Jesus não apenas se fez homem, ele se fez pecado. Artigo de Tomás Muro Ugalde

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08 Janeiro 2026

"Jesus não apenas se fez homem, mas também se fez pecado. Ao longo de sua vida, Jesus foi amigo de pecadores e cobradores de impostos. Jesus mergulhou nas 'águas turbulentas' da humanidade", escreve Tomás Muro Ugalde, teólogo basco, em artigo publicado por Religión Digital, 07-01-2026.

Eis o artigo.

1. Batismo de Jesus

Entre o nascimento de Jesus e o seu batismo, devemos lembrar que se passaram cerca de trinta anos — um longo período. Podemos preencher esses anos com o que São Lucas nos conta: Jesus crescia em estatura, sabedoria e graça diante de Deus e dos homens (Lucas 2,52).

Em outras palavras, Jesus não era um "estrangeiro" que "sabia tudo". Jesus cresceu aprendendo com seus pais e na sinagoga. Por um tempo, Jesus foi discípulo de seu primo João Batista nos grupos que ele liderava no deserto perto do rio Jordão.

Jesus gradualmente tomou consciência de sua existência e de sua missão messiânica.

2. Jesus foi batizado pelos nossos pecados.

Jesus não apenas se fez homem, mas também se fez pecado. Ao longo de sua vida, Jesus foi amigo de pecadores e cobradores de impostos. Jesus mergulhou nas “águas turbulentas” da humanidade.

Aquele que não era pecado é imerso com o pecado do mundo nas águas batismais do JordãoBento XVI fez uma bela leitura dessa passagem em seu livro “Jesus de Nazaré”. Jesus assumiu a culpa de toda a humanidade: entrou no Jordão com ela. [1].

3. Um novo e definitivo Êxodo começa

O relato do batismo de Jesus no rio Jordão, no Evangelho de São Mateus, é uma evocação do Êxodo.

Tenhamos sempre em mente, durante este ano litúrgico, que Mateus é um Evangelho para cristãos de tradição judaica, que tinham em mente e em sua espiritualidade o Deus libertador do Êxodo, o Deus que libertou seu povo da escravidão no Egito, guiado por Moisés através das águas batismais do Mar Vermelho, e os conduziu pelo deserto até a Terra Prometida.

Agora, o libertador não é mais Moisés, mas Jesus Cristo; a escravidão no Egito representa o pecado, a morte e a lei. As águas batismais do Mar Vermelho são agora o Rio Jordão. A terra prometida não é um lugar físico ou geográfico, mas sim a liberdade e a nova vida encontradas em Deus.

4. História do Apocalipse

Tanto o Batismo de Jesus quanto a Transfiguração (Mt 17,8) são narrativas nas quais Cristo nos é apresentado como a palavra revelada de Deus: “Este é ele”. São narrativas de Revelação. Jesus é o Filho amado, a Palavra de Deus que celebramos no Natal.

O novo Êxodo começa e se concretiza em Jesus Cristo.

5. Novo Êxodo na sociedade e na Igreja

Costumamos dizer — e é verdade — que a sociedade atual passou por muitas mudanças e pouco se assemelha à de alguns ou muitos anos atrás. Mas talvez, mais do que mudanças em nosso tempo, estejamos vivenciando uma mudança de era. Um novo Êxodo? Que Deus nos conceda emergir dos "Egitos" e das formas de escravidão em que vivemos, caminhando rumo a uma terra de paz e liberdade.

E poderíamos dizer algo semelhante sobre a Igreja. Muitas vezes recordamos com carinho e nostalgia o Pentecostes, o Êxodo, a libertação trazida pelo Concílio Vaticano II. As coisas mudaram consideravelmente depois disso, até que o Papa Francisco tentou criar uma "Igreja que vai ao encontro do mundo", como no Êxodo, e ajudar a Igreja a navegar pelas águas libertadoras do Evangelho. Mas o bom Papa Francisco foi por vezes diretamente bloqueado e por vezes recebido com grande indiferença pelos receios eclesiásticos e clericais que o afligiam.

Penso que Eric Fromm, o psicanalista e filósofo (1900-1980), estava absolutamente certo quando escreveu sobre "O medo da liberdade".

Não é o cristianismo que está em colapso, mas sim o regime da cristandade. A Igreja precisa de um novo Êxodo, uma libertação do pesado fardo histórico que carrega. Um Êxodo de formulações doutrinárias, litúrgicas e morais é necessário. Serão tomadas medidas eficazes?

6. Os céus se abriram

Os céus estavam fechados para a humanidade. Através de Cristo (Batismo e Transfiguração), eles foram abertos, rasgados. O antigo sistema, a antiga religião, a antiga lei, o véu do Templo foram rasgados na morte de Cristo (Mt 27,50) e os céus foram abertos.

Quando Jesus Cristo está entre nós, os céus se abrem e o espírito do amor desce.

Jesus Cristo abriu os céus com o novo Êxodo libertador.

Nota

[1] J. Ratzinger, Jesus de Nazaré, Madri, 2007, 31-47, 40.

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