24 Janeiro 2026
“A realidade não cabe inteira na tela. Há dimensões da vida que só se revelam na presença, na lentidão, no contato. O mundo não precisa ser constantemente capturado; ele pede para ser vivido. E talvez o gesto mais radical hoje seja simples: levantar os olhos, guardar o celular por um instante e permitir que as coisas, finalmente, nos aconteçam”, escreve José F. Castillo Tapia, padre jesuíta que trabalha na Amazônia brasileira apoiando povos indígenas.
José F. Castillo Tapia é graduado em Filosofia e Teologia pela Pontifícia Universidade de Comillas e mestre em Teologia Sistemática pela Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia - FAJE de Belo Horizonte.
É autor de três edições do Cadernos Teologia Pública, intituladas O Rito Amazônico na Igreja Católica: contexto, desafios e propostas (nº 182, 2025), Ecologia integral e encarnação nos povos originários (nº 180, 2025) e “Quando tudo falava”: sabedoria wapichana e teologia, de Joice Alberto de Souza e José F. Castillo Tapia, Cadernos Teologia Pública, no. 185, 2026).
Eis o artigo.
Há algo profundamente simbólico na cena cotidiana de pessoas caminhando pelas ruas com o olhar fixo no celular. Não é apenas distração. É sinal de uma transformação mais profunda: o celular deixou de ser um objeto que usamos e passou a ser um meio através do qual vivemos a realidade. Hoje, não apenas comunicamos pela tela; percebemos, interpretamos e organizamos o mundo a partir dela. A realidade, cada vez mais, acontece mediada.
Isso significa que já não nos relacionamos diretamente com as coisas. O primeiro gesto diante de um acontecimento não é viver, mas registrar. O primeiro impulso diante do outro não é escutar, mas responder a uma mensagem. O tempo não é mais sentido em sua duração própria, mas fragmentado em notificações, alertas, vibrações. A tela se interpõe entre nós e o real, funcionando como filtro, moldura e critério de relevância.
Essa mediação altera profundamente o modo de ver. Olhar deixou de ser um ato demorado, atento, paciente. Tornou-se rápido, saltitante, superficial. Passamos imagens com o dedo, como quem passa páginas que nunca serão lidas. O mundo se apresenta em fragmentos descontínuos, sem contexto, sem continuidade. A experiência perde espessura; tudo se torna simultâneo, equivalente, nivelado.
O celular produz, assim, uma realidade sempre acessível, mas raramente habitada. Estamos informados sobre tudo, mas envolvidos com pouco. Sabemos o que acontece no mundo inteiro, mas mal percebemos o que acontece ao nosso lado. A proximidade digital convive com uma crescente distância existencial. Estamos conectados, mas não necessariamente presentes.
Essa mudança não afeta apenas nossa relação com o mundo exterior, mas também com o tempo. O celular impõe um regime de urgência permanente. Tudo pede resposta imediata. O silêncio parece atraso. A espera torna-se intolerável. No entanto, é justamente na demora que a experiência humana se aprofunda: na conversa sem pressa, na contemplação, na escuta que não busca logo uma réplica. Ao eliminar a espera, a tela empobrece o vivido.
Também a relação com o corpo se transforma. O corpo passa a ser suporte para a tela: olhos, mãos, postura, atenção, tudo se organiza em função do dispositivo. Caminhamos olhando para baixo. Sentamos juntos, mas cada um em seu mundo. O corpo do outro perde centralidade; torna-se menos interessante que o fluxo constante de estímulos digitais. O encontro físico, com sua imprevisibilidade e exigência, é substituído por interações controladas, editáveis, reversíveis.
Nesse contexto, a realidade precisa ser visível para existir. Aquilo que não aparece na tela corre o risco de se tornar irrelevante. O cotidiano simples, o cuidado silencioso, o sofrimento sem espetáculo, a fidelidade anônima — tudo isso tende a desaparecer do horizonte simbólico. Vive-se uma inversão: não é mais a vida que gera a imagem, mas a imagem que valida a vida.
Essa lógica afeta profundamente a subjetividade. O “eu” passa a ser construído como narrativa pública. Não basta ser; é preciso mostrar. Não basta viver; é preciso compartilhar. A interioridade, espaço tradicional da reflexão, do discernimento e da maturação, vai sendo corroída pela exposição constante. Como alerta Byung-Chul Han, vivemos numa sociedade da transparência e da performance, na qual tudo deve ser exibido, mensurado, curtido. O sujeito torna-se empreendedor de si mesmo, gerenciando sua imagem como um produto.
Há aqui uma consequência espiritual e ética importante. Quando a realidade chega mediada por telas, o sofrimento do outro pode ser visto sem ser assumido. A dor se transforma em conteúdo, a tragédia em informação, a injustiça em mais um item do feed. O excesso de imagens não gera necessariamente mais sensibilidade; muitas vezes produz anestesia. Passamos rapidamente de uma catástrofe a um vídeo banal, sem tempo para que a compaixão se transforme em responsabilidade.
Além disso, a mediação constante cria uma sensação difusa de irrealidade. Tudo acontece, mas nada permanece. Tudo é intenso, mas efêmero. Vive-se uma espécie de presente contínuo, sem memória profunda e sem horizonte. O passado vira arquivo; o futuro, ansiedade. O agora é ocupado por estímulos sucessivos que não deixam rastro.
Nada disso significa negar os benefícios da tecnologia. O celular conecta comunidades, possibilita organização social, dá voz a quem antes não tinha, encurta distâncias reais. O problema surge quando ele se torna o único mediador possível, quando perdemos a capacidade de acessar o real sem ele. Quando já não sabemos estar sem a tela, olhar sem fotografar, escutar sem interromper, caminhar sem notificar.
Talvez o grande desafio do nosso tempo seja reaprender a habitar a realidade de modo não mediado, ou ao menos não totalmente mediado. Recuperar experiências diretas: a conversa sem celular sobre a mesa, o silêncio que não precisa ser preenchido, o olhar que se demora, o corpo que sente o espaço. Reeducar a atenção, essa faculdade tão humana e hoje tão ameaçada.
A realidade não cabe inteira na tela. Há dimensões da vida que só se revelam na presença, na lentidão, no contato. O mundo não precisa ser constantemente capturado; ele pede para ser vivido. E talvez o gesto mais radical hoje seja simples: levantar os olhos, guardar o celular por um instante e permitir que as coisas, finalmente, nos aconteçam.
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