A pacificação como violência contra a paz. Artigo de Leonardo Boff

Imagem mostra uso de armas nucleares pela Rússia contra a Ucrânia | Foto: Reprodução

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16 Janeiro 2026

"No presente momento sob o governo de Trump, uma pessoa com nítidos sinais de anomalia mental, somos confrontados com ameaças de guerra de extermínio em massa e até de dizimação de grande parte da espécie humana. A razão enlouquecida projetou o princípio de autodestruição". 

O artigo é de Leonardo Boff, teólogo, filósofo e escritor. Autor, entre outros, de Sustentabilidade e cuidado: como assegurar o futuro da vida (Editora Conhecimento Liberta, 2025) e Cuidar da Casa Comum: pistas para protelar o fim do mundo (Vozes, 2024).

Eis o artigo. 

De forma exemplar o jornalista brasileiro Jamil Chade definiu o propósito básico do Presidente Donald Trump: “Ele não irá fazer diplomacia. Atuará com a FORÇA, tanto bélica quanto econômica e comercial. Sua construção de uma nova ordem não passa pela PAZ. Mas pela CAPITULAÇÃO do adversário". O que estamos assistindo por palavras e atos é exatamente o que o Trump está pondo em prática: a pacificação pela força que representa a negação de toda paz.

Ele se inscreve na tradição de Thomas Hobbes (1588-1679) em sua obra o Leviatã (1651): a paz é um conceito negativo, vale dizer, a ausência da guerra e o equilíbrio da intimidação entre estados e povos. Com Trump quebrou-se esse equilíbrio, usa-se a força brutal como forma de garantir a hegemonia mundial num mundo multipolar. O uso desta violência demonstra que os Estados Unidos estão em declive e já não poderão ser o senhores do mundo. Na verdade, Trump se comporta como se fora o imperador do mundo. Arroga-se o direito de intervir em qualquer parte do planeta no sentido dos interesses norte-americanos, seja na Venezuela, seja na Groelândia ou no Panamá. Não nos devemos admirar se um dia, em seu delirante voluntarismo, decidir ocupar a Amazônia, onde estão reunidas todas as formas de vida e a fonte das principais riquezas estratégicas.

A história da violência não honra a humanidade. Albert Weber (1868-1958), irmão do famoso sociólogo Max Weber, em sua obra “O trágico e a História” de 1943 observou que dos 3.400 anos de história que com documentos podemos datar, 3.166 foram anos de guerra. Os restantes 234 não foram certamente de paz, mas de trégua e de preparação para outras guerras.

Os Estados Unidos em seus 249 anos de existência, a partir de 4 de julho de 1776, tiveram 222 anos de guerra. O país, praticamente, quase não conheceu a paz. Atualmente está metido em várias frentes, geralmente em guerras por procuração. Nos vários golpes de estado, particularmente, na América Latina, os Estados Unidos através de seus órgãos de segurança, CIA, FBI e do Departamento de Estado estão envolvidos.

Nas várias guerras do século XX, especialmente na primeira e na segunda guerra mundiais e nas demais guerras na África e na Ásia foram mortos cerca de 200 milhões de pessoas.

Max Born, prêmio Nobel de física (1954) denunciou que na guerra moderna se matam mais civis que militares. Ele exemplifica desta forma: na primeira guerra mundial morriam só 5% de civis, na segunda guerra, 50%, na guerra da Coreia e do Vietnã 85%. E dados recentes davam conta de que contra o Iraque e a ex-Iugoslávia 98% das vítimas eram civis. Numa guerra atômica, com a destruição mutua assegurada dos oponentes, pode desaparecer a vida na Terra.

Portanto, no presente momento sob o governo de Trump, uma pessoa com nítidos sinais de anomalia mental, somos confrontados com ameaças de guerra de extermínio em massa e até de dizimação de grande parte da espécie humana. A razão enlouquecida projetou o princípio de autodestruição. Criaram-se armas químicas, biológicas, nucleares e cibernéticas que podem, por várias vezes e formas, destruir grande parte da biosfera e assim varrer da face da Terra parte ou a inteira espécie humana.

Annie Jacobsen, jornalista especializada em temas de energia nuclear e de eventuais guerras atômicas, em seu livro Guerra Nuclear, um cenário publicado na Itália em 2024 pela editora Panini, oferece os seguintes dados verdadeiramente aterradores, recolhidos do Pentágono e da Comissão de Energia Nuclear.

Nos primeiros minutos, uma explosão termonuclear queima tudo em um raio de 160 quilômetros quadrados. Quantas pessoas morreriam imediatamente? Entre um e três milhões, dependendo se a bomba explode no ar ou no chão, se chove, se o vento sopra. Mas seria apenas o começo. Os demais morreriam lentamente em consequência das doenças produzidas pela radioatividade. O céu tornado cinza, com parca luz solar, morreriam as plantas, não haveria fotossíntese e ocorreria a destruição maciça da natureza e das safras de alimentos. Os sobreviventes morreriam de fome. Existem mais de 12 mil e 300 ogivas com essa capacidade no mundo. Os EUA e a Rússia têm 3 mil prontas para lançamento

Face a esta tragédia possível, milionários e bilhardários constroem para si bunkers com todos os meios de subsistência.

Logicamente, tudo isso dura por um tempo. Depois deverão também eles subir à superfície da Terra e serem expostos aos danos mortais da guerra nuclear.

Alguns tomadores de decisões das potências militaristas e nucleares preferem correr o risco da própria morte do que renunciar ao seu poder sobre todos. Disse recentemente o sábio Edgar Morin nos seus 103 anos: “A tragédia é que a escolha não é entre a paz e a guerra; é entre uma paz que evita a próxima guerra e uma paz que a agenda”. Jeffrey Sachs, economista da Columbia que articula economia com ecologia e comparece como um dos mais pertinentes analistas da cena atual, acaba de escrever: “Estamos em uma situação muito, muito séria… pessoas estão morrendo e estamos nos aproximando de uma guerra mundial; um ataque ao Irã teria potencial devastador por ocorrer no 'maior caldeirão de instabilidade do planeta' no Oriente Médio”.

O trágico destas guerras letais representa um desafio para a compreensão humana. Como pode um ser dotado de razão e de inteligência sucumbir à barbárie e aos apelos da violência e da guerra de aniquilação em massa e da própria aniquilação? Grandes nomes do pensamento filosófico e teológico ocuparam-se desta dramática questão sem que alguém encontrasse alguma razão satisfatória.

Fica a esperança que nunca morre, que a lucidez predomine sobre a estupidez do suicídio coletivo e que a opção pela vida supere a obsessão pela morte.

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