Fé e Meio Ambiente: caminhos espirituais e suas raízes ambientais. Artigo de Romi Benck

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14 Janeiro 2026

“Em contextos de agravamento das crises socioambientais, os chamados ao cuidado da 'Casa Comum' desafiam diferentes tradições de fé a resgatarem as raízes que vinculam espiritualidade e natureza” escreve Romi Bencke, teóloga luterana, pastora, integrante de movimentos e coletivos ecumênicos e inter-religiosos de direitos humanos e de defesa do cuidado socioambiental, em alusão ao Dia Mundial da Educação Ambiental, celebrado em 26 de janeiro.

Eis o artigo.

A Ética consiste na responsabilidade perante tudo quanto vive,
responsabilidade tão ampliada que carece de limites
(Albert Schweitzer)

No dia 26 de janeiro, celebra-se o Dia Mundial da Educação Ambiental. Aproveitando a evidência da data, convido você a conhecer melhor seis tradições religiosas que buscam fundamentar suas espiritualidades na convivência harmônica com o meio ambiente.

Em contextos de agravamento das crises socioambientais, os chamados ao cuidado da “Casa Comum” desafiam diferentes tradições de fé a resgatarem as raízes que vinculam espiritualidade e natureza.

Longe de representar uma hierarquia, esta lista apresenta a diversidade de caminhos - dentre muitos outros - que convergem para um propósito comum: o cuidado da Criação. Esse cuidado precisa ser compreendido como o reconhecimento da interconexão profunda entre espiritualidade e natureza, cuja destruição significa a negação da sacralidade da vida.

Cristianismo: cuidando da Casa Comum

O Cristianismo oferece ricos caminhos de conversão ecológica. Comecemos retomando a água como elemento central para o ritual do Batismo. Na tradição cristã, a água, junto com a Palavra de Deus e a fé, é o elemento central do rito batismal. A não poluição das nascentes e dos rios significa garantir a continuidade deste rito que nos vincula à fé em Jesus Cristo.

A espiritualidade de São Francisco de Assis, que via todas as criaturas como irmãs, é uma inspiração perene. Esse legado foi atualizado e ganhou força global com a Encíclica Laudato Si' do Papa Francisco, que defende o cuidado da Casa Comum.

Além disso, a causa ambiental é um poderoso campo de diálogo e ação conjunta entre as igrejas cristãs. No Brasil e no mundo, o movimento ecumênico tem assumido a pauta ecológica como parte essencial de sua missão, promovendo a reflexão sobre doutrinas e espiritualidades à luz do cuidado com a Criação. Ações como a Iniciativa Inter-religiosa pelas Florestas Tropicais, da qual o Conselho Nacional de Igrejas Cristãs do Brasil (CONIC) é organização fundadora, mostram como a união entre diferentes confissões pode gerar ações concretas em defesa da Casa Comum.

Cultos ecumênicos pelo Tempo da Criação, celebrado entre 1º de setembro e 4 de outubro, são outros exemplos vivos dessa união em oração e compromisso.

Diferentes denominações cristãs atuam fortemente na área ambiental. Os anglicanos, com sua Floresta da Comunhão, unem esforços locais e globais no plantio de árvores e restauração de ecossistemas. O Patriarca Ecumênico Bartolomeu I, bispo principal da Igreja Ortodoxa de Constantinopla e Primaz de honra da Igreja Católica Apostólica Ortodoxa, é conhecido como o "Patriarca Verde" e, desde 1989, estabeleceu o 1º de setembro como Dia de Oração pela Criação.

Entre os evangélicos, organizações como a Rede Ambiental Evangélica (EEN) mobilizam fiéis com base na responsabilidade bíblica de ser mordomos da criação.

Fé Bahá'í: unicidade da humanidade e harmonia com a Natureza

A Fé Bahá'í, uma religião mundial e independente, oferece uma visão integrada que conecta diretamente o bem-estar espiritual da humanidade à saúde do planeta. Seus ensinamentos partem do princípio fundamental da unicidade: unicidade de Deus, unicidade das religiões e, de forma crucial, unicidade da humanidade.

Desse princípio, deriva-se a compreensão de que os seres humanos são custódios da Terra, com a responsabilidade ética de administrar seus recursos com justiça, moderação e visão de longo prazo. A natureza é vista como um espelho do divino, e sua exploração desequilibrada é considerada um desvio espiritual. Os escritos bahá'ís advertem contra o materialismo excessivo e o consumo desenfreado, incentivando um estilo de vida simples e uma relação de reverência com o mundo natural.

A comunidade bahá'í traduz esses princípios em ação prática. Por meio de seu órgão internacional, a Comunidade Internacional Bahá'í, participa ativamente de conferências globais sobre desenvolvimento sustentável e mudança climática, defendendo que a solução para a crise ambiental está intrinsecamente ligada à conquista da paz mundial e da justiça social. Em nível local, projetos educacionais e agrícolas promovidos por bahá'ís frequentemente incorporam princípios de conservação e vida em harmonia com o ecossistema, demonstrando o compromisso de unir fé, razão e ação para o cuidado da Casa Comum.

