08 Janeiro 2026
"O ano de 2026 será marcado pelas eleições para os poderes Executivo e Legislativo, nos âmbitos federal e estadual. Diante desse cenário, nós, discípulos de um prisioneiro político (Frei Betto), não podemos nos pretender neutros frente ao avanço de políticas necrófilas, que chamam de “progresso” a destruição da mãe-terra e o extermínio de seus filhos e filhas", escreve Caio Eduardo, voluntário da Casa da Cultura do Urubuí, agente da Comissão Pastoral da Terra e acadêmico do curso de História na Universidade Federal do Amazonas (UFAM).
Eis o artigo.
Chamo-me Caio Eduardo, sou um jovem amazônida, voluntário da Casa da Cultura do Urubuí, agente da Comissão Pastoral da Terra e acadêmico do curso de História na Universidade Federal do Amazonas. Esta é a primeira vez que escrevo um texto direcionado ao IHU e, ainda que o faça com certa insegurança, fui encorajado por meu amigo e — com todo o peso e respeito que essa expressão carrega — companheiro de caminhada, Egydio Schwade, a ultrapassar as fronteiras geográficas da CACUÍ e a estabelecer diálogo com outras juventudes.
O que se segue nasce de um diálogo entre gerações, travado à sombra da varanda de Egydio, no dia 02 de janeiro de 2026, em Presidente Figueiredo, no Amazonas. Este texto assume, portanto, a forma de um ultimato partilhado, atravessado pelo profetismo de Egydio e pelas inquietações que trago enquanto jovem. Um encontro em que, mais uma vez, se pôs vinho novo em odres novos (Lucas 5:37-39).
O ano de 2026 será marcado pelas eleições para os poderes Executivo e Legislativo, nos âmbitos federal e estadual. Diante desse cenário, nós, discípulos de um prisioneiro político (Frei Betto), não podemos nos pretender neutros frente ao avanço de políticas necrófilas, que chamam de “progresso” a destruição da mãe-terra e o extermínio de seus filhos e filhas.
Na CACUÍ — espaço de memória e de resistência plantado no chão da Amazônia — nossa militância cotidiana nos confronta, dia após dia, com a falácia do chamado “desenvolvimento”, vendido ontem como promessa de futuro e que continua sendo imposto hoje como destino inevitável para o amanhã. Trata-se de um projeto que segue produzindo morte, silenciamento e espoliação. Por isso, se ontem já denunciávamos, amanhã devemos gritar com ainda mais força, organização e coragem, não divididos em nossos guetos, mas unidos nos canais de comunicação virtual, assim como, “nas escolas, nas ruas, campos, construções, caminhando e cantando e seguindo a canção” (Geraldo Vandré, 1979).
Isso porque a disputa política já não se trava apenas nas ruas e calçadas, nas trilhas da floresta e nos veios d’água. Ela também se dá, de forma decisiva, no ambiente digital. Este é um território que precisa ser ocupado com intencionalidade e seriedade, por aqueles e aquelas que fazem política para e com os mais lascados, transformando a comunicação em instrumento de luta, memória e anúncio de outros futuros possíveis.
Se, neste momento, não vislumbramos alternativas que brotem do movimento popular — que pouco tem renovado seus quadros de militância e, muitas vezes, segue guiado quase exclusivamente por cabelos brancos e rostos enrugados, marcados pelo grande estopim das lutas de libertação do povo oprimido no século passado — e se esses próprios companheiros e companheiras, por vezes, gritam aos ventos a descontinuidade de suas lutas, não tampemos os ouvidos. Sejamos nós, então, a continuação da utopia. Sejamos nós a nova utopia, com nossos rostos e cabelos juvenis.
O que então, Egydio, propõe a nós, jovens — dos mais diversos modos de se ser juventude —, é que cravemos nossas trincheiras e, a partir da comunicação nas redes sociais — partilhada com os companheiros e companheiras de luta que já ali atuam —, lancemos nossas ideias ao mundo. A semente lançada, ainda que sem a pretensão de grandes números ou alcances imediatos, há de encontrar solo fértil.
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