23 Fevereiro 2026
"Ao assumir que as mulheres não podem ser ordenadas como diáconas porque não podem "representar Cristo", a carta restringe a compreensão da humanidade das mulheres", escreve Phyllis Zagano, em artigo publicado por 7 Margens, 21-02-2026.
Phyllis Zagano é investigadora na Universidade Hofstra, em Hempstead, Nova Iorque, e autora de vários livros e artigos sobre o diaconato feminino. O Papa Francisco nomeou-a para a Comissão inicial para o Estudo do Diaconato Feminino em 2016.
Eis o artigo.
Pouco antes do Natal do ano passado, muitos meios de comunicação noticiaram o que chamaram "decisão" sobre o discernimento contínuo da Igreja sobre a recondução das mulheres ao diaconato ordenado.
Não houve nenhuma "decisão". O gabinete de imprensa do Vaticano publicou uma carta do cardeal Giuseppe Petrocchi, arcebispo emérito de L’Aquila, Itália, e presidente da comissão, que relatava parcialmente as votações secretas realizadas em três sessões da segunda comissão do Papa Francisco que estudava as mulheres diáconas. Embora a carta pareça excluir a possibilidade de ordenar mulheres como diáconas, o relato incompleto das votações secretas e a falta de referência a pesquisas históricas, teológicas e antropológicas sérias predizem o seu próprio resultado.
A comissão não decidiu a questão da ordenação de mulheres como diáconas. Um discernimento contínuo sobre essa questão é exigido imperativamente [magisterially] pelo Documento Final do Sínodo Mundial sobre a Sinodalidade. Em vez disso, a comissão, que parece ter tido uma composição rotativa, preferiu recomendar a criação de "novos ministérios", que não exigem ordenação, para as mulheres.
Logo no início, numa nota de rodapé, a carta liga firmemente o diaconato ao sacerdócio, em oposição a vários documentos da Igreja, incluindo a Constituição Dogmática sobre a Igreja Lumen Gentium do Concílio Vaticano II, o Catecismo da Igreja Católica e o Motu proprio Omnium in mentem (2009) de Bento XVI, que afirma que o diaconato não faz parte do sacerdócio.
Esses ensinamentos da Igreja negam a falsa teoria da "unicidade das ordens", que, inversamente, argumenta que, como não se tem conhecimento de mulheres ordenadas sacerdotes, elas também não poderiam ter sido ordenadas diáconas. Com base nessa falsa noção, afirma-se a crença de que as mulheres não podem representar Cristo e, portanto, não podem servir como diáconas in persona Christi servi. Tal compreensão neo-ariana de Jesus Cristo e da Ressurreição é o resultado do que muitos estudiosos têm chamado "fisicalismo ingênuo".
Além disso, ao assumir que as mulheres não podem ser ordenadas como diáconas porque não podem "representar Cristo" [image Christ], a carta restringe a compreensão da humanidade das mulheres. Mulheres em todo o mundo sofrem todos os tipos de discriminação simplesmente por serem mulheres, desde a mutilação genital, passando pela queima do dote, até ao espancamento da esposa e coisas piores. O documento sugere “novos ministérios” em vez de um retorno às ordenações de mulheres como diáconas, historicamente documentadas, teologicamente possíveis e antropologicamente atestadas. Embora argumente que o reconhecimento de novos ministérios "constituiria um sinal profético, especialmente onde as mulheres ainda sofrem situações de discriminação de género", tal produziria o efeito oposto. Afirmando que as mulheres não podem ser ordenadas porque não podem representar Cristo como pessoas plenamente humanas, a sua proposta coloca as mulheres ainda mais em perigo. Pode-se argumentar que o documento afirma que as mulheres não são feitas à imagem e semelhança de Deus.
Na verdade, na sua primeira reunião em setembro de 2021, apenas dois dos comissários não identificados votaram a favor da ordenação de mulheres como diáconas, como um "terceiro grau de ordens sagradas" (implicando assim uma ligação ao sacerdócio), enquanto dois se abstiveram. Como os votos não foram relatados na íntegra, não há forma de traçar o desenvolvimento dos "núcleos temáticos", como a carta designa os conceitos-chave supostamente em discussão. Além disso, a carta cita um documento secreto adicional, o “Documento Final da Comissão sobre o Diaconato das Mulheres, de 7 de fevereiro de 2025”, em apoio ao seu comentário depreciativo sobre a documentação apresentada em resposta ao pedido do Dicastério para a Doutrina da Fé durante a reunião final do Sínodo sobre a Sinodalidade, em outubro de 2024, em Roma.
A carta relaciona de forma chocante a "masculinidade de Cristo" com o que denomina "o significado nupcial da salvação", argumentando em pormenor que "a masculinidade de Cristo e, portanto, a masculinidade daqueles que recebem as ordens sacras, não é acidental, mas parte integrante da identidade sacramental, preservando a ordem divina da salvação em Cristo. Alterar esta realidade não seria um simples ajuste do ministério, mas uma ruptura do significado nupcial da salvação". Cinco dos dez comissários desconhecidos votaram, novamente de forma anônima, para confirmar esta declaração, aparentemente na reunião final da comissão em fevereiro de 2025. Não parece ter havido uma votação sobre um dos comentários finais da carta, que credita a "dimensão mariana" como a alma de qualquer "diaconia".
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