24 Janeiro 2026
"Dizem que a dor passa com o tempo, mas é o contrário: é o tempo que segue em frente, enquanto a dor sempre fica ali." Para Roberto Vecchioni, nada poderá apagar a dor que sente pela perda do filho, Arrigo, que faleceu em 2023 após uma batalha de dezessete anos contra uma doença mental.
A entrevista é de Nina Fresia, publicada por La Stampa, 21-01-2026.
Para tentar transformar aquela dor em ajuda para outras pessoas, o cantor, compositor e ex-professor, juntamente com sua esposa, Daria Colombo, criou a Fundação Vecchioni em memória do filho. O objetivo é combater o estigma em torno das doenças mentais por meio da cultura: "Se você tem diabetes, não sente vergonha, e o mesmo deveria valer para as doenças psiquiátricas. Infelizmente, acreditem, também se morre de vergonha", afirmou Colombo, presidente da Fundação.
Os números falam de uma verdadeira emergência: segundo o Instituto Nacional de Saúde da Itália, o suicídio é a segunda principal causa de morte entre jovens de 15 a 29 anos. Após a pandemia, a intenção suicida aumentou 147%. "Tendemos a colocar as doenças mentais num canto e ignorá-las, mas elas são muito frequentes", enfatizou Vecchioni, "e o sofrimento quadruplica quando consideramos aqueles próximos de quem sofre com esses transtornos, sejam pais ou parceiros."
Eis a entrevista.
Professor, a Fundação também foi também criada para ajudar as famílias de pessoas com doenças mentais a se sentirem menos sozinhas: como se pode acompanhá-las?
Não podemos dar respostas, mas podemos oferecer construções de alternativas. Mesmo que sejam marginais e superficiais, a essência é sempre a dor que se sente. Na verdade, podemos disfarçá-la de vez em quando, mas ela nunca desaparece. Às vezes é excessiva, corrói você. Principalmente quando você está sozinho, talvez à noite, quando quer dormir. Mas em outros momentos, há uma pequena chance de escondê-la.
Como você faz isso?
A gente se envolve com outras coisas, ama profundamente, ama todos ao nosso redor: nossos filhos e nossos netos. E, por que não, também é possível se entregar à cultura, à leitura, ao cinema. As coisas que, afinal, constituem a humanidade. Isso sempre nos dá força.
E uma ajuda, externa, não deveria também ser oferecida pelas instituições?
Para isso, precisamos de políticos à altura da tarefa. Tudo começa pela política, o resto vai se irradiando. E a política deveria ser incentivada de todas as formas, com artigos, cartas pessoais e conversas. Vivi tragicamente a experiência do meu filho, dependendo tanto de serviços públicos quanto privados. Nenhum deles estava à altura.
Muitos jovens recorrem à inteligência artificial para desabafar seus problemas. Por que você acha que isso acontece?
Faz parte do destino do tempo que tenhamos chegado a isso. Mas nunca devemos esquecer que existe uma cultura da qual essa tecnologia também surgiu. Deve ser usada toda a cultura artificial possível e imaginável, isso é ótimo. Mas somos pessoas, então temos também sentimentos que a cultura artificial não pode atender.
As pessoas preferem conversar com uma máquina em vez de uma pessoa real também por receio de serem estigmatizadas?
Acho que existe um pouco de medo e até vergonha de si mesmos. Por exemplo, muitas pessoas passam muito tempo jogando online: pôquer, bridge, xadrez ou outros jogos em versão digital. Isso porque não têm um adversário real: é vergonhoso perder para um adversário, mas não para uma máquina. Deveríamos, em vez disso, resgatar a cultura da derrota. Não é um fim, mas um confronto. Muitos jovens são frágeis, extremamente frágeis, e sentem-se perdidos quando têm um momento de crise. Mas as crises acontecem a todos, e nós, adultos, precisamos explicar que sempre há uma solução.
As doenças mentais são um tema muito sensível para as gerações mais jovens: será que é um problema exclusivo delas ou simplesmente nunca nos demos conta disso antes?
A situação dos jovens hoje é muito mais precária do que a de outras gerações. Por muitos motivos: em primeiro lugar, eles viveram o período da Covid. Depois, se deparam com uma sociedade externa que talvez seja a pior dos últimos dois mil anos. Eles não identificaram nada neste mundo que os pudessem estimular a fazer parte dele. Então, inventaram sua própria equação e se refugiaram nela. Mas não precisa ser assim; eles são o futuro.
Como podemos fazê-los sair da sua concha?
Eles precisam se inspirar no que de bom tivemos no passado, que foi muito, pelo menos até o século XX, para dar continuidade à humanidade. Olhar, por exemplo, aquilo que os gregos nos legaram, as dúvidas que nos deixaram, da astronomia à literatura. Eles precisam se questionar: por que vivemos? Quem são os outros? É importante prestar atenção aos detalhes, sair do próprio limite estreito: parar diante de uma pintura e tentar entender o que ela transmite, não virar para o outro lado depois de um minuto.
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