04 Março 2026
O K9, órgão instituído pelo Papa Francisco no qual um pequeno grupo de cardeais aconselhava o Papa algumas vezes por ano, parece ter desaparecido discretamente. O Papa Leão XIV não o convocou nem sequer uma vez desde sua eleição em 8 de maio de 2025. Observadores do Vaticano, portanto, têm especulado há algum tempo sobre quem o aconselha em decisões difíceis. Uma coisa é certa: o consistório de cardeais de todo o mundo, que se reúne no máximo duas vezes por ano, é tão grande e complexo de organizar que só é adequado para deliberações sobre questões e decisões muito fundamentais relativas aos rumos do papado.
A reportagem é de Ludwig Ring-Eifel, publicada por Katholisch, 03-03-2026.
Então, com quem o Papa, membro da ordem agostiniana, consulta quando precisa tomar decisões rápidas sobre assuntos específicos? Javier Martínez-Brocal, correspondente do jornal espanhol ABC no Vaticano, compilou uma lista de pessoas no Vaticano que aparentemente gozam da confiança especial do Papa e com quem ele se encontra com mais frequência do que com outras.
Discreto e imparcial
O espanhol Martínez-Brocal era considerado um dos observadores mais bem informados do Vaticano durante o pontificado de Francisco. Segundo suas pesquisas, o Papa de Chicago confiava principalmente em pessoas que, além de sua expertise profissional, possuíam duas qualidades: discrição e imparcialidade no embate de opiniões entre as diferentes facções dentro da Igreja. Além disso, Leão XIV teve muito cuidado para garantir que não surgisse novamente a impressão de uma estrutura paralela à Cúria Vaticana, algo que já havia ocorrido em alguns momentos durante o pontificado de Francisco.
Por essa razão, afirma o relatório, o Papa retomou a estreita coordenação e a clara divisão de responsabilidades com a sua Secretaria de Estado. Enquanto sob o pontificado de Francisco o Papa por vezes fazia declarações políticas espontâneas e impensadas que o secretário de Estado Pietro Parolin tinha então de controlar cuidadosamente através de canais diplomáticos, agora é quase exclusivamente Parolin quem se pronuncia sobre tais assuntos.
Até mesmo a comunicação paralela inicial do Papa após suas excursões semanais a Castel Gandolfo, como outros observadores do Vaticano notaram, cessou há meses. Em vez disso, Parolin sempre se pronuncia – até mesmo sobre uma questão tão fundamental quanto a participação da Santa Sé na iniciativa de paz de Trump para Gaza.
No entanto, quando se trata de decisões de pessoal ou estruturais no Vaticano ou na Igreja universal, o Papa aparentemente consulta alguns confidentes específicos. Como o CEO de uma empresa, ele lhes pede "para reunir informações e sugerir soluções", segundo Martínez-Brocal, citando uma fonte anônima do Vaticano.
Vários espanhóis e membros de ordens religiosas
Leão XIV nunca deixa dúvidas de que a decisão final é dele e que ele não depende de ninguém. Essas deliberações podem, por vezes, levar de forma surpreendentemente rápida e clara à completa reversão de decisões individuais tomadas por seu antecessor, Francisco. Isso aconteceu, por exemplo, com a reversão da reforma estrutural da Diocese de Roma e a dissolução do "Comitê Pontifício para o Dia Mundial da Criança".
Entre os confidentes mais próximos do Papa, o autor menciona o cardeal espanhol Ángel Fernández Artime (65). O Papa Francisco já havia nomeado o sacerdote salesiano como "Pró-Prefeito" do Dicastério para os Institutos de Vida Consagrada, complementando o trabalho da freira italiana Simona Brambilla. Leão XIV concedeu-lhe novas responsabilidades. Ele agora também é membro do Tribunal de Apelação do Vaticano e presidiu a primeira sessão do consistório em janeiro. O Papa o nomeou então para a pequena e discreta Comissão de Cardeais que supervisiona o Banco do Vaticano, o IOR. E na inauguração da exposição de relíquias de São Francisco em Assis, aclamada internacionalmente, ninguém menos que Artime pregou.
