Justiça nega pedido de reintegração e indígenas mantêm ocupação da Cargill

Ocupação no porto da Cargill | Foto: Foto: Tukumã Pataxó/Apib

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23 Fevereiro 2026

Após ordem judicial para liberar as vias de acesso ao complexo da trading em Santarém, manifestantes ocupam escritório da empresa em Santarém.

A informação é publicada por ClimaInfo, 22-02-2026. 

Pela primeira vez desde 22 de janeiro, quando indígenas iniciaram protestos contra a dragagem do rio Tapajós e contra o Decreto nº 12.600/25 do Governo Federal, que inclui empreendimentos públicos hidroviários em alguns rios amazônicos no Programa Nacional de Desestatização, manifestantes ocuparam as instalações da trading agrícola Cargill em Santarém (PA), no sábado (21/2). A empresa entrou na Justiça pedindo a desocupação da área, mas não foi atendida.

Para o juiz federal Eneias Alexandre Gonçalves Torres, da subseção judiciária da Justiça Federal em Santarém, a adoção de medidas para desocupar a área não seria adequada durante o plantão judicial. Ele alegou que há mulheres, crianças e idosos entre os manifestantes, o que eleva o risco de agravamento do conflito em caso de uso de força policial, informam Times Brasil e UOL.

Na 6ª feira (20/2), a Justiça havia dado 48 horas para a liberação das vias de acesso ao terminal da Cargill, onde os cerca de 1.200 manifestantes se concentravam. No dia seguinte, os indígenas decidiram pela ocupação pacífica das instalações da trading, como mostra um post da liderança indígena Auricelia Arapiun no Instagram.

“Hoje, neste um mês, retomamos nosso território sagrado de Vera Paz, que foi invadido pela Cargill anos atrás. Não estamos mexendo nem depredando, é um ato pacífico dos Povos Indígenas. Foi uma resposta ao Governo Federal, que não nos deu nenhuma posição sobre a revogação do decreto, e também à Justiça, que nos deu 48 horas para sair”, explica Auricelia.

Alessandra Korap Munduruku, líder indígena e uma das organizadoras do ato, lembra que a mobilização tem ganhado força com a chegada de mais Povos Indígenas de outras regiões também impactadas pelo agronegócio, como os Kayapó de Mato Grosso, informa a Folha. “Quando ferem nossos direitos, a gente avança. Enquanto eles invadem nossas terras, nós ocupamos a Cargill. E agora chamamos aqui de aldeia Tapajós”, reforça.

O Conselho Indígena Tapajós Arapiuns (CITA) divulgou a “Carta aberta dos Povos dos Rios para o mundo”. O documento afirma que a decisão de ocupar o escritório da Cargill foi construída coletivamente após “um mês completo de silêncio institucional e ausência de respostas concretas”, destaca o Tapajós de Fato. Os povos declaram que a decisão “não foi impulsiva nem violenta” e que defendem “o direito de existir”.

A carta reforça a crítica ao Decreto nº 12.600, afirmando que “os projetos do governo atravessam territórios vivos” e que “os rios não são canais de exportação, são fonte de vida, sustento, memória e identidade”, ressalta que os indígenas não querem “tratar essa questão como caso de polícia” e exige “posicionamento claro da Presidência da República” e diálogo efetivo antes de qualquer decisão que avance sobre os territórios.

Na noite de 6ª feira, indígenas e representantes de movimentos sociais e de organizações da sociedade civil protestaram em frente ao escritório da Cargill em São Paulo, informam Folha e Brasil 247. Os manifestantes bloquearam duas vias de acesso ao prédio da empresa e também pintaram portas com as mãos, simbolizando o sangue indígena derramado por grandes empreendimentos na Amazônia e em outros biomas.

Em tempo

As ameaças a indígenas e ao meio ambiente vão além da dragagem do Tapajós e da privatização de rios da Amazônia. Na 5ª feira (19/2), o Ministério dos Transportes apresentou ao Tribunal de Contas da União (TCU) os estudos atualizados para a concessão da Ferrogrão sem abrir diálogo com os povos impactados e sem incorporar revisões cobradas pelas comunidades, queixa-se a liderança indígena Alessandra Korap Munduruku. A ferrovia e as hidrovias, afirma, operam como peças do mesmo corredor logístico: trilhos até Miritituba/Itaituba e, a partir daí, navegação com dragagens para a circulação de grandes comboios de barcaças destinados ao escoamento de grãos, detalha O Globo. Portanto, o protesto em Santarém, diz Alessandra, é também um “não” ao pacote de infraestrutura que empurra soja e milho pela Amazônia enquanto concentra riscos sociais e ambientais sobre os mesmos territórios.

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