O Cristo nu se reveste de graça. Artigo de Gianfranco Ravasi

Foto: Grant Whitty/Unsplash

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21 Janeiro 2026

"Se recorrermos novamente à etimologia, habitus deriva de habere, "ter": com o gesto simbólico e espiritual de tornar-se como Cristo "nu e cru", reconquista-se o "ser" através do dessaisissement, o despojamento de onde partimos", escreve Gianfranco Ravasi, ex-prefeito do Pontifício Conselho para a Cultura, em artigo publicado por Il Sole 24 Ore, 18-01-2026. A tradução é de Luisa Rabolini.

Eis o artigo.

Cristologia. Para elaborar uma teologia da nudez, Alberto Fabio Ambrosio delineia a teologia da vestimenta em suas múltiplas simbologias: quando estamos despidos, pode irromper a graça divina e penetrar “nas profundezas de nossa humanidade”.

A palavra “natura”, em italiano, (no sentido de “mostrar as vergonhas”, ndr) tem hoje uma aplicação um tanto obsoleta: é um eufemismo para indicar os genitais, especialmente os femininos. Em 2016, Erri de Luca publicou um título alusivo pela Feltrinelli, La natura esposta, e a sexualidade em questão era aquela de uma estátua de Cristo crucificado que precisava ser restaurada, dando origem a uma situação com muitas iridescências simbólicas. Numa conexão ideal e livre, volto a um ensaio de Leo Steinberg, La sessualità di Cristo, traduzido pela Saggiatore em 1986, que abordava a arte desde o Renascimento, com o olhar frequentemente voltado para a circuncisão do menino Jesus.

Agora, de uma importante editora católica, Desclée de Brouwer, aparece um Cristo nu e cru, uma espécie de cristologia “têxtil”, onde está em ação a espiritualidade do “dessaisissement”, um raro termo francês usado no subtítulo para indicar um “despojamento”, uma privação das vestimentas. Sabemos que os artistas recorrerão a um pudico pano na cintura para Cristo na cruz, enquanto o Evangelho de João é explícito: “Os soldados tomaram as suas vestes e as dividiram em quatro partes, uma para cada soldado”. Havia, porém, também a túnica "tecida em uma só peça de cima a baixo", que foi sorteada para não prejudicar seu valor, um ato que adquire um valor simbólico aos olhos do evangelista, pontuado por um versículo do Salmo 22, que deixaremos ao nosso leitor ser descoberto (João 19,23-24).

Neste ponto, retornamos ao livro citado, obra de um dominicano que ocupa uma cátedra na Escola de Religião e Sociedade de Luxemburgo, o italiano Alberto Fabio Ambrosio. A trajetória de suas pesquisas é curiosa, pois ele foi um grande especialista em sufismo otomano, mas agora se dedica com grande originalidade e sutileza a uma espécie de teologia e ética da moda. Isso deu origem a textos surpreendentes como, por exemplo, Dio tre volte sarto. Moda, Chiesa e Teologia (Deus, três vezes alfaiate. Moda, Igreja e Teologia, em tradução livre, Mimesis), onde de maneira um tanto jocosa e irreverente se transmutava o triplo "Santo, santo, santo" da Missa, eco do análogo cântico dos Serafins durante a vocação de Isaías (6,2). Uma verdadeira "investidura" profética à sombra das "abas da veste de Deus que enchiam o templo" de Jerusalém. De fato, o primeiro alfaiate é o Criador, como lemos em Gênesis: "E fez o Senhor Deus a Adão e à sua mulher túnicas de peles, e os vestiu" (3,21). Antes do pecado, a nudez era natural porque expressava a essência da pessoa através da corporeidade (2,25); após a rebelião, a natureza é ferida e precisa de uma cobertura para esconder a "vergonha".

"Le Christ nu et cru: Une spiritualité du dessaisissement", de Alberto Fabio Ambrosio.

Ambrosio propôs um ensaio sistemático de "crítica da moda pura", sob o título anódino Per una morale contemporanea, abordando uma série de perfis éticos muito interessantes, e não apenas para a agora reiterada e negligenciada ecossustentabilidade. Ao cruzar componentes socioeconômicos e estéticos que na moda geram injustiça, exploração e excesso, ele também se debruçava sobre questões mais especificamente morais, do pudor ao demônio da moda, à idolatria da aparência, à contramoda, à antropologia e assim por diante. Mas agora contemplemos a imagem do Cristo nu, com Michelangelo esculpindo pelo menos três obras, como a imponente estátua na igreja romana de Santa Maria sopra Minerva, zelosamente coberta em suas partes pudendas pelo conhecido “BraghettoneDaniele da Volterra.

Para elaborar uma teologia da nudez, é necessário primeiro delinear aquela do vestuário em suas muitas variações, partindo das próprias Sagradas Escrituras, que exibem um imponente guarda-roupa de túnicas, capas, anáguas, trajes cerimoniais, paramentos litúrgicos, vestes de luto ou penitenciais e assim por diante. Paradoxal é a representação no Apocalipse (7,9.14), onde os eleitos são “envoltos em vestes brancas (em grego, stolai)”, assim por terem sido “lavados no sangue do Cordeiro”, isto é, de Cristo. O branco – que é a cor emblemática divina por excelência, sinal de plenitude e totalidade, como acontece na física – é alcançado percorrendo o caminho da cruz manchado de sangue. O apóstolo Paulo lembra, além disso, aos cristãos da Galácia: "Pois todos vós que fostes batizados em Cristo vos revestistes (em grego endyô, de onde o latim induere, vestir-se) de Cristo" (3,27).

Muito mais poderia ser descoberto folheando a Bíblia sobre a dimensão simbólica das vestes: o próprio apóstolo, por exemplo, consegue tecer uma rede das virtudes cristãs usando nada menos que o uniforme militar (leia-se Efésios 6,10-18). A atenção de Ambrosio, contudo, concentra-se sobretudo na nudez do corpo de Cristo, cujo despojamento de todas as vestes na cruz torna-se a ocasião para uma sequência de provocações espirituais para os seus discípulos. Em páginas de linguagem extremamente ágil e criativa, o autor se refere não apenas à modéstia, ao estar "desarmados", à kenosis, isto é, ao "esvaziamento" de si mesmo e da própria glória que — sempre segundo São Paulo — se realiza no Crucifixo (Filipenses 2,7), mas também ao "sacramento da nudez".

De fato, ao confessar as próprias culpas, despojados do manto do orgulho e da hipocrisia, permitimos que a graça divina penetre, atingindo "a profundeza da nossa humanidade", irradiando-a com luz e revestindo-a de amor. Não é por acaso que São Francisco manifesta sua conversão despindo-se em um retorno à pureza primordial do Jardim do Éden antes do pecado. Se recorrermos novamente à etimologia, habitus deriva de habere, "ter": com o gesto simbólico e espiritual de tornar-se como Cristo "nu e cru", reconquista-se o "ser" através do dessaisissement, o despojamento de onde partimos.

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