A tarefa transatlântica de Leão. Artigo de Massimo Faggioli

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18 Fevereiro 2026

Um papa nascido nos EUA enfrenta a nova postura de seu país natal em relação à Europa.

O artigo é de Massimo Faggioli, professor de eclesiologia no Trinity College Dublin, publicado por Commonweal, 14-02-2026.

Seu livro sobre o Papa Leão XIV será publicado em inglês pela Liturgical Press no outono de 2026.

Eis o artigo.

Havia rumores de que Leão XIV viajaria para seu país natal este ano, talvez para uma parada na ONU, entre outros lugares. Mas o Papa, nascido nos EUA, não visitará os Estados Unidos tão cedo, conforme confirmado recentemente pelo Vaticano. João Paulo II e Bento XVI visitaram seus países de origem dentro de um ano após suas eleições (embora Francisco nunca tenha ido à Argentina). Até o momento, Leão ainda não viajou pela Europa, nem mesmo para outras cidades italianas, enquanto seu relacionamento com a cidade de Roma ainda está se consolidando, com visitas previstas a cinco paróquias durante a Quaresma.

Entre suas muitas outras tarefas, Leão XIII também se vê obrigado a lidar com a relação em constante transformação entre os Estados Unidos e a Europa, bem como com a questão da identidade europeia, à medida que Donald Trump desmantela a ordem internacional que uniu o continente aos EUA por cerca de setenta e cinco anos. Os Estados Unidos simplesmente não são mais a figurativa “Europa fora da Europa” que os europeus gostavam de imaginar. Essa mudança já era perceptível sob o pontificado de Francisco, mas, desde o retorno de Trump e a eleição de Leão XVI, a situação se tornou consideravelmente mais complexa.

A eleição de Leão XIV deve ser vista como parte da trajetória de crescente desproporção do papado em relação à Europa e da expansão cada vez maior da Igreja para o âmbito global. Enquanto o Papa Francisco tinha raízes muito visíveis na cultura italiana, o mesmo não se pode dizer de seu sucessor, que personifica um papado mais profundamente pós-italiano e pós-europeu. Isso marca um distanciamento entre o papado e a Europa, que para o catolicismo não é apenas um continente, mas que por muitos séculos também tem sido um ponto de referência para o imaginário cultural, político e geográfico dos papas, incluindo João Paulo II e Bento XVI.

Nos seus primeiros nove meses como papa, Leão XIV — bispo de Roma, primaz da Itália e “Patriarca do Ocidente” — abordou a questão do papel da Europa na Igreja e no mundo apenas marginalmente. Em maio passado, recebeu os prelados do comitê permanente da COMECE (Comissão das Conferências Episcopais da União Europeia), onde, segundo relatos, discutiram a questão do rearme da Europa. Em setembro, numa conversa com jornalistas nos arredores de Castel Gandolfo, disse sobre a guerra na Ucrânia: “Se a Europa estivesse verdadeiramente unida, acredito que poderia fazer muito”. Quando questionado sobre a necessidade do rearme, respondeu: “São questões políticas, também influenciadas pela pressão externa sobre a Europa. Prefiro não comentar”. Em declarações a jornalistas em dezembro, afirmou que a aliança histórica entre a Europa e os Estados Unidos pode “infelizmente” estar mudando: “Uma grande mudança no que foi, durante muitos e muitos anos, uma verdadeira aliança entre a Europa e os Estados Unidos”. Além disso, ele disse que alguns comentários do presidente Trump sugerem uma tentativa de "desmantelar o que eu acredito que precisa ser uma aliança hoje e no futuro". Admitindo que algumas pessoas nos Estados Unidos possam concordar com essa tentativa, Leão disse: "Acho que muitas outras veriam as coisas de uma maneira diferente".

Em seguida, num discurso proferido em janeiro ao corpo diplomático, Leão mencionou a Europa em relação às Américas: “Não devemos esquecer uma forma subtil de discriminação religiosa contra os cristãos, que se alastra mesmo em países onde são maioria, como na Europa ou nas Américas. Nesses países, por vezes, a sua capacidade de proclamar as verdades do Evangelho é restringida por razões políticas ou ideológicas, especialmente quando defendem a dignidade dos mais vulneráveis, dos nascituros, dos refugiados e migrantes, ou promovem a família”. E falou indiretamente sobre as tensões entre os Estados Unidos e a Europa relativamente à Groelândia: “No nosso tempo, a fragilidade do multilateralismo é uma causa de particular preocupação a nível internacional. Uma diplomacia que promove o diálogo e procura o consenso entre todas as partes está a ser substituída por uma diplomacia baseada na força, seja por parte de indivíduos, seja por parte de grupos de aliados”.

