03 Março 2026
"Uma estratégia que busque confrontar esse declínio perpétuo deve encontrar em si uma intersecção ou uma interrupção onde o Ocidente perca sua continuidade e afunde de vez. Essa ruptura abissal é a memória. O Ocidente, sendo contingente e efêmero, não tem memória de si mesmo; não conhece nenhuma brecha ou espaço onde algo como uma memória possa, por um instante, irromper e emergir", escreve Giorgio Agamben, filósofo italiano, em artigo publicado por Ficcion de lá razón, 25-02-2026.
Eis o artigo.
A palavra "Ocidente", com a qual definimos nossa cultura, deriva etimologicamente do verbo "cair" e significa literalmente "aquilo que está caindo, aquilo que nunca cessa de cair". Relacionados a esse verbo estão também os termos "caso" e "acaso". Aquilo que nunca cessa de cair e declinar (occasus em latim significa pôr do sol, o ocaso do sol) está, portanto, também à mercê do acaso, de uma aleatoriedade incessante. Não é surpreendente, então, que a governança dos homens e das coisas hoje assuma a forma de protocolos de intervenção, independentes de resultados certos, em um mundo concebido como disponível e calculável precisamente na medida em que é contingente. O Ocidente existe e se governa apenas no tempo de seu fim e de seu declínio assíduo e, como seu Deus, está inexoravelmente em processo de morte. Mas é precisamente nisso que reside sua força: uma morte incessante é propriamente sem fim, uma decadência infinita ou o acaso é propriamente imparável.
Uma estratégia que busque confrontar esse declínio perpétuo deve encontrar em si uma intersecção ou uma interrupção onde o Ocidente perca sua continuidade e afunde de vez. Essa ruptura abissal é a memória. O Ocidente, sendo contingente e efêmero, não tem memória de si mesmo; não conhece nenhuma brecha ou espaço onde algo como uma memória possa, por um instante, irromper e emergir. Certamente pode construir, como faz, arquivos e registros nos quais organiza continuamente os eventos — os casos — de sua história, mas carece da capacidade de realmente vivenciar um passado, de se abrir para algo que rompa o tecido uniforme de suas representações. A anamnese, a memória, ao contrário, assume a forma de uma intersecção onde o declínio — o caso — é interrompido por um instante, permitindo que um passado heterogêneo e irrepresentável apareça como nunca antes. “Ó passado, abismo do pensamento” (Schelling): somente o pensamento que desce resolutamente a esse abismo pode conduzir o Ocidente, de uma vez por todas, ao seu fim.
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