O complexo imobiliário-financeiro no imperialismo do século 21

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24 Janeiro 2026

“O espaço, cercado e financeirizado, é a nova fronteira do imperialismo, e o complexo que o controla é um ator decisivo na configuração do mundo vindouro. Assim, a compreensão das disputas atuais passa, necessariamente, por desvendar os mapas da propriedade, os fluxos do capital imobiliário global e as alianças entre promotores, fundos de private equity e o poder estatal”, escrevem Luiz Cesar de Queiroz Ribeiro e Nelson Diniz, em artigo publicado por Observatório das Metrópoles, 15-01-2026.

Luiz Cesar de Queiroz Ribeiro é professor titular do Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano e Regional (IPPUR), da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), e coordenador nacional do INCT Observatório das Metrópoles.

Nelson Diniz é professor do Departamento de Geografia (Licenciatura e Educação Básica), do Colégio Pedro II, e pesquisador do INCT Observatório das Metrópoles Núcleo Rio de Janeiro.

Eis o artigo.

Transcorridos seus 25 anos iniciais, está mais do que evidente que o século 21 pôs em movimento um novo ciclo de crise e reestruturação do capitalismo, abrindo caminho para transformações tão ou mais complexas do que as da década de 1970, outro marco de expressivas mudanças históricas.

Se a “solução” norte-americana para a crise dos anos 1970 operou, nos termos de Paul Volcker, presidente do FED entre 1979-1987 e um dos mentores dessa solução, como uma espécie de “desintegração controlada” do sistema monetário e financeiro instituído em Bretton Woods, hoje, estamos diante de algo muito mais grave. O padrão recente de disputas e conflitos geoeconômicos e geopolíticos tende a ir muito além disso, sepultando por completo todo o arcabouço jurídico-institucional estabelecido nas conferências do pós-segunda Guerra Mundial.

Do ponto de vista geoeconômico, isso ficou totalmente explícito à medida que o segundo governo Donald Trump radicalizou seus próprios experimentos anteriores de “guerra comercial”. Mais do que recorrer a tarifas e outros mecanismos para recuperar a competitividade dos Estados Unidos, o que testemunhamos, atualmente, é uma aberta onda de violência econômica que não esconde suas finalidades políticas. Costumávamos chamar isso de imperialismo, em que pese o ostracismo do conceito a partir dos anos 1990, que agora retorna com força até nos editoriais do The New York Times.

Basta pensar no caso do Brasil, isto é, na tentativa do governo Trump de interferir nos rumos de um processo judicial que está sendo conduzido, com autonomia, pelas autoridades brasileiras, perseguindo, ao mesmo tempo, vantagens econômicas.

Do ponto de vista geopolítico, a guerra em Gaza, com suas sucessivas violações dos direitos humanos, deixou claro até que ponto os Estados Unidos (e outras grandes potências) abandonaram as referências que estavam mais ou menos pactuadas (e eram mais ou menos respeitadas) no campo do direito internacional dos conflitos armados.

Porém, ao promover seu ataque à Venezuela, no dia 3 de janeiro de 2026, a potência hegemônica provou ser capaz de ir até às últimas consequências no seu total descompromisso com o que restou da ordem mundial instituída no pós-segunda Guerra. Se é que ainda é pertinente falar em hegemon, tendo em vista que os fatos mais contemporâneos parecem confirmar a hipótese de Giovanni Arrighi acerca da “dominação sem hegemonia” que os Estados Unidos passaram a exercer no mínimo a partir da Guerra do Iraque de 2003.

Em nossa opinião, ainda é muito cedo para falar de uma nova ordem mundial — ou “desordem”, como tem sido dito, com frequência, nos últimos dias. De todo modo, é relativamente simples constatar que o atual padrão de disputas e confrontos geopolíticos gira em torno do acesso, do controle e do uso de recursos naturais, energéticos e tecnológicos, além dos propriamente militares.