Estima-se que, até 2100, a participação da Europa na população mundial terá caído de 12% para 6%. Mas a crise do continente não é meramente demográfica ou resultado da secularização; é também uma crise de vocação política. A Europa já não é vista, nem mesmo por muitos europeus, como “a nossa casa comum”, como Mikhail Gorbachev a chamou certa vez. É ainda menos um espaço contínuo “do Atlântico aos Urais”, como João Paulo II a descreveu. Ambos viam o futuro da Europa como unificado, não como parte de um sistema baseado em blocos e esferas de influência.

Além disso, a União Europeia já não inclui o Reino Unido, sente-se abandonada pelos Estados Unidos e, especialmente desde o início da guerra na Ucrânia, sente-se ameaçada por Moscou. A invasão russa de um Estado soberano também tem dimensões religiosas — principalmente a cisão dentro das igrejas ortodoxas entre o Patriarcado Ecumênico de Constantinopla e o Patriarcado de Moscou, mas também as repercussões para os católicos na Ucrânia e na Europa, e nas relações internacionais e ecumênicas. Embora Leão pareça expressar uma visão geopolítica “atlanticista” que lembra o catolicismo americano e europeu do pós-1945, a Europa ainda parece sentir-se órfã num papado cada vez mais anglófono e pós-europeu — agravado pela projeção do catolicismo MAGA no Velho Continente, cujas igrejas parecem carecer de uma energia correspondente. Entretanto, o governo de Giorgia Meloni trabalha para se adaptar às mudanças e explosões imprevisíveis de Trump, mas esse não é o caso da França e da Alemanha.

Em comparação com seus dois antecessores, nascidos e criados no continente, o Papa Francisco tinha uma ligação menos direta com a Europa. Mas ela permaneceu um importante ponto de referência, especialmente para sua compreensão das relações entre Igreja e Estado, fundamentalmente diferente da ascensão do integralismo no catolicismo de direita nos EUA. Em 2020, ele confiou uma carta ao Secretário de Estado, Cardeal Pietro Parolin, na qual falava de seu “sonho de uma Europa marcada por um laicismo saudável, onde Deus e César permaneçam distintos, mas não opostos”.

Resta saber como Leão XIV irá navegar entre um catolicismo anglo-americano que adota posições estridentes contra a Europa e uma Igreja Católica europeia incapaz de expressar uma voz europeia distinta (afinal, não existe uma verdadeira conferência episcopal em nível continental ou algo comparável ao CELAM na América Latina). O catolicismo europeu enfrenta o desafio de se redescobrir à medida que a antiga ordem internacional se desfaz. A antiga questão de como deveria ser a Ostpolitik do Vaticano durante a era soviética tornou-se um tanto irrelevante após o colapso da União Soviética. A nova questão é como deveria ser a Westpolitik. A geopolítica de Francisco coincidiu com o declínio de uma ordem neoliberal que havia levado às injustiças econômicas, sociais e ambientais contra as quais ele protestava. Mas, desde a eleição de Leão XIV, a ruptura do sistema de relações entre os Estados e as instituições internacionais só se acelerou. Para Leão XIV, que parece ter uma visão mais tradicional e menos ativista do que Francisco, isso poderá representar um desafio.

A situação que a Europa e o catolicismo europeu enfrentam neste momento também levanta questões sobre o acesso a recursos e à tradição. O papado se baseia em uma tradição — teológica, institucional, simbólica — nascida na Europa há muitos séculos, e, em sua abordagem hostil à Europa, o movimento MAGA de Trump está atacando essa tradição. Mas o Vaticano também entende que Trump levantou questões incômodas para a Europa sobre sua identidade de uma forma que nenhum presidente dos EUA havia feito antes — aliás, de uma forma que a própria Europa não fazia desde o fim da Guerra Fria.

Um papado que se opusesse direta e explicitamente ao nacionalismo branco e ao "cristianismo" manipulador de Trump também poderia ser interpretado como a defesa de uma democracia liberal europeia, cuja aceitação pela doutrina católica é repleta de ressalvas e advertências. O papado de Leão XIV encontra-se dividido entre a emancipação pós-europeia e pós-colonial do catolicismo global, o antieuropeísmo agressivo do trumpismo e a emancipação em curso do velho continente de suas raízes cristãs — pelo menos em sua forma europeia-ocidental. (Embora o número de batismos de adultos esteja aumentando em alguns países europeus, isso afetará mais o âmbito eclesial do que o político, pelo menos por enquanto.) Com o governo Trump empenhado em minar a União Europeia — um projeto para o qual o Vaticano contribuiu após a Segunda Guerra Mundial —, Leão XIV, nascido nos EUA, enfrenta uma situação complexa ao navegar pela relação entre a Europa e seu país natal.