Milei, a reforma trabalhista e o “ponto culminante”. Artigo de Fernando Rosso

Foto: Wikimedia Commons

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23 Fevereiro 2026

A aprovação da reforma trabalhista, caso seja concluída no Senado, será uma vitória para o Governo, mas poderá representar um ponto sem retorno, onde as vitórias políticas se transformam em derrotas sociais.

O artigo é de Fernando Rosso, jornalista argentino, publicado por El Salto, 22-02-2026.

Eis o artigo.

Quando Mauricio Macri conseguiu aprovar a reforma da previdência em dezembro de 2017, pode-se dizer que sua ofensiva atingiu o ápice: ele venceu uma votação e começou a perder o apoio do país. A reforma foi promulgada nas primeiras horas de 18 de dezembro, enquanto do lado de fora (na Plaza del Congreso) as ruas começavam a dar outro veredicto, com uma mobilização massiva, repressão e uma cena que se tornou uma imagem icônica da época: o Estado impondo uma lei às pressas com gás lacrimogêneo, e a noite ecoando com protestos com panelas batendo em diferentes bairros.

Na teoria militar clássica — especialmente em Clausewitz — o “ponto culminante” é aquele limiar, quase sempre invisível para os triunfalistas incorrigíveis, no qual uma ofensiva deixa de produzir uma vantagem líquida e começa a consumir mais força do que gera. A vitória, para dizer de forma direta, começa a custar mais do que rende: as linhas se estendem, o atrito aumenta, a necessidade de “garantir” o que foi conquistado se multiplica, o moral se deteriora e o adversário — mesmo que na defensiva — encontra condições para se reagrupar e concentrar ataques. Clausewitz concebe isso como um pivô ou uma linha vermelha: se o atacante a cruza, o sucesso corre o risco de se tornar uma extensão excessiva — ou um exagero — e abre caminho para uma possível mudança no equilíbrio de poder.

Foi isso que aconteceu com Macri com uma clareza que, vista de longe, é dolorosamente óbvia: o governo conquistou uma reforma fundamental a um custo político enorme, num clima social que já não era de esperança, mas de descontentamento e resistência. Depois veio 2018 com a sua violenta cascata de crises — econômicas, sociais e uma crise de autoridade — e 2019 com a derrota que finalmente confirmou — com as eleições iminentes — o que aquela manhã já insinuava: a vitória foi pírrica, porque reorganizou a oposição, prejudicou a legitimidade, acendeu conflitos e deixou o partido no poder mais isolado do que imaginava. Se a oposição, especialmente o peronismo político e sindical que defendia a política de esperar pelas eleições, não o tivesse apoiado, Macri poderia ter tido um destino pior. Talvez tivesse sido expulso de helicóptero, batendo aos portões do céu.

Essa experiência não pode ser transferida mecanicamente para a situação atual, porque a história nunca se repete, mesmo que às vezes rime. Mas algumas rimas não são coincidência: são a música de fundo de uma sociedade que, quando forçada a aceitar o inaceitável, responde com aquele mecanismo de desobediência tão argentino (antigo e moderno) que irrompe e se organiza. A diferença é que essa organização nem sempre chega a tempo, nem sempre consegue se sustentar, nem sempre transforma o descontentamento em equilíbrio de poder.

Em 12 de fevereiro, o governo de Javier Milei obteve aprovação preliminar no Senado para sua contrarreforma trabalhista em meio a protestos de rua e repressão. Uma operação de segurança resultou em feridos e prisões, e um debate público, longe de se restringir à Câmara do Senado, começou a permear as conversas do dia a dia: o custo de ficar doente, o custo de uma lesão, o custo da demissão quando o mercado de trabalho está em colapso. Apenas uma semana depois, em 19 de fevereiro, a CGT (Confederação Geral do Trabalho), impulsionada pelo descontentamento popular e pelo calendário político, convocou uma greve geral de 24 horas contra a reforma. Foi uma greve sem mobilização, cujo único objetivo era "cumprir formalidades". Houve alta participação e paralisia generalizada de atividades essenciais, mesmo sem uma convocação centralizada. A Câmara dos Deputados, de forma caótica e desrespeitosa, aprovou a reforma por 135 votos a 115, graças a um Congresso repleto de colaboradores. Ele apresentou modificações, portanto o projeto retornará ao Senado para aprovação final.

O que mudou, portanto, não foi apenas o conteúdo da reforma, mas também o clima. A votação ocorreu num momento em que se acumulam sinais de tensão econômica e social: um declínio ou estagnação no consumo de massa até o final de 2025, segundo medições privadas; salários registrados que ficaram abaixo da inflação no último ano; e um mercado de trabalho que experimenta uma queda sustentada no emprego formal. Nos últimos dois anos, mais de 21 mil empresas fecharam e mais de 300 mil empregos formais foram perdidos. Mas a deterioração, mesmo quando visível, não se traduz automaticamente em ruptura política: por vezes, produz apatia, fragmentação ou medo, e isso também influencia a dinâmica e o ritmo do processo.

Ao mesmo tempo, o processo parlamentar foi marcado por conflitos recentes que serviram como instantâneos da época: trabalhadores demitidos em empresas como a Lustramax denunciando demissões e atrasos salariais em meio ao debate sobre a reforma, e o emblemático caso Fate, que deixou de ser apenas “um conflito” para se tornar um símbolo. Porque o caso Fate não apenas expõe os danos sociais; expõe algo ainda mais perturbador para aqueles no poder: as fissuras no topo.

