12 Janeiro 2026
Professor de filosofia política em Harvard, Michael J. Sandel destaca-se por suas palestras sobre justiça — reunidas no livro Justiça (Civilização Brasileira 2011). Essas palestras são muito assistidas e estão disponíveis online, o que lhe rendeu o título de “rockstar” da teoria política. Central para o debate entre liberais e comunitaristas nas décadas de 1980 e 1990, seu ensaio mais recente é um diálogo com Thomas Piketty, “Uguaglianza. Che cosa significa e perché è importante” (Igualdade. O que significa e porque é importante, em tradução livre, Feltrinelli, 120 p., €13).
A reportagem é de Bruno Montesano, publicada por il manifesto, 12-01-2026. A tradução é de Luisa Rabolini.
Eis a entrevista.
Em seu diálogo com Piketty, vocês debatem amplamente a ascensão do populismo. Trump representa uma ameaça fascista?
Trump quer controlar as instituições da sociedade civil: universidades, escritórios de advocacia, instituições culturais e a mídia. Essas instituições não devem capitular, mas preservar sua autonomia: é essencial para a democracia, fundamental para a resistência. Há semelhanças e diferenças entre momentos históricos diferentes, mas é claro que Trump representa uma guinada autoritária na política estadunidense, semelhante aos movimentos populistas de direita na Europa. É preciso identificar os motivos de ressentimento, especialmente entre os trabalhadores sem formação superior, para os quais esses movimentos — o movimento MAGA nos Estados Unidos e a extrema-direita na Europa — são direcionados.
O efeito rebote populista deriva das desigualdades de renda e riqueza, mas também de reconhecimento. Cinco décadas de globalização neoliberal levaram à deslocalização de empregos para países com baixos salários, à estagnação salarial para a maioria dos trabalhadores, à desregulamentação econômica, à crise financeira de 2008 e à operação de salvação de Wall Street. O Partido Democrata, juntamente com os Republicanos, compartilha a responsabilidade por essas políticas.
A ética meritocrática fez com quem estava no topo sentisse que havia conquistado tudo sozinho, criando assim grandes bolsões de sofrimento em termos de dignidade (o tema foi tratado no livro A Tirania do Mérito: O que aconteceu com o bem comum?, Civilização Brasileira 2020). As pessoas sentem que seu voto não conta. Trump interceptou essas preocupações legítimas, mas suas políticas prejudicam aqueles que votaram nele: desde os cortes de impostos para os ricos até o ataque ao sistema de saúde.
Os democratas nos EUA — e na Europa aqueles que se opõem a essa tendência autoritária — precisam encontrar maneiras de se reconectar com a classe trabalhadora que os partidos tradicionais abandonaram nas últimas décadas.
Você acha que a coalizão multiétnica de Zohran Mamdani em Nova York possa representar uma alternativa universalista ao populismo nacionalista e ao liberalismo personificados pela chamada "Agenda da Abundância" de Ezra Klein e pela ala moderada do Partido Democrata?
Mamdani personifica o fato de que, até agora, grande parte da energia do Partido Democrata veio da ala progressista. Resta saber se haverá novas tentativas de redefinir os objetivos do partido.
É preciso definir uma alternativa àquela forma de pensar a economia e a política.
O movimento da abundância oferece algumas boas propostas políticas, como a redução dos custos das habitações através da reconsideração, por exemplo, das normas urbanísticas que limitam a possibilidade de construção de novas casas. Mas trata-se de um conjunto de propostas práticas atreladas a políticas públicas: algumas mais interessantes, outras nem tanto. Não acredito que a revisão de algumas políticas, mesmo que numa direção desejável, possa substituir a necessidade de repensar o propósito da política e da economia. O que é necessário para salvar a democracia é uma visão de governo ousada.
A dignidade do trabalho deve voltar a ser central: não somos apenas consumidores, mas também cidadãos, unidos em torno de um objetivo de bem comum. Para combater o individualismo, para uma maior solidariedade, é necessário o reconhecimento das obrigações mútuas. A socialdemocracia e a solidariedade precisam do patriotismo, que não deve ser relegado à direita — e não coincide com xenofobia e deportações.
A globalização neoliberal limitava a livre circulação de capital e mercadorias, excluindo aquela das pessoas. Não lhe parece que neoliberalismo, autoritarismo e xenofobia estão interligados?
Concordo que, na década de 1980, não havia liberdade de circulação das pessoas. Embora o quadro ideológico desvalorizasse a importância das fronteiras nacionais, havia uma assimetria entre a mobilidade dos capitais e a mobilidade das pessoas. O capital tornou-se mais móvel do que o trabalho, o que explica a estagnação dos salários e a perda de empregos. A mobilidade descontrolada do capital pode ser restringida, e recentemente houve algumas tentativas tímidas nesse sentido, além de um afastamento dos acordos de livre comércio. Mas não resolveríamos o problema introduzindo a livre circulação das pessoas ao lado da livre circulação do capital. Não seria uma solução adequada, nem levaria a uma política progressista nem a uma maior justiça para os trabalhadores.
O patriotismo e o nacionalismo, inclusive socialdemocrata, compartilham a ideia de que a solidariedade se limita a uma determinada comunidade e a uma cultura específica. É a perspectiva política correta a adotar?
A ética da solidariedade deve limitar-se a uma determinada comunidade nacional ou pode ter um alcance mais global ou universal? Uma resposta afirma que só podemos nos identificar realmente e nos preocupar com as pessoas que nos são próximas, com quem partilhamos uma história, uma vida, uma tradição comum. Assim, a solidariedade pode, na melhor das hipóteses, ser apenas um projeto nacional. A segunda resposta afirma que a solidariedade da humanidade é a única solidariedade possível, uma vez que diz respeito ao que partilhamos enquanto seres humanos. Essa é uma ética universalista ou cosmopolita.
Não compartilho nenhuma das duas. Opto por uma terceira alternativa: uma visão dialética de como as identidades se formam, uma visão pluralista de como as solidariedades e as identidades compartilhadas se cultivam. Penso que a razão pela qual resisto à segunda alternativa, a cosmopolita, reside no fato de o amor pela humanidade ser um sentimento nobre ao qual deveríamos aspirar. E existem certos deveres que temos para com os seres humanos enquanto tais, independentemente da sua nacionalidade, comunidade, fé ou tradição. Mas aprendemos a amar a humanidade não no abstrato, mas por meio das suas expressões particulares.
Aprendemos a cuidar de outros seres humanos, começando por aqueles com quem partilhamos algo: primeiro as famílias e depois as comunidades locais. E eventualmente se chega a comunidades mais amplas onde se compartilha alguma preocupação geral. Qualquer movimento operário depende de uma solidariedade local, que pode depois expandir-se para fora. Mas tem de estar enraizada em atividades, histórias, lutas e empenhos específicos para ter efeito e motivar as pessoas. Sucessivamente, alianças mais amplas podem ser criadas. É preciso uma alternativa. E há uma grande confusão entre aqueles que veem a solidariedade como algo fixo, definitivo e local — uma perspectiva demasiado limitante — e uma ética cosmopolita tão abstrata que se torna muito difícil de realizar.
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