27 Fevereiro 2026
"Espero, ó, como espero, que todos os católicos, da esquerda e da direita, devotos e não praticantes, reservem um momento para ouvir o que Leão XIV está destacando para nós. Estas breves reflexões catequéticas nos convidam a participar da renovação apontada pelo Vaticano II, uma renovação que não é uma ideologia moderna, mas algo muito antigo e sempre novo: a revelação de Deus em Jesus Cristo", escreve Michael Sean Winters, autor católico, em artigo publicado por National Catholic Reporter, 26-02-2026.
Eis o artigo.
Tenho compartilhado links para a catequese do Papa Leão XIV sobre os ensinamentos do Concílio Vaticano II desde que ele a iniciou no começo do ano. Na semana passada (18 de fevereiro), ele começou a examinar a Lumen Gentium, a constituição dogmática sobre a Igreja, e ela merece mais do que um simples parágrafo.
O Papa começou por observar como a Lumen Gentium refletia o desejo dos padres conciliares de explicar as origens da Igreja. Eles escolheram a palavra paulina "mistério". Leão XIV esclarece: "Ao escolher esta palavra, não pretendiam dizer que a Igreja é algo obscuro ou incompreensível, como se pensa geralmente quando se ouve a palavra 'mistério'. É exatamente o oposto: aliás, quando São Paulo usa a palavra, especialmente na Carta aos Efésios, ele deseja indicar uma realidade que antes estava oculta e que agora é revelada."
A revelação é o nosso dado cristão. Sim, devemos continuar atentos aos impulsos do Espírito Santo, que ainda nos chama. As circunstâncias que enfrentamos são muitas vezes bem diferentes daquelas enfrentadas por São Paulo e os efésios. Mas testamos nossos pensamentos e nossas ações para ver se merecem o adjetivo "cristão", examinando-os à luz da revelação. Como já mencionei várias vezes, o simples fato de um cristão ter uma ideia não significa que essa ideia seja cristã.
O Santo Padre prossegue explicando que o mistério é o plano de Deus "de unir todas as criaturas graças à ação reconciliadora de Jesus Cristo, uma ação que se realizou por meio de sua morte na cruz. Isso se experimenta, antes de tudo, na assembleia reunida para a celebração litúrgica: ali, as diferenças são relativizadas, e o que importa é estarmos juntos porque somos atraídos pelo Amor de Cristo, que derrubou o muro da separação entre as pessoas e os grupos sociais (cf. Efésios 2,14)".
Se eu tivesse 10 minutos com Leão, uma das perguntas que lhe faria seria por que ele iniciou esta série catequética com a Dei Verbum, a constituição dogmática sobre a Revelação Divina, e não com a Sacrosanctum Concilium, a constituição sobre a Sagrada Liturgia, que foi a primeira constituição emitida pelo Concílio Vaticano II. A cronologia é uma ferramenta de organização fácil. O que fica claro, no entanto, é que o Papa reconhece que essas constituições estão todas interligadas, e não se pode realmente apreender a riqueza de nenhuma delas sem vê-las como um todo.
Mais importante ainda, o Papa coloca aqui a liturgia, que é um antegosto daquele banquete celestial pelo qual ansiamos, no centro da autocompreensão da Igreja. Tudo o mais que dizemos e fazemos no âmbito da organização eclesial, da ética social e sexual ou do desenvolvimento teológico, tudo deriva do mistério pascal que se faz presente em cada Missa de uma forma única e inquestionável. É isso que nos leva, propriamente, necessariamente, a nos prostrarmos de joelhos.
Já foi dito com propriedade que o oposto do catolicismo não é o protestantismo, mas o sectarismo. Em sua catequese, o Papa enfatiza o universalismo da mensagem cristã. "Precisamente porque [a Igreja] é obra de Deus, esta convocação não pode se limitar a um grupo de pessoas, mas está destinada a se tornar a experiência de todos os seres humanos." Mais adiante, ele afirma: "A união com Deus se reflete na união dos seres humanos. Esta é a experiência da salvação."
Leão não está defendendo nenhum tipo de universalismo vazio. Este filho de Agostinho não se esquiva da enormidade nem da explicitude das afirmações cristãs sobre Deus. Talvez tenha havido um mal-entendido, mas, diferentemente dos fundadores de outras religiões que morreram na velhice e tendo alcançado em grande parte seus objetivos, nós, cristãos, não afirmamos que nosso fundador era um mestre erudito ou um sábio, mas o próprio Deus, e que esse Deus permitiu ser crucificado como um criminoso. É preciso admitir que é bem diferente.
Leão também nos encoraja, no entanto, a resistir à tentação de caricaturar nossos irmãos católicos, de descartá-los e suas preocupações como equivocadas ou até mesmo anticristãs, e a reconhecer que todos nós temos a tarefa de viver de tal forma que nossas vidas testemunhem a afirmação da Lumen Gentium: "A Igreja está em Cristo como um sacramento ou como um sinal e instrumento tanto de uma união muito íntima com Deus quanto da unidade de toda a raça humana."
Muitas vezes, especialmente sob a influência das lentes das ciências sociais, é fácil esquecer que a Igreja se fundamenta no mistério revelado por Jesus Cristo. É fácil esquecer que cada Missa é um milagre. É fácil, em tempos de polarização e quando a religião é invocada para justificar políticas de todos os tipos, minimizar o poderoso chamado à unidade que está no cerne da autocompreensão da Igreja, manifestando-se sobretudo na Missa. Fácil e letal.
Espero, ó, como espero, que todos os católicos, da esquerda e da direita, devotos e não praticantes, reservem um momento para ouvir o que Leão XIV está destacando para nós. Estas breves reflexões catequéticas nos convidam a participar da renovação apontada pelo Vaticano II, uma renovação que não é uma ideologia moderna, mas algo muito antigo e sempre novo: a revelação de Deus em Jesus Cristo.
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