Por trás dessas disputas, encontramos duas máquinas principais de poder. A primeira delas é o amplamente conhecido “complexo industrial-militar”, termo que se tornou célebre desde que foi utilizado no discurso de despedida do ex-presidente dos Estados Unidos Dwight D. Einsenhower (1953-1961). Einsenhower chamava a atenção para os riscos de uma conexão permanente entre as forças armadas, a indústria bélica e setores do governo e do Congresso norte-americanos. Desde então, essa conexão não deixou de existir e funciona como vetor fundamental da expansão do poder global dos Estados Unidos e como um motor da acumulação no país, seja em tempos de guerra, seja em tempos de paz.

A segunda máquina de poder em questão deveria ser chamada, por analogia, de “complexo financeiro-tecnológico”, capitaneado pelas big techs. Ainda que atue em estreita relação com o complexo industrial-militar e em conformidade com o código geopolítico dos Estados Unidos — lembremos, aqui, das declarações de Elon Musk sobre “dar golpes em quem quisermos” — essa segunda máquina de poder tem relativa autonomia para agir em nome de seus interesses particulares. Assim, por exemplo, o próprio Elon Musk, que chegou a ser chefe do Departamento de Eficiência Governamental do segundo governo Trump, não esconde seus laços profundos com a economia chinesa.

Mas ainda há outra máquina de poder que precisa ser mencionada, sobretudo quando se trata de observar os acontecimentos da perspectiva dos estudos urbanos e regionais. Estamos nos referindo ao “complexo imobiliário-financeiroglobal. Ao recorrer a esse conceito, cunhado por Manuel Aalbers, pretendemos enfatizar a centralidade da produção e remodelação do espaço como uma fronteira decisiva de acumulação em contextos de guerras e conflitos no século 21.

Claro está que as iniciativas de reconstrução após conflitos armados sempre estiveram no horizonte das oportunidades de negócios. No entanto, para utilizar uma expressão de Naomi Klein, podemos dizer que o “capitalismo de desastre” nunca foi tão explícito em seus objetivos. Não estamos falando apenas da peça de inteligência artificial, compartilhada pelo presidente dos Estados Unidos, que simulava a criação de uma nova “Riviera do Oriente Médio” ou “Trump Gaza”. Ou de declarações como a do ministro das finanças de Israel, Bezalel Smotrich, segundo as quais a “demolição de gaza poderia ser uma mina de ouro imobiliária”. Estamos aludindo, igualmente, ao que se passa na América Latina.

Em artigo publicado na Folha de S. Paulo, intitulado O nome do jogo é Cuba, Elio Gaspari levanta uma hipótese bastante peculiar: ainda que a Venezuela tenha petróleo, a “joia da coroa” que Trump procura é a ilha caribenha. Por dois motivos. Em primeiro lugar, pelo prestígio político que o triunfo sobre o castrismo representaria. Em segundo lugar, porque “Cuba hospeda um patrimônio imobiliário estimado em centenas de bilhões de dólares”. Alguém poderia objetar que é mera especulação, que nenhum presidente norte-americano foi capaz, desde 1959, de derrubar o regime instaurado sob a liderança de personagens como Che Guevara e os irmãos Castro. A verdade é que muitos duvidavam das reais intenções de Trump quando ele ameaçava a Venezuela. Mesmo assim, o desfecho foi uma operação militar que culminou na deposição e sequestro de Nicolás Maduro. Então, talvez fosse no mínimo prudente refletir sobre o que está por trás das declarações e sinalizações não somente de Trump, mas também de seu secretário de Estado, Marco Rubio, quando apontam que o “regime cubano está pronto para cair”. Não esqueçamos das origens da fortuna do atual presidente dos Estados Unidos que é, antes de tudo, um “investidor imobiliário”.

Enquanto aguardamos o curso da história, o que importa dizer é que o complexo imobiliário-financeiro opera a partir de uma lógica bem definida, relativamente distinta da que rege o funcionamento das duas outras máquinas de poder que estão no centro da reemergência do nacional-imperialismo norte-americano [1]. Seu objetivo primordial não é a produção direta de mercadorias ou de inovações digitais, e sim a captura de rendas por meio do controle monopolístico de territórios estratégicos, infraestruturas críticas, dos elementos e posições do ambiente construído passíveis de valorização.

