Em 2026, vamos redescobrir a antiga virtude da temperança. Artigo de Roberto Esposito

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07 Janeiro 2026

"O que está em jogo nessa dialética é o papel do desejo. Ele constitui uma energia produtiva que, em última análise, coincide com a força da vida. Mas, desvinculado de toda lei, corre o risco de mergulhar no delírio — como aquele do Capitão Ahab em Moby Dick, literalmente engolido por sua própria obsessão. Ou, na mitologia clássica, como acontece a Tântalo, Hércules ou Polifemo, que, dominados e perdidos por seus excessos, provocam a vingança dos deuses", escreve Roberto Esposito, filósofo italiano, professor da Escola Normal Superior de Pisa e ex-vice-diretor do Instituto Italiano de Ciências Humanas, em artigo publicado por La Repubblica, 02-01-2026. A tradução é de Luisa Rabolini.

Eis o artigo.

E se, neste ano que está começando, tentássemos redescobrir a virtude da temperança? Certamente, o ano que termina, e os que o precedem, não nos incentivam a pensar assim. Guerras, conflitos devastadores e confrontos intermináveis parecem empurrar o mundo na direção oposta. O próprio discurso político, mesmo na Itália, parece ser refém de uma intemperança generalizada.

O extremismo, não apenas verbal, das forças políticas prevalece amplamente sobre a capacidade de afirmar valores positivos, assim como o grito leva a melhor sobre o raciocínio pacato. Uma deriva que não poupa o discurso público, cada vez mais dominado pela violência das redes sociais.

Talvez o ápice dessa deriva tenha sido atingido com o ataque dos seguidores de Trump ao Capitólio em 6 de janeiro de 2021. Aquele evento, longe de ser isolado no cenário contemporâneo, confirma que impulsos autoritários latentes espreitam dentro das democracias, prontos para explodirem quando os freios institucionais falham.

Nesse contexto generalizado, é difícil não apenas praticar, mas até mesmo nomear a temperança.

É difícil encontrar uma virtude mais desacreditada e desatualizada. Confundida com a submissão e a condescendência, é até mesmo equiparada à hipocrisia. Uma virtude burguesa por excelência, não tem nada de heroico ou enaltecedor. Evoca a mediação. Portanto, é particularmente desprovida de atratividade em um período como o que vivemos, que busca no excesso o motor da energia política.

É só isso? Não, há muito mais, como nos explica, por exemplo, Temperanza (Temperança), um belo livro da série da editora Il Mulino dedicada às "palavras na contramão do tempo". Nesse livro, o autor, Gennaro Carillo, inverte a perspectiva vigente, tornando a temperança não apenas uma virtude ativa, mas também uma virtude politicamente necessária para resistir a poderes que se declaram absolutos, livres de quaisquer restrições, além de qualquer controle.

Para reconstruir o perfil dessa virtude tão desconsiderada, precisamos recuar bastante, até Platão. Apesar de seu preconceito antidemocrático, o filósofo grego compreendeu, em antecipação aos tempos, que uma tentação demagógica habita a própria democracia, como uma espécie de duplo fundo tirânico. Essa tentação, adormecida até certo ponto, desperta quando o poder, mesmo que legitimamente eleito, passa a exigir uma liberdade absoluta que acaba por se transformar em arbítrio.

De fato, Carillo recorre justamente a Platão para construir uma genealogia sugestiva da temperança que, contrariando suas interpretações reducionistas, recupera seu pleno significado positivo. Na raiz dessa inversão reside a simetria platônica entre pólis e psique, que atribui os fenômenos autoritários a correntes pulsionais não governadas pela razão.

A tradição filosófica, mas também artística e literária elabora esse paradigma, representando-o de diversas formas. Os afrescos de Giotto na Capela Scrovegni, a alegoria do Bom Governo de Lorenzetti em Siena, a iconografia de Cesare Ripa e os painéis de Parmiggiani no Eremitério Sagrado de Camaldoli retratam a temperança como a própria base da convivência civil. Esse tema permeia todo o Renascimento, de Erasmo a Montaigne, até o Iluminismo, antes do Romantismo inverter a tendência, restaurando relevo a virtudes heroicas em detrimento das moderadas.

O que está em jogo nessa dialética é o papel do desejo. Ele constitui uma energia produtiva que, em última análise, coincide com a força da vida. Mas, desvinculado de toda lei, corre o risco de mergulhar no delírio — como aquele do Capitão Ahab em Moby Dick, literalmente engolido por sua própria obsessão. Ou, na mitologia clássica, como acontece a Tântalo, Hércules ou Polifemo, que, dominados e perdidos por seus excessos, provocam a vingança dos deuses.

Em todos eles, atua uma pulsão para abusar sobremaneira de vinho e poder. Não é à toa que a atitude oposta é típica da temperança: "A virtude", escreve Simone Weil, "é um estado de aceitação do vazio". Não desejar em vão, muito menos esvaziar o desejo, mas reconhecer o limite além do qual não se pode ir, sob pena de deslizar para a autodestruição.

Somente aqueles que aceitam abrir mão de algo são capazes de resistir a essa compulsão de repetir que pode levar à morte. E, afinal, não é a democracia o único regime que reconhece o poder como um trono vazio, que não deve ser ocupado por ninguém de forma permanente e absoluta? No conto de Balzac, "A Pele do Onagro", o protagonista adquire um talismã — justamente a tal pele — que lhe permite realizar todos os seus desejos. Ele passa de uma mulher para outra, entregando-se aos prazeres sem freios, até que a pele, que vai diminuindo de tamanho à medida que é usada, se acaba, levando-o à morte. Nesse sentido, poder-se-ia dizer literalmente que ele morre de desejo.

Isso acontece quando o desejo é vinculado ao prazer infinito. Então, a vontade de se expandir preenche todos os espaços, removendo o desejo da relação vital com a realidade e relegando-o ao imaginário. Contra essa pulsão de morte, a temperança sugere o caminho oposto. Não querer tudo, não exercer todo o poder de que se dispõe, mas experimentar, dentro dos próprios limites, aquele, insuperável, de cada vida humana.

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