A histórica fábrica de pneus anunciou o fechamento de sua unidade em San Fernando, na província de Buenos Aires, e a demissão de 920 trabalhadores, em meio a um contexto de liberalização das importações, queda na lucratividade e reconfiguração do mercado. Na época, o fechamento serviu como um espelho: o governo defendendo um programa “anti-industrial” (ou, se preferir, um programa abertamente reorientado para setores com vantagem para a exportação), e uma parcela da comunidade empresarial alertando que as medidas de austeridade e a liberalização abrupta estão deixando empresas “para trás”.

As tensões entre as facções empresariais já começavam a surgir com a disputa pública entre Milei e Paolo Rocca (do grupo industrial Techint), em torno de licitações, importações, antidumping e, fundamentalmente, uma discussão sobre qual indústria permanece viva e qual está exposta ao sacrifício, graças aos benefícios da Mileinomics.

Nesse contexto, o caso Fate — de propriedade do grupo Madanes Quintanilla — dá nome e rosto a uma contradição: pode haver um acordo estratégico entre vários grandes empresários para "organizar" o movimento sindical, reduzir litígios e flexibilizar as condições de trabalho, mas não há necessariamente consenso sobre o modelo econômico que acompanha essa ofensiva. Disciplinar o trabalho é uma coisa; corroer o mercado interno, abrir-se às importações e deixar setores produtivos sem apoio estatal é outra bem diferente. É por isso que, mesmo quando a cúpula vota em uníssono, as fissuras são sentidas na base: a coalizão que aprova pode ser mais frágil do que parece, mesmo que permaneça intacta mais por necessidade do que por convicção.

A essa instabilidade soma-se o elemento que mais rapidamente torna um projeto "inapresentável": o excesso. A debatida reforma trabalhista incluía (e depois foi removida, em meio a críticas) um artigo que propunha a redução do pagamento de salários durante a licença médica. Um ponto particularmente gritante que serviu como revelação: às vezes, o poder se revela em um detalhe. Não era necessário ler o texto inteiro para compreender seu espírito: se ficar doente se torna um luxo, a reforma deixa de ser "modernização" e passa a ser uma mensagem de escravização.

Quando isso acontece, o debate se torna “generalizado” devido à inépcia estratégica, e não à virtude democrática. E aqui surge uma variável central para entender o “ponto culminante”: não se trata apenas de economia; trata-se de legitimidade. Um relatório recente da Pulso Research revelou um padrão revelador: mais da metade considerou “alguma reforma” necessária, mas, em relação à reforma específica em discussão, a rejeição superou o apoio (45% contra 35% a favor). Esse número não sela o destino, mas define o terreno: o governo está avançando sem ter alcançado um consenso sólido, e isso também altera a natureza da vitória.

A questão que se coloca é a seguinte: em que fase da sua ofensiva contínua se encontra o governo de Milei? Terá atingido o seu "ápice"? Estará embriagado pelos seus sucessos parlamentares, baseado numa "casta" que vive absorta na sua própria bolha?

Uma resposta afirmativa pode ser tentada — com cautela e sem romantismo — se entendermos "ponto culminante" não como uma queda ou colapso iminente, mas como o momento em que a ofensiva começa a pagar por cada passo com custos crescentes e benefícios decrescentes.

Hoje, existem pelo menos três sinais que apontam para esse diagnóstico. O primeiro é que a ofensiva legislativa está se tornando socialmente “custosa”: não é a mesma coisa aprovar uma lei discretamente do que fazê-lo em um clima de greve geral, conflito visível e amplo debate público. Nesse sentido, a votação no Senado em 12 de fevereiro e a greve do dia 19 sugerem que, mesmo com instituições alinhadas, as ruas não estão totalmente anestesiadas, embora seu potencial não esteja concentrado (ou esteja “subutilizado”).

O segundo sinal é que o programa econômico tende a corroer a base material do consentimento. Se a atividade industrial cai, se o consumo não decola de forma robusta e se os salários sistematicamente ficam atrás dos preços novamente, o “contrato” implícito da ofensiva — arcar com custos hoje para ganhar amanhã — torna-se cada vez menos crível para amplos segmentos da população. Embora a credibilidade não desmorone da noite para o dia: ela pode se transformar em “não há alternativa”, e essa forma cinzenta de consentimento negativo também existe.

E a terceira é que as divisões dentro do setor empresarial deixam de ser meros sussurros. Quando a reestruturação afeta setores industriais-chave, a disputa dentro do bloco dominante torna-se pública: não necessariamente contra a reforma trabalhista, mas contra a direção econômica e, sobretudo, seu ritmo. Esse tipo de fratura enfraquece a capacidade do governo de "garantir o que foi conquistado", que é precisamente um dos custos que Clausewitz atribuiria ao agressor.

Neste ponto, a conclusão não deve soar como uma profecia, mas sim como um alerta estratégico. Às vezes, a "elite" aprova leis que já estão obsoletas desde o início. Não porque o Congresso seja um museu — embora às vezes pareça ser —, mas porque a política institucional pode estar em desacordo com o sentimento público: ela legisla para trazer ordem a um país que já está se desintegrando por outros meios. Na Argentina, essa desconexão tem uma longa tradição: as leis são publicadas no Diário Oficial, mas seu destino é decidido na arena onde o papel se torna realidade — na fábrica, na rua, nos tribunais, nos bolsos das pessoas, através da paciência.

Portanto, se analisarmos o quadro geral, a aprovação da reforma — caso seja concluída no Senado — será uma vitória para o governo. Mas é melhor interpretá-la com menos alarde e mais distanciamento: o partido governante obtém um texto e ganha tempo; a sociedade decidirá no próximo mandato se esse texto governará. E nessa distância (entre a lei e a vida) muitas vezes se esconde o "ponto culminante": não tanto o momento em que o poder cai, mas o instante em que começa a perceber que ganhar uma votação não significa necessariamente ganhar um país.

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