Seu poder e sua riqueza estão assentados na transformação da terra e do espaço urbano em ativos financeiros globais, na especulação com localizações, na criação de escassez artificial e de novos bens e serviços imobiliários. Enquanto o complexo industrial-militar bombardeia e o financeiro-tecnológico monitora e extrai dados, convertendo-os em mercadorias, o imobiliário-financeiro cerca, valoriza e vende espaço.

As possíveis ações desse complexo na Palestina não seriam incidentais. A colonização de terras na Cisjordânia, a normalização das relações diplomáticas de regimes árabes com Israel (como nos Acordos de Abraão), o projeto de uma Jerusalém indivisa como capital do Estado judaico e a iníqua transformação de Gaza em um gigantesco resort convergem para um horizonte de megaprojetos imobiliários e de infraestrutura com grande rentabilidade econômica e efeitos geopolíticos que teriam repercussão no mundo inteiro. Tudo isso contribuiria para criar novos “ativos” e gerar rendas de longo prazo para conglomerados norte-americanos, árabes e israelenses. Trump, com sua equipe de banqueiros e promotores imobiliários (como Jared Kushner), está atuando para atribuir à política externa dos Estados Unidos um componente de “negócio imobiliário”, no qual concessões territoriais e soberania seriam moedas de troca.

No caso cubano, a intenção estratégica vai além do embargo tradicional. Trata-se de preparar o terreno para uma verdadeira “corrida do ouro” imobiliária e turística no pós-regime. O foco em asfixiar economicamente a ilha, combinado com a retórica sobre “libertação”, visa criar as condições para uma transição controlada que permita a aquisição massiva de propriedades estatais, litorâneas e de infraestruturas por capitais norte-americanos, com o pretexto da reconstrução e do desenvolvimento. É a geopolítica a serviço da futura valorização capitalista de um território até então fechado. A obsessão com Cuba, nesse contexto, é também a obsessão dos fundos de investimento à espera de uma grande oportunidade até então subvalorizada.

Em suma, a convergência desses três complexos, sob a bandeira do nacional-imperialismo trumpista, representa uma resposta multifacetada à crise de sobreacumulação que acompanha o capitalismo ao menos desde os anos 1970. Se o capital não encontra suficientes oportunidades lucrativas na economia produtiva, ele intensifica a guerra (complexo industrial-militar), a financeirização da vida (complexo financeiro-tecnológico) e a espoliação do espaço (complexo imobiliário-financeiro).

Assim, podemos afirmar que a combinação da retórica “America First” com os princípios da “Doutrina Monroe 2.0” corresponde, na prática, à defesa agressiva dos monopólios desses três complexos, que exigem do Estado norte-americano a abertura forçada de novos fronts — sejam campos de batalha, mercados ou territórios — para drenar a riqueza global e sustentar suas taxas de lucro.

O que estamos argumentando, portanto, é que os negócios imobiliários emergem não como um aspecto secundário, mas como um pilar central da geopolítica contemporânea, especialmente em sua variante nacionalista e predatória. A luta pelo espaço habitável, pela terra e pela cidade torna-se tão estratégica quanto a luta pelo petróleo ou pelos semicondutores. O espaço, cercado e financeirizado, é a nova fronteira do imperialismo, e o complexo que o controla é um ator decisivo na configuração do mundo vindouro. Assim, a compreensão das disputas atuais passa, necessariamente, por desvendar os mapas da propriedade, os fluxos do capital imobiliário global e as alianças entre promotores, fundos de private equity e o poder estatal.

Nota

[1] Breno Altman usa o termo “Nacional-Imperialismo” para descrever a mudança de era do imperialismo com a eleição de Donald Trump, substituindo o sistema imperialista de “bancar” a Europa por um modelo onde os EUA cuidam apenas de si, um “nacional-imperialismo” que prioriza o protecionismo e o interesse próprio acima da hegemonia global tradicional.

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