14 Janeiro 2026
Os protestos no Irã ganharam envergadura e hoje alcançam vastas regiões do país. O que começou como uma resposta à crise econômica acabou colocando em xeque o regime como um todo. Nesse contexto, a questão é se prevalecerá a negociação ou o confronto com Donald Trump.
O artigo é de Ezequiel Kopel, publicado por Nueva Sociedad, 13-01-2026.
Ezequiel Kopel é jornalista especializado no Oriente Médio, é autor, entre outros livros, de " A Disputa pelo Controle do Oriente Médio: Da Queda do Império Otomano à Ascensão do Estado Islâmico" (Eduvim, Buenos Aires, 2016) e "O Oriente Médio: Lugar-comum: Sete Mitos que Envolvem a Região Mais Quente do Mundo" (Capital Intelectual, Buenos Aires, 2021).
Eis o artigo.
As manifestações começaram em 28 de dezembro de 2025, em razão da queda do rial iraniano, que passou a ser cotado a mais de 1,4 milhão por dólar, enquanto a economia do país era duramente atingida pelas sanções internacionais impostas, em parte, por causa de seu programa nuclear. Além disso, fatores como uma grave seca — que reduziu a produção de cereais em 25% —, a escassez de gás natural e de energia elétrica e o aumento do preço dos produtos básicos já haviam deteriorado a situação a um nível crítico.
No início, as autoridades enfrentaram os protestos como se fossem apenas uma reação ao agravamento da situação econômica, sugerindo que os manifestantes limitassem suas reivindicações a essa questão, declarando disposição ao diálogo, evitando o confronto violento e adotando medidas para conter a crise. O governo do presidente Masoud Pezeshkian, pertencente à ala moderada do regime, ofereceu subsídios modestos na esperança de conter o descontentamento. Mas os manifestantes consideraram a oferta governamental uma afronta, tendo em vista as centenas de milhões de dólares que os líderes iranianos investiram em suas aventuras externas — seja para sustentar o Hezbollah no Líbano, o deposto ditador Bashar al-Assad na Síria ou as milícias xiitas no Iraque. Os protestos se intensificaram e se transformaram em apelos à desobediência civil que desafiam diretamente o sistema político iraniano surgido da Revolução Islâmica de 1979.
Entre o ataque e a negociação
Assim, o cenário começou a mudar e, em seu sermão de sexta-feira, 9 de janeiro, a máxima autoridade do Irã, o líder supremo Ali Khamenei, classificou os manifestantes como terroristas. “A república não se renderá”, sentenciou. Um dia antes, o governo havia cortado a internet e bloqueado as linhas telefônicas e, como no passado, iniciou uma repressão sangrenta, estimada por ativistas iranianos em centenas ou milhares de mortos. Com a internet e as linhas telefônicas interrompidas, avaliar as manifestações a partir do exterior tornou-se uma tarefa titânica: o regime não divulgou seus próprios números de mortos e as agências internacionais de notícias não conseguiram verificar de forma independente os dados que circulam dentro e fora do país.
Donald Trump, pela terceira vez em vários dias, expressou seu apoio às manifestações que lotam as ruas das cidades iranianas e chegou a lançar ameaças contra os líderes do país, advertindo que, se continuassem reprimindo, os Estados Unidos reagiriam militarmente contra alvos iranianos.
Mas, diferentemente de Maduro, o líder supremo Ali Khamenei não figura em nenhuma lista de terroristas internacionais nem foi acusado em um tribunal norte-americano. Não apenas o atual presidente dos EUA ainda o considera um possível parceiro para um acordo que limite a proliferação nuclear iraniana ou interrompa seu programa de mísseis balísticos — que demonstrou seu alcance durante a guerra de 12 dias travada entre Irã e Israel em 2025 —, como o líder supremo dispõe de diversos ativos de negociação para manter a república islâmica de pé. Além disso, o regime poderia aumentar salários e congelar preços de combustíveis, juntamente com uma série de reformas econômicas e políticas, no âmbito das quais poderia inclusive destituir ministros e até o presidente por meio de um impeachment parlamentar, além de conceder indultos a milhares de detidos. Khamenei — que detém a palavra final sobre qualquer negociação com líderes estrangeiros, apesar do avanço da Guarda Revolucionária nos centros de poder iranianos — também poderia tomar a decisão estratégica de retomar o diálogo com os Estados Unidos.
Não seria a primeira vez que os dois países negociam ou chegam a um acordo. Em setembro de 2001, o governo iraniano, então liderado pelo presidente moderado Mohammad Khatami, mediou entre as milícias da Aliança do Norte afegã e o governo de George W. Bush para que os insurgentes locais apoiassem a invasão norte-americana contra os talibãs (e chegou a fornecer inteligência para os bombardeios dos EUA). Já em junho de 2003, pouco depois da invasão do Iraque pelos Estados Unidos, Khatami propôs a Bush abandonar o programa nuclear em troca do compromisso de que o Irã não seria atacado, do acesso à tecnologia nuclear para fins pacíficos e do fim das sanções econômicas. O então presidente norte-americano rejeitou a oferta (assim como fez com outra do sucessor de Khatami, Mahmoud Ahmadinejad), que mais tarde seria reformulada por seu sucessor, Barack Obama, quando foi assinado o acordo nuclear com o Irã em 2015.
