Paz. Francisco e Leão, vozes clamando no deserto, unidas pela radicalidade cristã do verbo desarmar. Artigo de Fabrizio D'Esposito

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08 Janeiro 2026

"Desarmar, então. É o verbo da paz que uniu de imediato — em menos de dois meses, justamente — o jesuíta argentino Bergoglio e o agostiniano estadunidense Robert Francis Prevost", escreve Fabrizio D'Esposito, professor italiano, em artigo publicado por Il Fatto Quotidiano, 05-01-2026. A tradução é de Luisa Rabolini.

Eis o artigo.

Em 14 de março de 2025, trinta e sete dias antes de sua morte, o Papa Francisco escreveu uma carta do Hospital Gemelli, onde estava internado, endereçada ao Corriere della Sera. Até o fim, o pontífice “que veio do fim do mundo” — eleito papa em 13 de março de 2013 — empenhou-se contra a “terceira guerra mundial travada aos pedaços”, como havia denunciado repetidamente ao longo dos anos.

O apelo de Bergoglio se inspirou em seu grave estado de saúde: "Neste momento de doença (...) a guerra parece ainda mais absurda. A fragilidade humana, de fato, tem o poder de nos tornar mais lúcidos em relação ao que perdura e ao que passa, ao que faz viver e ao que mata. Talvez seja por isso que tantas vezes tendemos a negar os limites e a evitar as pessoas frágeis e feridas." E mais ainda: "Precisamos desarmar as palavras, para desarmar as mentes e desarmar a Terra. Há uma grande necessidade de reflexão, de calma, de senso da complexidade." Menos de dois meses depois, seu sucessor, Leão XIV, recém-eleito pelo Conclave — era 8 de maio — iniciou assim sua primeira saudação ao mundo, da Loggia central da Basílica de São Pedro, concluindo com a bênção Urbi et Orbi: "A paz esteja convosco! Esta é a paz de Cristo Ressuscitado, uma paz desarmada, uma paz desarmante, humilde e perseverante. Ela vem de Deus, Deus que nos ama a todos incondicionalmente."

Desarmar, então. É o verbo da paz que uniu de imediato — em menos de dois meses, justamente — o jesuíta argentino Bergoglio e o agostiniano estadunidense Robert Francis Prevost. No caso de Leão XIV, o recurso constante a esse verbo (em várias formas e tempos, como observou o Vatican News) está moldando uma catequese do desarmamento que, infelizmente, está destinada a ser ignorada pelas instituições de todos os continentes, sejam elas democráticas ou autocráticas.

Na mensagem de 1º de janeiro para o quinquagésimo nono Dia Mundial da Paz, o verbo desarmar é novamente conjugado com dois particípios, no passado e no presente: "Desde a noite da minha eleição como Bispo de Roma, quis inserir a minha saudação neste anúncio coral. E desejo reiterá-lo: esta é a paz do Cristo ressuscitado, uma paz desarmada e desarmante, humilde e perseverante". Mais adiante, o gerúndio, sempre em 1º de janeiro, dessa vez no Angelus: "Queridos irmãos, com a graça de Cristo, comecemos hoje a construir um ano de paz, desarmando nossos corações e nos abstendo de toda violência".

Nestes primeiros sete meses do pontificado de Prevost, alguns tentaram apontar diferenças entre Francisco e Leão sobre a paz: o primeiro chegou até a ser acusado de putinismo quando falou, a respeito da Ucrânia, sobre a "OTAN latindo nas fronteiras da Rússia"; o segundo, por outro lado, é considerado mais "equilibrado". Na realidade, a radicalidade cristã do verbo "desarmar" não tem nuances. Não por acaso, evocou a prisão de Jesus no Getsêmani, um momento crucial da Paixão, quando Cristo, dirigindo-se para Pedro, disse: "Guarda a tua espada na bainha".

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