27 Fevereiro 2026
"Em geral, o discurso confirmou a impressão de um presidente determinado a continuar no caminho que traçou. Essa decisão, no entanto, pode se revelar perigosa, considerando as crescentes críticas às suas ações por parte de uma parcela cada vez maior dos americanos e o desconforto que alguns membros do movimento MAGA estão sentindo em relação às escolhas de seu líder", escreve Alessia De Luca, jornalista especializada em política dos Estados Unidos, em artigo publicado por ISPI Daily Focus e reproduzido por Settimana News, 26-02-2026.
Eis o artigo.
O único momento em que todos os presentes aplaudiram vigorosamente foi quando a seleção masculina de hóquei no gelo entrou no plenário do Congresso, reunida para o discurso do Estado da União do presidente Donald Trump. "Nosso país reencontrou o caminho da vitória", declarou Trump, dando as boas-vindas aos recém-coroados campeões olímpicos após uma partida tensa contra o Canadá.
Durante o restante do discurso, que durou uma hora e 47 minutos — o mais longo desde 1964, como observou a imprensa americana — a câmara se dividiu entre aplausos e assobios, ovação de pé e gestos de aberta discordância. Foi o caso do deputado democrata do Texas, Al Green, que foi escoltado para fora da câmara por exibir uma placa com os dizeres: "Negros Não São Macacos".
Além disso, o presidente tem direcionado seu olhar quase exclusivamente para o lado republicano da câmara, enquanto simultaneamente chamava os democratas de "loucos" e dizia que eles "querem destruir o país". A oposição respondeu exibindo botões e adesivos com os dizeres "Divulguem os Arquivos", exigindo a divulgação completa dos documentos relacionados ao caso Epstein, que, segundo a mídia independente, contêm referências a Trump que foram removidas.
De modo geral, o presidente apresentou uma narrativa triunfalista de uma América que entrou — em suas palavras — em uma nova "era de ouro". Essa imagem, no entanto, contrasta com o clima no país: de acordo com uma pesquisa divulgada pela PBS e outros institutos de pesquisa, 57% dos americanos acreditam que o Estado da União não é forte, e 65% criticam a gestão da inflação. Esses números retratam uma América pelo menos tão dividida quanto a Câmara dos Deputados que ouviu o presidente.
A economia em primeiro lugar?
Embora o desemprego esteja caindo e a inflação tenha desacelerado – números que o presidente Trump citou diversas vezes em seu discurso com foco na economia – analistas afirmam que os ganhos recentes beneficiaram principalmente os ricos.
O boom da inteligência artificial ajudou a mascarar a fragilidade de outros setores econômicos, enquanto a construção de novas fábricas e a construção residencial diminuíram. Muitos trabalhadores americanos dizem não sentir os efeitos da recuperação econômica em seus bolsos e estão com dificuldades para pagar as contas ou planejar o futuro, enquanto a alta do mercado de ações — outro dos pontos fortes do magnata — não impacta sua renda.
A crise financeira obrigou até mesmo pessoas da sólida classe média americana a tomar decisões difíceis, como adiar a aposentadoria ou a faculdade, reduzir as compras de supermercado ou recorrer a bancos de alimentos.
Nos últimos meses, o número de pessoas que assumem um segundo ou terceiro emprego para sobreviver, um fenômeno conhecido como "politrabalho", aumentou. Mesmo famílias com renda acima de US$ 100.000 relatam dificuldades em conciliar hipotecas, alimentação, escola e transporte sem comprometer as economias ou o tempo livre, alimentando uma ansiedade e incerteza econômica generalizadas.
Trump descarta a questão da acessibilidade como uma "farsa" inventada por seus oponentes. Mas as pesquisas contam uma história diferente: apenas 32% dos eleitores, de acordo com outra pesquisa da ABC/Washington Post/Ipsos, acreditam que ele cumpriu suas promessas sobre inflação e custo de vida.
Poucas referências ao resto do mundo
De modo geral, Trump dedicou pouca atenção à política externa: o presidente falou sobre o Irã por apenas três minutos, reiterando que jamais permitiria que "o principal patrocinador do terrorismo tivesse uma arma nuclear".
Após ordenar o maior aumento da presença militar dos EUA no Oriente Médio desde a invasão do Iraque, Trump – observa hoje o Axios – "começou a preparar o terreno junto ao público americano para uma potencial guerra com o Irã", fazendo três duras acusações contra Teerã. O regime iraniano teria "matado e mutilado milhares de americanos com bombas à beira da estrada", estaria "trabalhando para construir mísseis que em breve atingirão" os Estados Unidos e, mais uma vez, estaria perseguindo suas "ambições sinistras" de obter uma arma nuclear.
Enquanto seus enviados se reuniam com os iranianos em Genebra nesta quinta-feira para uma nova rodada de negociações, Trump declarou: "Farei a paz onde puder, mas nunca hesitarei em enfrentar ameaças à América onde quer que seja necessário."
E, apenas uma hora e meia após o início de seu discurso, o presidente mencionou a Ucrânia — apesar de ontem ter marcado o quarto aniversário da invasão russa. Em segundo plano, permanecem as tensas relações com a OTAN, a pressão sobre a Dinamarca em relação à Groenlândia e as críticas à posição dos EUA, que os aliados consideram muito "brando" em relação a Vladimir Putin.
Uma América fragmentada
A noite foi repleta de momentos emocionantes: medalhas de valor concedidas a veteranos e militares, e longas homenagens patrióticas em antecipação ao 250º aniversário da independência americana.
Mas por trás da encenação festiva, sombras permanecem. Mesmo antes de Trump discursar, os senadores democratas bloquearam uma medida para refinanciar o Departamento de Segurança Interna sem impor limites mais rígidos às operações anti-imigração. O presidente os acusou de serem "responsáveis pelo mal-estar nacional", tentando manter um ponto de vista após os eventos em Minneapolis, enquanto um número crescente de grupos seculares e religiosos em todo o país pede o fim das "deportações em massa".
Em vez de abordar a queda nas pesquisas de opinião ou as eleições de meio de mandato marcadas para 4 de novembro, Trump apresentou sua presidência como a concretização de 250 anos do destino americano. "A revolução que começou em 1776 não acabou; ela continua porque a chama da liberdade e da independência ainda arde no coração de cada patriota americano", disse Trump, concluindo seu longo discurso.
Mas, mais do que um apelo à união, seu discurso tornou-se mais uma demonstração da fragmentação política dos Estados Unidos: um discurso sobre o Estado da União retratado como um triunfo, mas vivenciado — dentro e fora do Congresso — como um conflito contínuo.
Comentário de Gianluca Pastori
Exuberante e previsível: esses são talvez os dois adjetivos que melhor descrevem o discurso de Donald Trump sobre o Estado da União.
A economia e o combate à imigração ilegal foram o foco de quase duas horas em que o presidente enumerou — não sem seus exageros habituais — os sucessos alcançados em seu primeiro ano de mandato. Parecia uma repetição — talvez um pouco mais formal e menos exagerada — de seu discurso de aniversário de janeiro, que marcou sua posse.
A política externa desempenhou um papel decididamente marginal, confirmando que esta continua a ser uma área sensível para a administração e aquela em que os resultados alcançados estão talvez mais distantes das promessas feitas.
Em geral, o discurso confirmou a impressão de um presidente determinado a continuar no caminho que traçou. Essa decisão, no entanto, pode se revelar perigosa, considerando as crescentes críticas às suas ações por parte de uma parcela cada vez maior dos americanos e o desconforto que alguns membros do movimento MAGA estão sentindo em relação às escolhas de seu líder.
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