A renda básica como vacina democrática

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13 Fevereiro 2026

“Se quisermos sair deste mundo trumpista, não basta denunciá-lo e gritar alto nas redes sociais. É necessário construir alternativas que devolvam às pessoas algo tão simples e radical como a segurança de existir sem medo. A renda básica é uma delas. E talvez não devêssemos continuar tratando-a como uma ideia excêntrica, mas como o que ela verdadeiramente é: uma vacina democrática”, escreve Julen Bollain, professor e pesquisador da Universidade de Mondragón e membro da Rede Renda Básica, em artigo publicado por Catalunya Plural, 06-02-2026. A tradução é do Cepat.

Eis o artigo.

O mundo não se tornou autoritário por acaso. Tornou-se autoritário porque muitas pessoas vivem com medo. Medo de perder o emprego, a casa, a renda, a dignidade. Nesse contexto, o trumpismo - entendido não como uma pessoa específica, mas como um clima político global - não é uma anomalia, mas uma resposta previsível à insegurança material crônica.

Quando a vida se torna uma constante corrida de obstáculos, a simples promessa de ordem, punição e inimigos claros é extremamente tentadora. E não porque é intelectualmente convincente, mas porque tranquiliza emocionalmente. É por isso que se quisermos entender por que as democracias atuais estão se deteriorando a um ritmo alarmante, devemos prestar menos atenção aos discursos pré-fabricados por assessores políticos sisudos e mais às condições materiais que levam a esta realidade.

O autoritarismo não avança só porque há mais ódio ou mais ignorância entre os cidadãos. Ele avança quando grandes segmentos da população sentem que não têm mais nada a perder. Quando qualquer imprevisto - uma doença, uma demissão, uma ruptura - pode precipitar uma queda sem proteção. É nesse cenário que a política deixa de ser um espaço de deliberação e se torna uma gestão permanente do medo.

E é justamente aqui que a renda básica deixa de ser mais uma política social e se revela algo muito mais profundo. Estamos falando de uma infraestrutura democrática que sustenta a liberdade material. Não uma varinha mágica, nem uma solução completa, mas uma condição material fundamental para que a democracia funcione além do ritual eleitoral.

Como já escrevemos em diversas ocasiões, a renda básica não é caridade, nem assistencialismo, nem prêmio ao (de)mérito. É um direito incondicional que garante a todos uma base material mínima sobre a qual construir seu projeto de vida. Seu efeito mais importante não é o consumo, nem sequer a redução da pobreza - isso também -, mas a redução da chantagem econômica que as pessoas enfrentam hoje em nossas sociedades. Porque uma sociedade na qual dizer “não” significa cair no vazio não é uma sociedade livre. É uma sociedade disciplinada pelo medo. Medo de perder o emprego, mesmo que seja um emprego em condições de merda. Medo de ser despejado, ao se opor a um locatário por um aumento abusivo. Medo de denunciar abusos. Medo de sair de um relacionamento insustentável. Medo de discordar politicamente. Medo, em suma, quando sua vida está por um fio.

E não nos enganemos. A renda básica não compra votos, como insistem em repetir alguns analistas de sofá, que confundem cinismo com lucidez. Ela compra poder de decisão. Compra tempo. Compra capacidade de discordar sem que sua vida desmorone. E tudo isso, em termos democráticos, é enormemente revolucionário.

Frente ao trumpismo - e suas muitas variações locais -, a renda básica representa um modelo político radicalmente diferente. O autoritarismo promete proteção, mas sempre em troca de obediência. Protege alguns contra outros, estabelece hierarquias morais e transforma a suspeita em princípio de governo. Divide entre aqueles que merecem e aqueles que não merecem. Entre os de dentro e os de fora. A renda básica, ao contrário, baseia-se em uma lógica completamente oposta. Fala em termos de segurança universal, de direitos incondicionais, de confiança. Não pergunta quem você é, de onde você vem ou o que você fez para merecer viver com dignidade. Assume que a dignidade não se ganha, garante-se.

Alguns nos chamarão de ingênuos por acreditarmos nas pessoas. Mas é puro realismo democrático. As sociedades que funcionam melhor não são as que mais punem, mas as que reduzem o medo estrutural que leva as pessoas a buscarem soluções autoritárias. É o que a história recente demonstra repetidamente. Quando a insegurança material se torna crônica, o terreno fica aberto para líderes que prometem ordem a qualquer preço. Mesmo que o preço a pagar seja nossos direitos e nossa liberdade.

Devemos estar cientes de que, em um mundo assolado por crises ecológicas, transformações tecnológicas e tensões geopolíticas, a tentação autoritária não desaparecerá sozinha. Ao contrário, irá se intensificar nos próximos anos. No entanto, pensar que tudo isso será resolvido com uma retórica melhor ou mais educação democrática é, no mínimo, ingenuidade. Porque sem uma base material para sustentar a liberdade, a democracia se esvazia por dentro.

A renda básica não é a solução para todos os nossos problemas. Mas sem ela - ou sem políticas que cumpram uma função semelhante de desmercantilização da vida – seguiremos tentando defender a democracia com ferramentas cada vez mais frágeis. E nessa arena, aqueles que governam pelo medo sempre levam vantagem. Se quisermos sair deste mundo trumpista, não basta denunciá-lo e gritar alto nas redes sociais. É necessário construir alternativas que devolvam às pessoas algo tão simples e radical como a segurança de existir sem medo. A renda básica é uma delas. E talvez não devêssemos continuar tratando-a como uma ideia excêntrica, mas como o que ela verdadeiramente é: uma vacina democrática.

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