais dois editores. É este o mensal. Ele manda 1 e quando você manda bônus eu divido entre os meninos e a turma".

A decisão de Mendonça não deixa explícito ao que exatamente Mourão se referia ao citar a sigla DCM, mas, segundo o jornal Folha de S.Paulo, a PF investiga possíveis pagamentos ao site Diário do Centro do Mundo e dois de seus editores, para produção de conteúdo favorável a Vorcaro.

Em nota, o site negou ter sido citado no relatório de Mendonça. "Em nenhum momento a decisão identifica essa sigla como sendo o Diário do Centro do Mundo, tampouco menciona o nome do veículo, sua razão social (NN&A Produções Artísticas Ltda.) ou qualquer integrante de sua equipe", diz.

Envolvimento de servidores do BC

Outras trocas de mensagens indicam que Vorcaro teve também acesso prévio a informações confidenciais sobre as investigações, além de manter interlocução direta com servidores do Banco Central responsáveis pela supervisão bancária, "discutindo temas relacionados à situação regulatória da instituição financeira e encaminhando documentos e minutas destinados à autarquia supervisora para análise prévia."

"Nas mensagens, o investigado solicitava orientações sobre a condução de reuniões institucionais, a elaboração de documentos e a abordagem de temas sensíveis perante autoridades regulatórias", diz o despacho do STF. O Banco Central era o responsável por fazer a regulação prudencial do Master, que levou à posterior liquidação do banco.

Em uma troca de mensagens, o ex-diretor do BC, Paulo Sérgio, é parabenizado por Vorcaro ao ser nomeado para o cargo de chefe-adjunto de supervisão bancária no Banco Central.

Paulo Sérgio foi um dos alvos da operação desta quarta-feira. Ele já havia sido afastado do cargo por investigação interna da autoridade monetária e agora cumpre medidas cautelares. No aplicativo de mensagens, o ex-servidor "torna-se uma espécie de empregado/consultor de Vorcaro", diz a decisão de Mendonça, que cita a existência de "inúmeras" mensagens comprobatórias. Sérgio supostamente realizava, por exemplo, análises prévias de ofícios que o Banco Master enviaria ao seu próprio departamento.

Belline Santana, também servidora do BC, teria atuado de forma parecida, diz Mendonça.

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