A contribuição de Fritz Lobinger para uma Igreja sinodal: participação em vez de passividade. Artigo de Georg von Fürstenberg e Michael Wüstenberg

Fritz Lobinger | Foto: Assessoria de imprensa da Diocese de Regensburg

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21 Fevereiro 2026

Dom Fritz Lobinger "queria convidar as pessoas a contribuírem para a construção da Igreja. Ele o fez em todo o mundo, fiel ao seu lema episcopal: 'Mas todos vocês são irmãos e irmãs'. Esse provavelmente é o balanço de uma vida plena, na qual muitos sonhos permaneceram por realizar", escrevem Georg von Fürstenberg Michael Wüstenberg, publicada por Herder, fevereiro 2026. A tradução é de Luisa Rabolini.

Gregor Freiherr von Fürstenberg nasceu em 1965 e é vice-presidente da Sociedade Missionária Católica Internacional "Missio" desde 2004. Ele possui diplomas em teologia, administração de empresas e sociologia, e é membro do Comitê Central dos Católicos Alemães.

Michael Wüstenberg nasceu em 1954 e é assistente espiritual diocesano para o Malteser-Hilfsdienst (serviço de ajuda maltês) na Diocese de Hildesheim desde 2020. De 2007 a 2017, foi bispo da Diocese de Aliwal, na África do Sul. Obteve um doutorado na África do Sul sobre colaboração com os leigos. Originalmente sacerdote na Diocese de Hildesheim, foi exonerado pelo Bispo Homeyer para se dedicar à missão. Após anos de trabalho paroquial na Diocese de Aliwal, ele foi chamado primeiro para o Instituto Lumko e depois para o seminário em Pretória.

Eis o artigo.

Dom Fritz Lobinger é considerado um pioneiro (ideólogo) de uma Igreja participativa. Com suas ideias de "Pequenas Comunidades Cristãs" e "Compartilhamento da Bíblia" (Bibel-Teilen), deu impulsos em nível global para uma prática viva da fé.

O Bispo nunca foi diretor do "Instituto Missiológico Lumko" na África do Sul. como muitos acreditam. Ele nunca quis ser diretor. Seu objetivo era promover mudanças, e para isso precisava de tempo, também para o enriquecimento mútuo da Igreja universal. “Examinem tudo; retenham o que é bom” (1 Tessalonicenses 5,21) poderia ser considerada a missão de sua vida. Ele cumpriu essa missão como precursor (como pensador e executor) da Igreja do amanhã. Nascido em Passau, passou quase 70 anos como missionário na África do Sul, 20 dos quais como bispo do Cabo Oriental. Faleceu em Pretória, em 3 de agosto de 2025, aos 96 anos.

Lobinger tornou-se famosos internacionalmente graças a seu trabalho pastoral pioneiro com as “Pequenas Comunidades Cristãs” e o “Compartilhamento da Bíblia” como método para fazer crescer uma comunidade de fé fundamentada na Bíblia. Assim como Oswald Hirmer e outros clérigos, participou do desenvolvimento do Instituto Lumko na década de 1970. Todos compartilhavam o entusiasmo pela visão inovadora do Concílio Vaticano II. O apelo por melhorias nacia do trabalho prático com os fiéis, não de um projeto abstrato e teórico. O "método Lumko" visava capacitar os crentes "comuns" a compreender e moldar suas vidas à luz da fé de forma autônoma. Durante o compartilhamento da Bíblia, todos os participantes — mesmo sem conhecimentos teológicos prévios — trocam suas impressões sobre uma passagem das Escrituras e, juntos, buscam o significado do texto bíblico para o seu dia a dia. Esse formato de fácil acesso se espalhou por todo o mundo.

Por meio do Instituto Lumko, do Centro Bukal ng Tipan de Manila e de inúmeras viagens de encontro organizadas pela Missio Aachen, os materiais do método Lumko também chegaram à Alemanha. No entanto, não obtiveram sucesso. Olhando para trás, pode-se afirmar que as pequenas comunidades cristãs podem ser bem-sucedidas se forem especificamente promovidas por uma diocese como modelo de base. Em muitas dioceses africanas e asiáticas, elas estão, portanto, firmemente ancoradas no plano pastoral. Dessas comunidades, muitas vezes emergem líderes voluntários. O resultado é a participação de muitos, não apenas de indivíduos.

