24 Fevereiro 2026
"A tragédia dos curdos é causada não apenas pelas armas que os alvejam, mas também pelo silêncio que os cerca. Nenhuma sanção eficaz, nenhuma proteção real, nenhuma pressão política crível", escreve Umberto De Giovannangeli, em artigo publicado por l'Unità, 11-02-2026. A tradução é de Luisa Rabolini.
Eis o artigo.
Vocês se lembram de Kobane? Da luta heroica das milícias curdas contra as forças nazistas-islâmicas do Isis. E depois da traição do Ocidente, com a luz verde dada aos exércitos turcos, apoiados pelos assassinos da Al-Qaeda, para eliminar em banhos de sangue a extraordinária experiência democrática no Rojava? Mas há quem não esquece aquele povo e sua excepcional resiliência.
Roma às ruas pelo Rojava. A nova mobilização acontecerá no sábado, 14 de fevereiro, a partir das 14h30. A Piazza Indipendenza será o ponto de partida da marcha promovida por associações curdas e grupos políticos e sindicais italianos para pedir a defesa do Rojava e a libertação de Abdullah Öcalan. O dia de solidariedade com o povo curdo também acontecerá simultaneamente em Milão, com concentração no Largo Cairoli, e visa chamar a atenção para a situação cada vez mais crítica no nordeste da Síria.
Kobane está novamente sitiada. Há onze anos, era o Isis que sitiava a cidade símbolo da resistência curda; hoje, são as forças do novo governo sírio, apoiadas por milícias pró-turcas, que estão bloqueando todas as rotas de fuga. Os atores mudam, mas não a lógica: apagar a experiência política curda e reduzi-la a um parêntese a ser arquivada à força.
A retirada forçada das Forças Democráticas Sírias (FDS) de Raqqa, Tabqa e Deir ez-Zor reduziu drasticamente o território administrado pela Administração Autônoma Democrática do Nordeste da Síria (Daanes). Kobane está hoje sem eletricidade, água, aquecimento, combustível e acesso à internet, enquanto milhares de civis das aldeias vizinhas buscaram refúgio na cidade, agravando uma situação já precária. Crianças, idosos e famílias dormem ao relento ou em tendas improvisadas, enquanto os serviços de saúde funcionam sem energia.
As FDS continuam a defender a população civil e a garantir a custódia dos prisioneiros do Isis, mas o colapso das prisões e dos campos corre o risco de favorecer fugas em massa e a reorganização das células jihadistas, comprometendo a estabilidade regional e a segurança internacional.
Na base da Daanes está o Confederalismo Democrático, o projeto político desenvolvido por Abdullah Öcalan, o líder histórico do movimento curdo. Sua visão rejeita o Estado-nação como instrumento de opressão e defende autonomias locais, conselhos populares, igualdade de gênero, economia cooperativa e autodefesa comunitária. Esse modelo inspirou a construção de uma Síria plural, onde curdos, árabes, cristãos, yazidis e outras minorias coabitaram, experimentando formas de democracia direta e convivência entre diferentes identidades. Foi aqui que o Isis foi derrotado, ao custo de milhares de vidas, demonstrando que um Oriente Médio livre e democrático é possível.
A revolução do Rojava e a experiência de autogoverno estão hoje ameaçadas não apenas por ofensivas militares, mas também pela inércia da comunidade internacional, que observa enquanto cidades como Kobane são isoladas e privadas de serviços essenciais. Nesse contexto, a libertação de Abdullah Öcalan se torna fundamental. Desde 1999, Öcalan está sendo mantido em isolamento na ilha-prisão de Imrali. Sua detenção não só constitui uma violação dos direitos humanos, como também um obstáculo à paz e à resolução da questão curda em cada um dos países em que o Curdistão está dividido. Öcalan tem proposto repetidamente soluções políticas e negociações para o reconhecimento dos direitos curdos nos países em que vivem, e sua libertação é um passo crucial para sustentar o autogoverno do Rojava e as perspectivas de estabilidade regional. Além disso, o líder curdo demonstrou sua disposição de pôr fim ao conflito mais uma vez em 27 de fevereiro passado, abrindo caminho para um novo processo de paz com a dissolução do PKK. Esse processo está agora mais frágil do que nunca.
Mas, como no passado, a resistência continua. Em Kobane, a população civil se mobiliza para defender a cidade, com mulheres e homens, curdos e yazidis, armênios e sírios apoiando a defesa dos bairros.
