"A guerra nunca é um caminho. Que o sentimento da Pátria Grande possa reaparecer e que a libertação dos nossos povos seja um horizonte. Que possamos construí-lo, livremente".
O artigo é de Cesar Kuzma, teólogo-leigo, casado e pai de dois filhos. Doutor em Teologia e professor-pesquisador do Curso de Teologia e do Programa de Teologia da PUCPR, em Curitiba. É membro do Grupo Emaús.
Cesar Augusto Kuzma | Foto: Arquivo Pessoal
O presente texto integra a coluna Vozes de Emaús, que conta com contribuições semanais dos membros do Grupo Emaús. Para saber mais sobre o projeto, acesse aqui.
Minha solidariedade a todo povo da Venezuela, em especial aos amigos queridos que tenho lá. Meu desejo é que as próximas horas e dias sejam de paz. Respeito os sentimentos (que são vários) e que o povo, sobretudo os mais pobres sejam cuidados e que haja paz.
Ao mesmo tempo, repudio o uso da força e a invasão militar dos EUA em território venezuelano. Os EUA não são a polícia do mundo e eles não têm este direito de decidir o mundo a seu favor. Tornar os EUA grande novamente, como diz Trump, não pode ser à custa da violação de direitos internacionais, seja por meio da economia seja por meio da força militar. Hoje é a Venezuela, amanhã pode ser qualquer outro país. E mais, como disse o secretário da ONU e demais autoridades e lideranças globais, isso abre precedentes perigosos.
E mais, Trump deixou claro o interesse da invasão e captura de Maduro. Em nenhum momento foi à defesa da democracia ou seu restabelecimento. Em nenhum momento foi a condição sofrida, empobrecida e violada em direitos humanos do povo venezuelano (sim, tenho consciência das atrocidades deste governo. Nós do Brasil sabemos o que uma ditadura é capaz de fazer - e a extrema-direita defende esta prática). A intenção, ele disse, é recuperar o que lhes pertence [?], tomar posse dos recursos naturais (petróleo), instalar empresas estadunidenses, explorar e vender (isso mesmo, vender como se fosse deles). E o povo? Não foi mencionado. Sim, ele falou em governar o país até uma transição para um novo governo. Mas será evidente que eles também irão intervir nesta suposta eleição, favorecendo um governo que comungue com os seus interesses políticos e econômicos e que possa governar [?], mas sem controle do que este país produz: petróleo.
No século XX, o imperialismo dos EUA favoreceu e sustentou ditaduras na AL, interviu por meios políticos, econômicos, em armamento e com uso ideológico/religioso. No século XX e XXI, os EUA são aliados e apoiam regimes ditatoriais em países árabes e africanos. As guerras são lucrativas, mostram poder e trazem impactos econômicos. Trump não se vê incomodado com a ditadura da Coreia da Norte, por exemplo. Estendeu a mão a Putin e não avança frente à China (que hoje é uma potência militar, econômica e capitalista). Isto é, as ditaduras, do passado e de hoje, não são um problema. Tudo são negócios e interesses políticos.
Além de ter uma das maiores reservas de petróleo do mundo, a Venezuela é uma porta de entrada para a região amazônica, uma área rica em recursos minerais e a maior bacia hidrográfica do mundo. Vale destacar que o negacionismo acompanha esta política intervencionista, então, o desprezo pelo cuidado ambiental e a população indígena chegam junto. Neste caso, todos perdemos. Tudo vem de estratégias, em desestabilização de democracias e violação de direitos humanos e sociais. Uma vez que o direito internacional não é respeitado e a força militar ganha espaço, o futuro de todos passa a ser incerto. Por que será que as mídias digitais se tornaram uma arma poderosa de desestabilização democrática e Fake News? Por que será que os donos das Big Techs apoiam esta prática? Seriam as democracias um estorvo a estes “avanços”? E os direitos dos povos e das pessoas? E o uso da religião como manipulação de mentes e massas?
A razão nunca foi o cuidado e a proteção das pessoas. O racismo ideológico e o pensamento de supremacia não permitem este sentimento. Basta olhar a forma como são tratados os migrantes, a forma como são deportados e violados em seus direitos. Este etnocentrismo dá base a regimes de exceção, pois gera uma hierarquização entre humanos e povos, entre quem tem poder e quem é coisificado na sua existência.
É bem verdade que este evento traz um olhar para todos nós também. Há anos estamos acompanhando o que acontecia na Venezuela, o empobrecimento das pessoas, a crise democrática, a massa de migrantes em nossas cidades, mas ficamos como que paralisados. Esta mesma América Latina vê surgir novamente espaços neofascistas, que assumem e disputam governos, cargos e criam práticas de ódio pelas redes sociais, com discursos rasos e ideológicos/religiosos. Mas a estes empobrecidos? A estes venezuelanos que hoje sofrem?
Que não sejamos indiferentes. O empobrecimento causado na Venezuela, nos últimos anos, deve nos tocar profundamente. São nossos irmãos e irmãs. Sim, este fato tem causas internas e externas, atuais e históricas. Talvez o conforto dos nossos espaços não nos permitiu ver o que estava acontecendo à nossa volta (assim como “não vemos” tantas realidades de opressão e miséria). O ataque dos EUA à Venezuela realizado na madrugada do da 3 de janeiro é algo inaceitável. Repudiamos este imperialismo. Este não é um caminho aceitável e eles não são a polícia do mundo. Vale ressaltar que há muitos estadunidenses que não concordam com estas ações do governo Trump e do imperialismo dos EUA e saem em defesa destas pautas que aqui apontamos. A guerra nunca é um caminho. Que o sentimento da Pátria Grande possa reaparecer e que a libertação dos nossos povos seja um horizonte. Que possamos construí-lo, livremente.
Que a paz seja inquieta, e que seja paz.