O relatório menciona outro salesiano em quem o Papa tem particular confiança: o arcebispo italiano Giordano Piccinotti (51), presidente da influente Administração do Patrimônio Vaticano (APSA). Leão XIV se encontrou com ele com mais frequência do que com quase qualquer outra pessoa no Vaticano. Assim como o Papa, Piccinotti também visita frequentemente Castel Gandolfo, onde o emblemático projeto ecológico Laudato si' é supervisionado pela APSA. O Papa mencionou Piccinotti recentemente durante uma visita a uma paróquia em Roma, onde conversou com os padres locais.
Naquela ocasião, ele revelou que, quando jovem, ao procurar uma ordem religiosa, inicialmente considerou os Salesianos de Dom Bosco. No fim, porém, optou pelos Agostinianos e ingressou no noviciado.
Conexões de anos anteriores
Entre os homens de "sua" ordem, o relatório menciona outros dois conselheiros do Papa. O mais importante deles é provavelmente o bispo espanhol Luis Marín de San Martín (64). Ele serviu como Assistente Geral na liderança romana da Ordem Agostiniana de 2008 a 2021 – incluindo cinco anos, de 2008 a 2013, ao lado do futuro Papa – na época, ainda no cargo deste de Prior Geral dos Agostinianos.
Marín ocupa o segundo cargo mais importante no Secretariado do Sínodo dos Bispos desde 2021. Ali, também, seu caminho se cruzou com o de Prevost, que retornou a Roma em 2023 como Prefeito do Dicastério dos Bispos do Peru. O fato de a transição do projeto franciscano para o Sínodo ter transcorrido de forma tão tranquila pode ser atribuído a essa ligação pessoal.
Outro agostiniano importante é o padre espanhol Alejandro Moral (70). Ele foi eleito sucessor de Prevost como chefe da ordem em Roma em 2013. Após dois mandatos, mudou-se para Cuba no outono de 2025, para que o Papa tivesse mais uma pessoa de contato importante no país assolado pela crise, além do núncio.
Segundo o relatório, outro espanhol é um contato especial do Papa no Dicastério para a Doutrina da Fé: o catalão Jorge Bertomeu. O sacerdote trabalha lá no departamento responsável por casos de abuso e já lidou com casos graves no Chile e no Peru, entre outros – país de onde o atual Papa o conhece.
Entre elas, estão duas mulheres.
O especialista espanhol do Vaticano também inclui em seu relatório duas mulheres do círculo íntimo do Papa: as freiras Simona Brambilla (60), prefeita do Dicastério para os Institutos de Vida Consagrada e Sociedades de Vida Apostólica, e Raffaella Petrini (57), chefe de Governo do Estado da Cidade do Vaticano. Brambilla foi recentemente nomeada por Leão XIV para o Dicastério para os Bispos – o mesmo órgão que ele próprio chefiou, responsável na maioria dos países pela seleção preliminar de candidatos a bispo. Petrini, que se formou em administração de empresas nos EUA, também parece ter uma ligação direta com o Papa.
Entre os cardeais da Cúria, Martínez-Brocal menciona três em particular que, em sua opinião, pertencem ao círculo íntimo de Leão: o filipino Luis Tagle (68), o português José Tolentino de Mendonça (60) e seu sucessor como prefeito dos Bispos, Filippo Iannone (68). O canonista napolitano é o único Prefeito da Cúria nomeado por Leão nos primeiros dez meses de seu pontificado. Os dois se encontram semanalmente.
Por fim, o texto menciona o Cardeal Michael Czerny (79). Atribui-lhe um papel importante como fonte de ideias para a tão aguardada primeira encíclica de Leão XIV. O documento doutrinário poderá, então, tornar-se uma espécie de legado do canadense, que completará 80 anos em julho e, portanto, provavelmente se aposentará de seus cargos no Vaticano.
Segundo Martínez-Brocal, o Papa também mantém contato próximo com o provável sucessor de Czerny, o Cardeal Fabio Baggio (61). Como Diretor Geral do projeto ambiental "Laudato si'", Baggio também visita Castel Gandolfo com frequência. É razoável supor que o Papa utilize seu dia de folga semanal nos jardins papais não apenas para relaxar, mas também para conversas tranquilas com seus conselheiros.
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