Hoje, diante do drástico declínio no número de sacerdotes, esse modelo poderia representar uma opção com grande potencial. Os "trabalhadores em tempo integral (na Igreja)" deveriam agora assumir as tarefas dos sacerdotes e, assim, tornarem-se "jogadores em campo"? Se com a visão Lumko se afirma que o objetivo é uma Igreja participativa, os profissionais seriam ideais como "treinadores" ou facilitadores bem formados, capacitando as pessoas a se prepararem para assumir diversos serviços, como presidir a missa dominical, acompanhar no luto ou presidir a celebração dos funerais.

A possível transformação rápida dos "trabalhadores em tempo integral na Igreja" de "jogadores em campo" para "treinadores" seria um desafio, sem o qual, porém, a participação em larga escala do povo de Deus seria sufocada na raíz e o capital dos talentos seria desperdiçado.

Como um "semeador", Fritz Lobinger deixou sua marca na Igreja local alemã, embora os ambientes eclesiásticos na Europa inicialmente se mostrassem céticos em relação às abordagens das comunidades de base. Nas décadas de 1970 e 1980, termos como "comunidade de base" pareciam carregar forte conotação ideológica para muitos. Contudo, os impulsos do Lumko gradualmente encontraram seu caminho para a Alemanha. Alguns compreenderam o que realmente se entende por "base": em uma perspectiva eclesial global, "base" significa não apenas a pequena unidade local, mas sobretudo que as comunidades conectam as questões fundamentais de suas vidas com a fé de uma maneira vivificadora.

A partir da década de 2010, o conceito de "desenvolvimento eclesial local" se afirmou em diversas dioceses alemãs. Criou-se uma rede de pessoas engajadas nas dioceses com o objetivo de entender como transferir a concepção da Igreja da pastoral africana para o o contexto centro-europeu. Não se tratava de uma simples cópia, mas sim uma inculturação inteligente de atitudes espirituais fundamentais, como a orientação bíblica, a comunidade e a participação. A Igreja local precisava ser repensada, partindo da vocação de todos os batizados e da presença de Deus entre os homens. Em termos concretos, isso significava envolver os fiéis de forma muito mais intensa na responsabilidade.

Nesse contexto, algumas dioceses alemãs ousaram explorar novos caminhos. Surgiram pequenos grupos de celebração da Palavra de Deus, círculos de oração de bairro ou familiares. Não se tratava de introduzir novas estruturas "de cima", mas de iniciar um processo espiritual. A Igreja devia crescer de baixo, a partir da fé e da vida das pessoas. Isso reflete os princípios fundamentais de Lobinger. O foco estava no essencial: Cristo e sua Palavra como centro de todas as atividades.

As pessoas deveriam estar no centro, e não primariamente as instituições ou as estruturas. Além disso, a abordagem se baseia num voluntariado orientado aos carismas: os dons e as capacidades dos fiéis determinam as tarefas que eles assumem, incluindo a liderança da comunidade por leigos. O lema de Lobinger era: "A Igreja está a serviço das pessoas — aqui e agora, em todos os lugares, moldada pelos próprios fiéis".

A comunidade como povo de Deus em caminho

Um dos pilares da abordagem de Lumko era a comunidade como, segundo Lobinger, um campo de força para o indivíduo. O intenso vínculo espiritual das Pequenas Comunidades Cristãs também foi retomado na Alemanha. A rede de renovação pastoral na Alemanha manteve intensa troca com parceiros na África e na Ásia.