O que está em jogo não é apenas um território, mas todo um modelo político: a possibilidade concreta de construir uma Síria democrática, plural e inclusiva que desafie o fundamentalismo e o centralismo autoritário.
“Nossa luta foi marcada por grande sofrimento. Para nós, mulheres, tornou-se extremamente importante nos libertarmos da mentalidade monocrômica e centralizadora dos homens. E criar um Estado pluralista e não centralizado, no qual todos os gêneros tenham voz e sejam parceiros e colaboradores na vida. O lema Mulher, Vida, Liberdade não surgiu do nada.” Foi o que disse Viyan Adar, comandante curda de um dos batalhões femininos (conhecidos como Unidades de Proteção das Mulheres, ou YPJ, sigla para Yekîneyên Parastina Jin) das FDS, ao repórter britânico Ross Domoney em um curta-metragem para o portal de notícias digital The Real News Network, publicado em 5 de fevereiro, sobre a revolução liderada por mulheres na região do Rojava. A comandante reivindicou o valor da multietnicidade das Forças Democráticas da Síria e expressou a esperança de que as conquistas da autonomia governamental e da igualdade de gênero não sejam destruídas na nova Síria de Ahmed Al-Sharaa. “Sabemos que, antes de sermos curdos, somos seres humanos: cristãos, armênios, turcomanos, árabes... Deveríamos viver juntos como seres humanos, não como nações, mesmo com religiões diferentes.”
A entrevista, realizada em uma base secreta no nordeste da Síria, foi gravada poucos dias antes do acordo entre o governo de Damasco e as forças que governam a região, um acordo que, essencialmente, restabeleceu a soberania do governo central sobre toda a área. Tudo sob a proteção dos Estados Unidos. Uma longa conversa telefônica ocorreu em 22 de janeiro de 2026 entre o comandante do Centcom, o Comando Central das Forças Armadas dos EUA responsável pelo Oriente Médio, General Michael Erik Kurilla, e o presidente sírio Ahmed Al Sharaa, ex-líder de milícia sunita, suspeito de ligações com a Al-Qaeda, que assumiu o cargo em Damasco em dezembro de 2024, após derrotar os últimos remanescentes do regime baathista de Bashar al-Assad, o “carniceiro de Damasco”, que acabou fugindo para a Rússia.
Foi mais uma demonstração de que os Estados Unidos decidiram apostar no governo sírio e em seu aliado, a Turquia, que o apoia e manipula, para estabilizar a Síria, sacrificando as áreas autônomas curdas.
Mais uma traição de um traidor contumaz.
Os EUA armaram, treinaram e apoiaram os curdos como força terrestre contra o Isis. Depois, uma vez concluída a missão, os abandonaram.
A retirada militar estadunidense não foi um ato neutro: abriu caminho para novas ofensivas, repressões e bombardeios. Enviou uma mensagem inequívoca: aqueles que lutam pelo Ocidente são descartáveis. Para os curdos, não se trata apenas de um fracasso político, mas uma traição histórica.
Enquanto isso, localmente, a tragédia humanitária continua. Enquanto se discutem acordos e "integrações", bairros civis são bombardeados, aldeias arrasadas, hospitais e escolas danificados. Crianças são mortas, mutiladas, traumatizadas. Famílias inteiras dizimadas. Milhares de crianças crescem sem educação, sem cuidados, sem futuro, presas em campos superlotados ou forçadas a fugir. Essa não é uma consequência inevitável da guerra: é violência estrutural contra uma população civil.
Em muitas áreas, as operações militares e as repressões assumem a aparência de um extermínio silencioso: execuções sumárias, prisões arbitrárias, desaparecimentos forçados, transferências forçadas. Tudo em violação do direito internacional humanitário. Tudo diante dos olhos do mundo.
A tragédia dos curdos é causada não apenas pelas armas que os alvejam, mas também pelo silêncio que os cerca. Nenhuma sanção eficaz, nenhuma proteção real, nenhuma pressão política crível.
Aqueles que ontem os celebravam como heróis na luta contra o Isis hoje os consideram um problema a ser administrado ou, mais simplesmente, ignorado. Esse silêncio não é neutro: é cumplicidade por omissão.
Mas são muitas e muitos que não esquecem Kobane e a luta de libertação de um povo "esquecido, traído, mas nunca domado". Eles o lembrarão em Roma e Milão no próximo sábado.
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