"Podem derrubar os governos, mas não vencer um povo". Entrevista com Frei Betto

Mais Lidos

  • Os Estados Unidos e a Europa estão cortejando o Brasil por seus minerais críticos e elementos de terras raras

    LER MAIS
  • Trump esvazia ordem mundial e gera “momento nefasto” para as Américas. Entrevista com Guilherme Casarões

    LER MAIS
  • O Amor de Deus é insuficiente. Artigo de Matias Soares

    LER MAIS

Assine a Newsletter

Receba as notícias e atualizações do Instituto Humanitas Unisinos – IHU em primeira mão. Junte-se a nós!

Conheça nossa Política de Privacidade.

Revista ihu on-line

Natal. A poesia mística do Menino Deus no Brasil profundo

Edição: 558

Leia mais

O veneno automático e infinito do ódio e suas atualizações no século XXI

Edição: 557

Leia mais

Um caleidoscópio chamado Rio Grande do Sul

Edição: 556

Leia mais

10 Fevereiro 2026

Se os amigos se encontram no momento da necessidade, o profundo laço que une o escritor brasileiro e teólogo da libertação Frei Betto ao povo cubano passou por todos os testes. O autor do famoso livro Fidel e a religião, fruto de uma longa entrevista com Fidel Castro sobre cristianismo e revolução, frequenta a ilha caribenha há mais de quarenta anos – visitou-a seis vezes só em 2025 – e colabora com o governo desde 2019. Sua participação no Plano de Soberania Alimentar e Educação Nutricional (Plano San), apoiado pela FAO, teve origem em sua experiência no Brasil com o programa "Fome Zero" do primeiro governo Lula. Convencido de que, como já escreveu no passado, se o socialismo fracassar em Cuba, "será o fim de toda a esperança histórica da humanidade", o frade dominicano prontamente concordou em conversar conosco sobre o momento dramático atravessado pelo país.

A entrevista é de Claudia Fanti, publicada por Il Manifesto, 08-02-2026. A tradução é de Luisa Rabolini.

Eis a entrevista.

A assinatura, por Trump, de uma ordem executiva que ameaça com sanções a qualquer um que venda petróleo para Cuba é apenas o ato mais recente em um ataque incessante à ilha. Haverá um fim para tamanha intransigência?

A inclusão de Cuba na lista de países que promovem o terrorismo pelos governos Trump 1, Biden e Trump 2 já impactou severamente a economia da ilha. Basta dizer que turistas da Europa Ocidental que visitam o país serão considerados potenciais terroristas pela Casa Branca.

No entanto, Cuba é historicamente conhecida por sua luta contra o terrorismo. Nesse contexto, a maioria dos canais bancários para transações financeiras está bloqueada, prejudicando gravemente as importações — Cuba importa 80% dos alimentos que consome — e as exportações: níquel, tabaco, mel, rum, serviços médicos e educacionais. Toda a matriz energética de Cuba é baseada no petróleo, fornecido por três países que atualmente enfrentam dificuldades: Rússia, Irã e Venezuela. O México, é verdade, forneceu uma quantidade considerável de petróleo, totalizando 84.900 barris em janeiro passado. Mas, após a ordem executiva de Trump, tudo corre o risco de piorar. Embora Cuba consiga produzir pelo menos 30.000 barris de petróleo por dia, necessita de pelo menos 100.000. Assim, a escassez de energia causa frequentes apagões em todo o país, que impactam severamente a agricultura, os transportes, a indústria e o turismo. Certamente, neste momento histórico, a solidariedade com Cuba assume uma importância fundamental.

Qual é a situação atual do povo cubano?

Há um declínio nas condições de vida da população. Devido às dificuldades econômicas, o êxodo, especialmente de jovens, é intenso. Os salários se deterioraram. Há alimentos disponíveis nos mercados, mas a inflação está alta. As desigualdades entre a população estão aumentando: aqueles que recebem dólares ou euros do exterior, de familiares que emigraram, possuem poder aquisitivo que a maioria não tem. Apesar de tudo, o governo está adotando diversas medidas para lidar com a situação, e o povo demonstra uma heroica resiliência diante da crise. Com o Plano de Soberania Alimentar, estamos tentando substituir produtos importados, por exemplo, trocando o pão de trigo por pão de mandioca ou de milho, que o país produz. Nesse contexto, criamos os SALs (Sistemas Alimentares Locais), com pessoal capacitado para promover a produção agrícola em sentido agroecológico. Além disso, a China tem cooperado de forma exemplar com usinas de energias renováveis para a agricultura.

Frequentemente ouvimos falar de uma crescente repressão à discordância. Estaria em curso uma involução democrática?

Sob essa perspectiva, acredito que, ao contrário, houve uma evolução. O presidente Díaz-Canel criou um governo itinerante. Mensalmente, visita duas ou três províncias com seus ministros, dialogando com a população e buscando soluções locais para os diversos desafios. Há um apelo cada vez maior à participação popular.

Até onde pode ir a resiliência do povo cubano?

Cuba é um exemplo de resiliência e dignidade. Durante esses 67 anos de revolução, as dificuldades foram constantes, basta pensar na invasão da Baía dos Porcos em 1961, na crise dos mísseis em 1962, na guerra em Angola entre 1975 e 1991, no Período Especial entre 1991 e 1995 e, finalmente, no embargo imposto pelos EUA. Os cubanos se orgulham de sua independência e soberania. Eles não querem que o futuro do país seja o presente de Honduras ou Guatemala. São um povo educado e culto, com um notável talento artístico, especialmente no balé, nas artes plásticas e na literatura. Cuba foi o berço do mambo, da rumba, do chá-chá-chá, do danzón, da timba e da salsa. É inegável que muitos cubanos estão cansados das atuais dificuldades econômicas, mas todos sabem que uma Cuba capitalista inevitavelmente voltaria a ser o "bordel do Caribe", um foco de pobreza, drogas e criminalidade. As políticas governamentais beneficiam toda a população, não uma classe ou setor privilegiado. Os três direitos humanos fundamentais — alimentação, saúde e educação — são estruturalmente garantidos a todo o povo. O sistema de saúde é gratuito, assim como a educação, até o nível universitário. E toda família recebe uma cesta básica mensal, embora sua qualidade esteja comprometida pela crise que o país atravessa.

Trump declarou que Cuba "não sobreviverá". Existe esse perigo?

Haveria perigo se os Estados Unidos invadissem Cuba. No entanto, a Casa Branca aprendeu com a história que seu poderio militar é capaz de derrubar governos, não de derrotar um povo. E intervir em Cuba significa desafiar um povo. Acredito, sim, que o governo Trump intensificará suas ações terroristas, mas minha esperança é que o povo estadunidense se pronuncie contra o presidente nas eleições de meio de mandato, forçando-o a retroceder, e a certeza de que o multilateralismo acabará por prevalecer. Guardemos o pessimismo para dias melhores!