A Lumko representa uma teologia e uma pastoral que concebe a Igreja não como um sistema rígido, mas como um povo de Deus em crescimento e em aprendizado. Essa concepção transformou muitas coisas nesse país. O desenvolvimento pastoral não é mais visto apenas como uma questão estrutural, mas também, cada vez mais, como um processo espiritual. Muito do que antes parecia novo e desconhecido agora é dado como certo: em muitas paróquias alemãs, os leigos assumem tarefas com base em seus carismas, incluindo a liderança comunitária, por exemplo, como coordenadores pastorais ou membros de grupos de direção.

As abordagens das comunidades de base podem oferecer perspectivas para o futuro. Elas oferecem o que tende a desaparecer nas grandes paróquias anônimas: proximidade pessoal, oração compartilhada e apoio mútuo. Talvez a introdução das comunidades de partilha da Bíblia, há alguns anos, possa ter sido um pouco difícil. No entanto, dada a importância que ele atribuía à participação, apesar das diversas dificuldades no campo, Lobinger sempre se mostrou aberto a adaptações criativas: se algo não funciona como planejado, é preciso tentar algo diferente. Ele não era, de forma alguma, um ideólogo. Nos debates atuais sobre a reforma – cuja palavra-chave é "caminho sinodal" – enfatiza-se a necessidade de soluções locais. O Papa Francisco encorajou a Igreja a seguir caminhos regionais diferentes e a dar espaço à diversidade. A confiança na forma própria da Igreja local e no povo de Deus como sua força motriz também é o princípio orientador da abordagem de Lobinger. Muito antes da "sinodalidade" se tornar uma palavra de ordem, ele vivia na África do Sul uma liderança eclesial sinodal e colaborativa. Para Lobinger, assumir responsabilidade de forma compartilhada era tão importante quanto o crescimento espiritual dos líderes.

Muitos dos impulsos de Lobinger só gradualmente começam a ter um efeito sobre nós, mesmo que os frutos não tenham sido associados a ele. Para ele, era importante que o Evangelho, com seu poder libertador, impactasse a vida das pessoas. Justamente à luz dos desafios atuais, vemos o valor da visão de uma Igreja local na qual existe uma rede de relações espirituais unificadoras. O teste final talvez poderia consistir na seguinte pergunta: onde se vive e se aprecia um fundamento espiritual comum, especialmente no diálogo entre pessoas com ideias diferentes?

Estrutura espiritual para reflexões estruturais

Os materiais de Lobinger sobre o crescimento espiritual, especialmente dos líderes, foram uma fonte de inspiração, mas receberam pouca atenção. O pleno desenvolvimento da oferta espiritual inclui a celebração da Eucaristia, que está ameaçada de "extinção" em diferentes graus em todo o mundo.

Uma abordagem na visão de Lobinger, que ele estudou e desenvolveu com perseverança, consistia na ordenação de pessoas que tinham se mostrado válidas em suas comunidades, de Teams of Elders [grupos de idosos, ou seja, presbíteros!], para tornar possível essa celebração. Para ele, um requisito necessário para a ordenação era a presença de "comunidades consolidadas" nas quais houvesse entusiasmo pela vida de fé. Onde os fiéis (que, como um todo, não podem errar) vivem e moldam a comunidade eclesial como "sua", haverá também pessoas idôneas que poderão ser nomeadas por suas comunidades e capacitados para se tornarem Teams of Elders.

Na Alemanha, não existe uma "cultura" de Pequenas Comunidades Cristãs, mas, graças aos contatos dentro da Igreja universal, está ocorrendo um certo movimento nesse sentido. A Diocese de Hildesheim desenvolveu um modelo orientador intitulado "Companheira de viagem para uma vida plena", que conecta a história de Emaús e a missão do Evangelho para uma "vida plena". Dessa forma, todas as considerações estruturais são colocadas em um contexto espiritual. A reflexão sobre o futuro das comunidades deve ter um ponto de partida espiritual.

Lobinger queria convidar as pessoas a contribuírem para a construção da Igreja. Ele o fez em todo o mundo, fiel ao seu lema episcopal: "Mas todos vocês são irmãos e irmãs". Esse provavelmente é o balanço de uma vida plena, na qual muitos sonhos permaneceram por realizar.

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