Foi o próprio Khamenei, hoje impassível diante das ameaças dos EUA, quem aprovou as ofertas de Khatami e Ahmadinejad, bem como o acordo nuclear que Trump acabou cancelando unilateralmente em 2018. A viagem a Omã do ministro das Relações Exteriores iraniano, Abbas Araghchi, em 10 de janeiro passado (os omanenses já atuaram como intermediários entre Teerã e Washington) e a posterior revelação de Trump de que o Irã havia proposto negociar indicam que Khamenei ainda não fechou todas as opções diplomáticas, apesar de sua retórica desafiadora. Por ora, Washington parece jogar um duplo jogo: ameaçar enquanto manifesta disposição ao diálogo. Vale lembrar, contudo, que no ano passado fez o mesmo ao propor negociações a Teerã e, depois, coordenar com Israel ataques contra alvos iranianos.
Na manhã de domingo, 11 de janeiro, o presidente do Parlamento iraniano, Mohammad Baqer Qalibaf, advertiu que qualquer ataque norte-americano provocaria um contra-ataque de Teerã contra Israel e contra bases militares dos EUA na região, considerando-as “alvos legítimos”. Embora muitos esperem que ataques dos EUA desestabilizem o regime e levem à sua queda, convém recordar que, quando Israel atacou o Irã no ano passado, a maioria da população interpretou essas ações (assim como as norte-americanas) como uma guerra contra a nação como um todo, e não contra o governo. O regime elogiou a solidariedade da população e comprometeu-se mais uma vez a ouvir suas demandas e implementar reformas econômicas e sociais. Mas esses compromissos foram cumpridos apenas em parte.
Make Iran Great Again
Reza Pahlavi, filho exilado do deposto xá do Irã, falou à Fox News em 11 de janeiro passado sobre seu eventual papel no futuro do país e sobre uma possível intervenção norte-americana no Irã.
Dirigindo-se ao presidente Trump, Pahlavi afirmou: “O senhor já estabeleceu seu legado como um homem comprometido com a paz e com a luta contra as forças do mal”. E seguiu com elogios ao mandatário norte-americano: “Há uma razão pela qual as pessoas no Irã estão mudando o nome das ruas para o seu. Elas sabem que o senhor é totalmente oposto a Barack Obama ou Joe Biden. Sabem que o senhor não vai jogá-las debaixo do ônibus, como fizeram antes”. “Vamos tornar o Irã grande novamente”, acrescentou, anunciando que estava pronto para retornar ao país. Pahlavi vive no exílio há quase 50 anos e deixou o Irã em 1978, quando milhões de iranianos foram às ruas e expulsaram do poder seu pai — e a monarquia — um ano depois.
Por ora, Trump rejeitou os pedidos para se reunir com Pahlavi, que se considera capaz de liderar o Irã e sonha em recuperar o poder de seu pai. Em vez disso, o presidente norte-americano parece esperar que o movimento de protesto seja a força que derrube o regime, embora também considere que ele possa continuar governando, desde que aceite negociar os termos por ele impostos sobre o projeto nuclear e os mísseis balísticos. É visível que Pahlavi tem certa influência sobre as ruas iranianas, como ficou demonstrado em sua convocação para as marchas de sábado, 10 de janeiro.
Pahlavi prometeu fazer com que 50 mil funcionários abandonassem o governo iraniano e atualmente convoca greves massivas, mas com certa desconexão dos acontecimentos no terreno. Ainda assim, conta com aliados significativos: uma investigação dos meios israelenses The Marker e Haaretz revelou que Israel conduziu uma operação encoberta de influência, utilizando contas falsas e conteúdo gerado por inteligência artificial, para promover o ex-príncipe — que visitou o Estado de Israel em 2023 — e impulsionar a mudança de regime, sem descartar a restauração de alguma forma de monarquia.
Os protestos lembram as manifestações massivas de 2009, 2017, 2019 e 2022 (cada uma com suas próprias agendas) e as batalhas de rua, prisões e mortes que as acompanharam. No entanto, o regime sobreviveu a todas elas; por isso, prever uma queda rápida pode ser precipitado, ainda que o sistema esteja pressionado por múltiplas crises.
