O que está acontecendo com a Vida Religiosa Consagrada? Parte I: Perspectivas pré-conciliares. Artigo de Ademir Guedes Azevedo

Foto: Vatican Media

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21 Fevereiro 2026

"No período pré-conciliar, espiritualidade, fraternidade e missão se estruturavam como heranças históricas da vida consagrada, marcadas pela busca de perfeição, pela disciplina comunitária e pela criação de obras específicas de assistência e evangelização", escreve Ademir Guedes Azevedo, padre, missionário passionista e mestre em teologia fundamental pela Pontifícia Universidade Gregoriana, em artigo enviado ao Instituto Humanitas Unisinos – IHU.

Eis o artigo.

A fenomenologia, desenvolvida pelo filósofo alemão Edmund Husserl, oferece uma intuição metodológica fecunda para a interação com a realidade: a chamada redução fenomenológica. Trata-se de permitir que a consciência analise o real, suspendendo juízos prévios e preconcebidos, de modo que a realidade se manifeste em sua própria verdade, como fenômeno a ser contemplado sem acréscimos de ideias pré-concebidas. É, portanto, a experiência de acolher na consciência a “coisa em si”, aquilo que Husserl denominava redução eidética: a busca pela essência (eidos).

Neste artigo, essa abordagem é aplicada à Vida Religiosa Consagrada (VRC). A questão central que se coloca é: o que está acontecendo atualmente com ela? Como interpretá-la em sua essência?

Diversas análises já foram realizadas sobre a vida consagrada. Discute-se seu futuro e a diminuição de membros, sobretudo em contextos onde a credibilidade da Igreja se enfraqueceu. Para recuperar a identidade, são propostas práticas tradicionais: maior vida conventual, horários rigorosos, fortalecimento da comunidade, cursos de espiritualidade e estudo dos textos fundacionais. Todas essas preocupações são legítimas. O olhar para essa herança do passado sustentava a convicção de que a vida consagrada era, de fato, uma escola de santidade. Mas qual é o novo sentido que isso assume hoje?

Nesta primeira parte, será apresentada uma síntese, no contexto pré-Vaticano II, das três dimensões fundamentais que estruturam a Vida Religiosa Consagrada: espiritualidade, fraternidade e missão.

I - A espiritualidade representa o primeiro ciclo da vida consagrada, o monaquismo. Consiste no desejo de conhecer e amar mais a Deus num estado de solidão extrema, como fizeram os primeiros padres do deserto. Ali quiseram ouvir a Deus e, na sua obediência, contestar a distância do Evangelho que a instituição eclesial vinha experimentando graças ao seu excesso de poder e de esplendor humano. Os monges na solidão diziam com o seu testemunho: Deus é o absoluto e só religando-se a Ele seria possível retornar à fonte do cristianismo.

II - A fraternidade tem suas raízes na forma cenobítica, quando os monges passaram a conviver em uma comunidade regida por uma regra e sob a direção de um pai espiritual, o Abade. Essa fraternidade ganhou grande expressão com o segundo ciclo da vida religiosa, os frades mendicantes, que tiveram destaque na Idade Média com o nascimento dos franciscanos, carmelitas, dominicanos e tantas outras ordens. Diferentemente dos monges que viviam a fraternidade entre os muros do mosteiro, os frades mendicantes expandiram essa experiência na forma de vida itinerante.

III - A missão surgiu para interpretar a fase histórica do terceiro ciclo da vida consagrada, na Idade Moderna. Era entendida como responsabilidade diante de necessidades humanas específicas, por isso surgiram congregações dedicadas à saúde, à educação, aos migrantes, às prostitutas, aos surdos-mudos. A missão era encarada como construção de estruturas onde tais pessoas seriam acolhidas e integradas a partir do carisma próprio de cada instituto.

Assim, no período pré-conciliar, espiritualidade, fraternidade e missão se estruturavam como heranças históricas da vida consagrada, marcadas pela busca de perfeição, pela disciplina comunitária e pela criação de obras específicas de assistência e evangelização.

Este modelo ainda subsiste? Faz sentido ainda continuar com estes três modos originais? Com o Concílio Vaticano II (1962-1965) algo foi modificado? Existe uma teologia que repropôs este esquema clássico? Se sim, quais foram as alterações assumidas e quais foram os impactos concretos gerados nos consagrados? Estas perguntas iluminam o próximo artigo...aguarde!

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