Budismo: compaixão, desapego e interdependência

A espiritualidade budista ensina que tudo na vida está ligado. Nenhum ser existe sozinho, portanto, o que acontece com as florestas, rios e animais atinge os seres humanos. Por isso, a compaixão — valor central do Budismo — não se limita às pessoas, mas alcança todos os seres sencientes.

Cuidar do meio ambiente, para os budistas, é praticar a não-violência (Ahimsa) no dia a dia, escolhendo formas de viver que gerem menos sofrimento ao mundo.

Em vários países, monges, templos e comunidades transformam esses princípios em ação concreta, protegendo áreas naturais, limpando rios e educando crianças para respeitar todas as formas de vida. Assim, meditação e cuidado com a Terra tornam-se partes do mesmo exercício espiritual.

Tradições originárias e de matrizes africanas: a sagrada conexão com a Terra

Para os povos originários e as tradições de matriz africana, a relação com o meio ambiente transcende o conceito de “cuidado” como uma prática externa. Aqui, a natureza é a própria linguagem e morada do sagrado. A Terra (muitas vezes chamada de Mãe Terra, Pachamama), as matas, os rios e as montanhas não são “recursos” ou cenários, mas entidades vivas, conscientes e pessoais, habitadas por forças ancestrais, divindades (os Orixás, no Candomblé, ou os Encantados, em tradições indígenas) que se manifestam através delas.

Dessa cosmovisão decorrem princípios éticos fundamentais:

- Reciprocidade: a relação com a natureza é um diálogo contínuo de tomar e devolver. Todo uso de um recurso – uma planta medicinal, a caça para alimentação – é acompanhado de oferendas, gratidão e ritos de permissão, garantindo o equilíbrio.

- Pertencimento e Não-Separação: o ser humano não está sobre ou fora da natureza, mas é uma parte integrante e interdependente dela. A saúde da comunidade está inextricavelmente ligada à saúde do território.

- Sacralização do Território: lugares específicos são entendidos como áreas sagradas – fontes, clareiras, pedreiras – onde o mundo visível e o invisível se comunicam. Sua preservação é um imperativo religioso.

Esse conhecimento tradicional, transmitido por gerações através da oralidade e dos ritos, é hoje reconhecido como sabedoria biocultural. Práticas de manejo sustentável, o conhecimento profundo sobre plantas e ciclos ecológicos, e a própria demarcação de terras indígenas e de terreiros como espaços de preservação, demonstram como a espiritualidade se traduz em uma gestão ecológica concreta e eficaz, oferecendo um modelo alternativo de coexistência com o planeta.

Hinduísmo: o Divino em toda a Criação

O Hinduísmo nutre uma visão do mundo profundamente sacralizada, na qual o cuidado ambiental emerge naturalmente de seus conceitos filosóficos centrais. O princípio de que toda a criação é uma manifestação do Brahman (a Realidade Última) estabelece uma base espiritual para a reverência pela natureza. Florestas, rios, montanhas e animais não são meros recursos, mas expressões vivas do divino.

Dois conceitos são fundamentais para sua ética ambiental:

1) Vasudhaiva Kutumbakam, a famosa frase que significa “o mundo é uma família”. Este ideal promove um senso de parentesco e responsabilidade universal com todas as formas de vida, transcendendo barreiras espécies.

2) Dharma é frequentemente traduzido como dever, lei ou ordem cósmica. Proteger o meio ambiente é parte do dharma humano, um compromisso ético e espiritual para manter o equilíbrio (rita) do mundo.

Essa visão se concretiza em práticas culturais e religiosas seculares. A reverência a rios como o Ganges e o Yamuna como deusas, o respeito a animais como a vaca (símbolo de fertilidade e nutrição) e a serpente, e a consideração por árvores como a pipal (figueira-sagrada) como moradas de divindades, fomentam uma atitude cotidiana de respeito.

Em tempos contemporâneos, esses princípios inspiraram movimentos de ecologia devocional. Um exemplo histórico é o Chipko Andolan (Movimento do Abraço) dos anos 1970, no norte da Índia, onde comunidades, guiadas por ideais de proteção sagrada das florestas, abraçavam árvores para impedir seu corte, unindo ativismo ambiental e fé tradicional.

Cuidado na diversidade: a unidade no propósito

O que estas seis tradições nos ensinam é que, embora partam de fundamentos teológicos distintos, elas convergem em um propósito comum de reverência, cuidado e responsabilidade pela vida.

Que nossas comunidades de fé, em seu rico pluralismo, sejam faróis de esperança e agentes ativos na regeneração da nossa Casa Comum, tecendo, juntas, uma nova ética de paz com toda a criação.

Lembre-se: ao destruirmos a natureza, destruímos os sagrados que nela se manifestam.

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