A afronta de Renee Good é desafiar o poder masculino. Artigo de Francesca Coin

Foto: Wikimedia Commons

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16 Janeiro 2026

"As mulheres e as pessoas migrantes pagam todos os dias o preço de um disciplinamento jamais requisitado. E é trágico que isso só se torne escandaloso quando se torna letal", escreve Francesca Coin, em artigo publicado por Il Manifesto, 14-01-2026. A tradução é de Luisa Rabolini.

Eis o artigo.

"Os homens temem que as mulheres riam deles. As mulheres temem que os homens as matem", escreveu Margaret Atwood em "Second Words". Essas são as palavras mais adequadas para descrever o assassinato de Renee Nicole Good por um agente do ICE. Foi o vídeo gravado no celular do agente Jonathan Ross que transmitiu claramente a sequência dos eventos. De um lado, vemos Renee Good, uma mulher branca com cidadania estadunidense que atuava como observadora legal para monitorar as operações do ICE. Do outro, agentes da agência federal responsável pela segurança da fronteira e pela fiscalização da imigração. O vídeo mostra Good dentro de seu carro, conversando animadamente com sua esposa, Becca, enquanto o cachorro delas está no banco de trás e os bichinhos de pelúcia do filho naquele da frente. "Dirija, querida, dirija", sussurra a esposa enquanto fecha a porta do carro, e Renee Good se vira para o agente sorrindo: "Tudo bem, cara. Não estou brava com você". Nesse momento, fora do campo de visão da câmera, a voz de um agente ordena que ela saia do carro. "Saia do carro. Saia do carro. Saia da m* do carro." Em seguida, o som de três tiros.

A inexorável batida do carro de Good enquanto ela perde a consciência. As palavras de Ross, "Sua vadia", encerram uma cena em que se alterna a delicada ironia das mulheres com a violência dos policiais.

Nos últimos dias, esse vídeo provocou choque e pesar em todo o mundo. "Ice out for Good" (Ice fora para sempre, Ice fora por Renee Good) resume perfeitamente o sentimento predominante nas ruas, unidas pelo pedido de expulsar o ICE das cidades. Nos últimos meses, o ICE recebeu do governo Trump verbas superiores àquelas de exércitos inteiros. Realizou batidas e intervenções em larga escala, além de setenta mil detenções, a maioria de pessoas sem antecedentes criminais. Nesse contexto, uma única pergunta fica sem resposta: por quê?

Kate Manne, filósofa política e autora de Down Girl: The Logic of Misogyny, explicou isso com muita clareza: "É um caso de misoginia e fascismo em ação", que emerge "com uma clareza nauseante, previsível, porém moralmente revoltante". Nesse cenário, o tom casual de Good é interpretado pelo agente como uma afronta. "A raiva que as mulheres despertam quando questionam figuras masculinas de autoridade", escreve Manne, "é um exemplo arquetípico de uma dinâmica de gênero que ignoramos por nossa conta e risco." Nesse cenário, a misoginia não deve ser entendida banalmente como hostilidade contra as mulheres. É a punição que cabe a quem rejeita a ordem patriarcal”.

Imediatamente após os acontecimentos, Donald Trump rotulou Good de "terrorista doméstica", que "dirigia de forma perigosa", "obstruía e manifestava resistência", a ponto de obrigar o policial a atirar em legítima defesa. A evidente discrepância entre as palavras de Trump e os fatos foi descrita como símbolo da pós-verdade, a maneira como o governo Trump distorce a realidade para proteger sua legitimidade política. As palavras de Trump, no entanto, poderiam descrever simultaneamente os fatos de forma distorcida e sua interpretação de forma fiel. Poderiam ser, em outras palavras, falsas aos nossos olhos e verdadeiras aos dele.

A partir do texto clássico de Richard Hofstadter, "O estilo paranoico na política americana", a literatura tem demonstrado como a personalidade autoritária tende a confundir causas e efeitos, carrascos com as vítimas, a ponto de se sentir no centro de um estado de sítio, com a tarefa de salvar a civilização. Nesse contexto, o estado de sítio descreve o medo de que a glória imperial sucumba às forças atávicas que a ameaçam. Antes mesmo de ser falsa, a projeção paranoica é uma espetacular encenação do mundo fantasmagórico da personalidade autoritária, obcecada pelo medo de que todas as forças a ela subordinadas se revoltem. Nesse contexto, não surpreende que o assassinato de Renée Nicole Good tenha sido interpretado, por alguns, como um feminicídio, porque seu escárnio foi percebido como uma afronta. O objetivo da misoginia é usar recompensas e punições para educar as mulheres a serem submissas à autoridade. Good não demonstrava submissão, nem medo, nem reverência, e é precisamente essa indiferença que constitui um ultraje intolerável. As mulheres e as pessoas migrantes pagam todos os dias o preço de um disciplinamento jamais requisitado. E é trágico que isso só se torne escandaloso quando se torna letal.

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