O Irã não vive uma repetição das mobilizações de 1979. O atual sistema político dispõe de um aparato político, militar e de segurança projetado e desenvolvido com o principal objetivo de resistir a uma “contrarrevolução”. Além disso, se houver uma intervenção militar com o claro objetivo de mudança de regime, isso poderia convencer os líderes iranianos da necessidade de responder com força incomum (ao mesmo tempo, uma invasão estrangeira com tropas em solo em um país extenso, de 90 milhões de habitantes, parece hoje uma aventura insensata). O Irã poderia interromper o transporte marítimo no Golfo Pérsico e, assim, desestabilizar a economia mundial, além de lançar ataques contra alvos israelenses.
Durante a cerimônia de posse realizada diante do Parlamento em 28 de julho de 2024, como nono presidente do Irã, Pezeshkian colocou a mão sobre o Alcorão e jurou salvaguardar a religião oficial, a Constituição e o sistema da república islâmica. Pouco depois, antes de entrar pela primeira vez nos escritórios presidenciais, recebeu outro Alcorão para abri-lo e ler um versículo ao acaso. Segundo a tradição, o versículo escolhido é um presságio, neste caso sobre o governo. A mão do presidente iraniano pousou sobre o versículo 38; ele riu por entre os dentes e disse: “Caramba, isso é muito ruim”. Esse versículo da sura Al-A‘raf (Os Lugares Elevados), no Alcorão, trata da entrada no inferno e diz: “Entrai no Fogo, junto com as nações de gênios e humanos que vos precederam!”.
Apostas equivocadas
Hoje, o slogan “Mulher, vida e liberdade!” não é o protagonista das mobilizações (como foi em 2024, após a morte de Mahsa Amini), o que não significa que as mulheres estejam ausentes do movimento massivo de protesto. Ao longo desses anos, jovens iranianas passaram a retirar o véu islâmico diante da impotência dos aiatolás, em um país no qual estudantes universitários leem e debatem autores ocidentais em diversas disciplinas e, por trás das leis em vigor, frequentemente estão imersos em tendências intelectuais globais. Nestes dias, a jornalista Nina Power recordava a visita ao Irã, duas décadas atrás, do autonomista italiano Antonio Negri, figura muito popular nos movimentos “antiglobalização” dos anos 2000. Ao longo desses anos, o desafio juvenil ao regime aprofundou a fissura entre as novas gerações urbanas e a lei islâmica. E isso também se manifesta nos protestos.
Mas, durante muitos anos, os poderes estrangeiros não apenas interpretaram mal o Irã, como também enfraqueceram a possibilidade de uma mudança orgânica. A jornalista da BBC Shabnam Shabani explicou isso com clareza em uma postagem na rede social X, em resposta a uma opinião de Richard Nephew — ex-coordenador-adjunto principal de Política de Sanções do Departamento de Estado —, a propósito de como ajudar a sociedade iraniana neste momento difícil.
Shabani argumenta que a pressão e as sanções que atingiram duramente a classe média iraniana “eliminaram a única força capaz de produzir um avanço sustentável desde dentro. Isso não é um fracasso teórico, mas uma realidade. Falar agora sobre ‘o que podemos fazer hoje para ajudar’ parece tarde demais. O dano já está feito”. E acrescenta: “O que se criou, em vez disso, é algo muito mais perigoso: uma sociedade empurrada ao colapso e o risco muito real de que o Irã se torne um gigantesco Estado falido com acesso sem controle a material e tecnologia nuclear. Isso não é apenas uma tragédia para os iranianos — embora seja прежде de tudo isso —; é uma catástrofe estratégica em gestação, que muitos dos que ajudaram a trilhar esse caminho lamentarão um dia. Nós, que observamos essa história de dentro, não estamos confusos. Temos medo, temor do que pode vir depois, e estamos exaustos por saber que o momento de uma contenção eficaz já passou”.
Na segunda-feira, 12 de janeiro, enquanto a televisão estatal transmitia cânticos da multidão pró-governo que gritava “Morte aos Estados Unidos!” e “Morte a Israel!”, o regime convocou os iranianos a irem às ruas em apoio à teocracia — uma demonstração de força após dias de protestos que desafiaram diretamente a república islâmica. Nesse contexto, Trump se prepara para avaliar as propostas elaboradas por seus assessores sobre uma possível ação militar. Enquanto isso, Reza Pahlavi organizou no complexo Mar-a-Lago, o clube privado do magnata nova-iorquino, um evento de oração e política para tentar obter seu apoio.
Os relatos de que o governo norte-americano está ponderando opções militares contra o Irã e de que Israel está em alerta máximo, sem alterar sua postura militarista, sugerem que os tambores da guerra podem soar em breve. No entanto, é difícil distinguir informação de desinformação. Nesse quadro, acompanhar os acontecimentos, formular hipóteses e visualizar cenários esbarra em uma realidade volátil, com múltiplos atores, cada qual com interesses e agendas divergentes. Em um contexto de incerteza e imprevisibilidade, a notícia de ontem já é pó hoje — e mais ainda amanhã.
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